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Correio da Manhã

Cultura
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Escrita erótica entre as apostas de 2007

Longe dos dias de clandestinidade, a literatura erótica, em Portugal, é agora presença obrigatória nos catálogos de qualquer editora, quase sem excepção. Mudança de valores para uns, das leis de mercado para outros, certo é que os títulos crescem nas montras das livrarias e ganham cada vez mais espaço nas prateleiras das casas.
29 de Janeiro de 2007 às 00:00
No entanto, eleger a melhor ou pior passagem de um livro erótico não é fácil e, entre os escritores convidados a fazê-lo, só Rita Ferro avançou um nome mas não uma obra e muito menos um excerto. O seu nome: Marquês de Sade.
Boa escolha, tanto mais que entre as novidades em catálogo para o primeiro trimestre do ano temos a ‘História de Juliette ou as Prosperidades do Vício’, de Marquês de Sade (ed. Guerra & Paz), a partir de amanhã nas livrarias. “Nele se relatam as aventuras de Juliette, a quem uma vida dissoluta e sem quaisquer limites morais traz todas as prosperidades e benefícios [...] um relato de referência para todos os que queiram ir ao mais fundo da sexualidade humana”, lê-se.
Mas há mais e entre Fevereiro e Março chega ao mercado ‘Um Longo Fim-de-Semana Erótico – Quatro Dias de Paixão para uma Vida de Sexo Intenso’, da dupla de sexólogos Lana Holstein e David Taylor (ed. Lua de Papel) e ainda ‘Pecados Íntimos’, um lançamento associado ao filme de Tom Perrotta, assim como ‘O Fruto Proibido’, de Rita Mae Brown e ainda ‘Correr com Tesouras’ (título provisório) de Augusten Burroughs (ed. Bico da Pena).
E se a literatura erótica parece não inspirar os nossos escritores, o mesmo não acontece com os nossos editores. Em 2006, recorde-se, alguns arriscaram novas chancelas dedicadas a cobrir em exclusivo este género (Pergaminho/Bico da Pena e Asa/Lua de Papel), enquanto paralelamente outros testaram com prudência uma aproximação ao tema (Guerra & Paz). No final, num caso como no outro a tendência para 2007 é continuar o bom trabalho a avaliar pela boa resposta dos leitores.
De expressão muito discreta, salvo as honrosas excepções, que sempre as há, o erotismo em português está mais nos olhos de quem lê do que na mão de quem escreve.
São disso exemplo referências episódicas como as que encontramos em ‘A Ilha dos Amores’ em ‘Os Lusíadas’, de Camões ou no legado poético-humorístico de Bocage com as ‘Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas’ ou o ‘Declínio Amoroso e Outros Poemas’.
No século XX a literatura erótica em versão portuguesa sai do armário com os nomes de Fernando Pessoa (‘Poemas Ingleses’) e Sá-Carneiro (‘O Incesto’), António Patrício (‘Suze’) e Manuel Teixeira-Gomes (‘A Cigana’), Urbano Tavares Rodrigues (‘Estação Dourada’) e José Saramago (‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’), Manuel Alegre (‘Jornada de África’) e Maria Teresa Horta (‘A Paixão Segundo Constança H.’) ou o registo ‘porno’ de excepção de ‘O Amor é Fodido’, por Miguel Esteves Cardoso.
CLÁSSICOS
Entre os livros eróticos de referência está o clássico dos clássicos: ‘Kama Sutra’, do profeta Vatsyayana (séculos I-IV AC) que está para a civilização hindu como ‘O Jardim Perfumado’, do xeque Nefzaui, para a árabe e ‘Jou Pu Tuan’, de Li Yu, para a chinesa, ou ‘A Arte de Amar’, de Ovídio’, para o mundo ocidental: manuais de instrução e códigos de comportamento mais do que descrição ‘voyeurista’ de órgãos e funções. Seguem-se: ‘Lisístrata’, de Aristófanes, ‘Decameron’, de Boccaccio, ‘Os Cento e Vinte Dias de Sodoma’, de Sade, e ‘A Vénus das Peles’, de Sacher-Masoch... São expressões derivadas dos seus nomes: sadismo e masoquismo, ou seja, o prazer pela dor.
O QUE ELES ESCREVEM
- Lambendo primeiro as ancas a direito, coladas aos ossos, em seguida as virilhas com o sabor ácido de um fruto muito maduro mas ácido. Depois os testículos grandes e subidos sobre um pénis moreno, macio, enorme que a obcecava. - Maria Teresa Horta ‘A Paixão Segundo Constança H.’ ed. C. Leitores, 1994
- Calma, não te preocupes, não te movas, deixa que eu trate de ti, então sentiu que uma parte do seu corpo, essa, se sumira no corpo dela, que um anel de fogo o rodeava, indo e vindo, que um estremecimento o sacudia por dentro, como um peixe agigantando-se. - José Saramago ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’, ed. Caminho, 1991
- Miguel passou-me o braço pelos ombros e estávamos assim os dois sentados num divã muito largo, comprimidos por corpos que enlanguesciam, alguns abraçados. Uma que soube depois que era a Liliane tinha boca grudada nos lábios de uma turca que me afagava as costas com os dedos dos pés. - Natália Correia ‘A Madona’, ed. Notícias, 2000
- É em delírio, como num sonho mau, mas onde o mal é o bem e o bem é o mal, quando António se arqueia sobre ela, que a estaca vermelha se enterra não na boca, como previsto, mas na obscura flor do ventre de Madalena. O orgulho dela – loucura divina – dissipa-se quando os lábios comovidos de ambos se unem sobre o ardor da batalha. - Urbano Tavares Rodrigues ‘Estação Dourada’, ed. Europa-América, 2003
- Você é fêmea, dizia-lhe ele, deixa-te vir, respondia ela, de cada vez como se fosse a primeira e a última. Apetecia--lhe entrar nela todo inteiro, chicotear-lhe as coxas com os dedos, galopar com ela para sempre e nunca mais, minha égua, dizia-lhe ele, cavalga-me toda, pedia ela, ora escrava ora rainha. - Manuel Alegre ‘Jornada de África’ ed. D. Quixote, 1989
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