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Correio da Manhã

Cultura
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Eunice Muñoz: A entrega da voz, corpo, alma e vida ao palco

Foram 80 anos de palco que fizeram dela uma das atrizes mais premiadas e celebradas pelo público em Portugal.
Pedro Zagacho Gonçalves(pedrogoncalves@cmjornal.pt) 15 de Abril de 2022 às 08:22
Eunice Muñoz
Eunice Muñoz, em 2009
Eunice Muñoz com Raul Solnado e Ruy de Carvalho
Eunice Muñoz em 2008, quando venceu um Globo de Ouro
Eunice Muñoz em 2006
Eunice Muñoz
Eunice Muñoz, em 2009
Eunice Muñoz com Raul Solnado e Ruy de Carvalho
Eunice Muñoz em 2008, quando venceu um Globo de Ouro
Eunice Muñoz em 2006
Eunice Muñoz
Eunice Muñoz, em 2009
Eunice Muñoz com Raul Solnado e Ruy de Carvalho
Eunice Muñoz em 2008, quando venceu um Globo de Ouro
Eunice Muñoz em 2006

Foram 80 anos de palco que fizeram dela uma das atrizes mais premiadas e celebradas pelo público em Portugal. Eunice Muñoz morreu aos 93 anos.

Iniciou-se no teatro mas depressa o tamanho talento transbordou para o cinema, para a televisão, para a declamação de poesia. Experimentou sucessos em todas as plataformas, foi mestre de todos os géneros.

Nasceu Eunice do Carmo Munhoz, no seio de uma família de atores a 30 de setembro de 1928, na Amareleja, em Moura. O pai, Hernâni Cardinali Muñoz e a mãe, Júlia ‘Mimi’ do Carmo Muñoz, eram já nomes celebrados do teatro nacional e os filhos seguiram-lhes as pisadas.

Com apenas 13 anos, em 1941, estreia-se num dos maiores palcos portugueses, o do Teatro Nacional D. Maria II, em Vendaval, de Virgínia Vitorino, com a companhia Rey Colaço/Robles Monteiro. Partilha o palco com nomes tão grandes como Amélia Rey Colaço, João Villaret, Palmira Bastos ou Raul de Carvalho e, mesmo sendo a pequena Eunice estreante, o seu talento brilha tanto que os ‘mestres’ integram-na logo na companhia.

É com Palmira Bastos que volta à cena, em Riquezas de Sua Avó, e Frei Luís de Sousa, em 1943, no papel de Maria, e logo depois, no ano seguinte, com Labirinto, de Manuel Pressler. No mesmo ano é protagonista, pela primeira vez, na opereta João Ratão, com Estêvão Amarante, e participa também em A Portuguesa, de Carlos Vale, onde é dirigida por Maria Matos. 

Sempre cuidadosa com os estudos, ingressou na Escola de Teatro do Conservatório Nacional em 1942, que viria a terminar três anos depois com distinção: acabou com 18 valores.

Ao terminar esta formação torna-se popular no Teatro Variedades do Parque Mayer, ao lado de Vasco santana e Mirita Casimiro em Chuva de Filhos. Estreia-se no cinema em 1946, com Camões, de Leitão de Barros e a prestação vale-lhe o prémio de melhor atriz de cinema do Secretariado Nacional de Informação. Seguem-se Um Homem do Ribatejo (no mesmo ano) e Vizinhos do Rés-do-Chão (1947), onde Eunice mostra-se versátil e uma força em frente à câmara, tanto quanto em cima do palco. Viria a ser esta dualidade a marcar-lhe a carreira nos anos seguintes.

Casa-se com o arquiteto Rui Ângelo de Oliveira do Couto, em 1947, de quem tem uma filha.

No ano seguinte está de volta ao Teatro Nacional, com Outono em Flor (de Júlio Dantas) e Espada de Fogo (de Carlos Selvagem). Nesta última peça é dirigida pela mestra e agora amiga Palmira Bastos (no papel de encenadora, após terem partilhado o palco), e o espetáculo é um sucesso que dá que falar em todo o País.

Ganhando o gosto ao cinema, entrega o seu talento em A Morgadinha dos Canaviais (1949), filme de Caetano Bonucci e Amadeu Ferrari, baseado no famoso romance de Júlio Dinis, e também em Ribatejo de Henrique Campos.

O começo da década de 50 marca o seu regresso aos palcos e a géneros diferentes: no Maria Vitória brilha na revista Disco Voador e protagoniza a comédia Ninotchka, ao lado de Igrejas Caseiro, Maria Matos ou Vasco Santana. Seguem-se breves passagens pela companhia do Teatro Ginásio e pelo teatro da Trindade. Em 1952 surpreende ao anunciar um interregno (que durou quatro anos), deixando o público, a imprensa, a crítica e o próprio Teatro em inquietação.

Volta Eunice ao palco, em 1956, o seu habitat natural, de forma grandiosa, com Joana D’Arc, de Jean Anouih, ao Teatro Avenida. O regresso causa ondas em todo o País, a crítica rendida, uma Avenida de Liberdade com filas enormes para conseguir o bilhete para ver uma Eunice a quem a imprensa chama "genial".

Nesse mesmo ano volta a casar com o engenheiro Ernesto Borges, união da qual viriam a nascer quatro filhos. Em 1957 junta-se à amiga de palcos Maria Lalande, Isabel de Castro, Ruy De Carvalho ou Maria José no Teatro Nacional Popular, onde leva à cena peças de Shakespeare, Júlio Dantas, Luiz Francisco Rebello ou Tchékhov.

Volta à comédia, na Companhia Teatro Alegre, no Parque Mayer e, no Monumental, vence o prémio de Melhor Atriz do SNI, pela prestação em O Milagre de Anna Sullivan, de Gibson. Na década de 60 torna-se presença mais assídua na televisão, em peças repetidas que são transmitidas a pedido do público, e também em séries. Destaca-se Cenas da Vida de uma Atriz, onde contracena com a própria mãe Júlia ‘Mimi’ do Carmo Muñoz.

Em 1965 junta-se a outra grande referência da comédia portuguesa, Raúl Solnado, e funda a Companhia Portuguesa de Comediantes, no então novo Teatro Villaret. Eunice recebia na altura 30 mil escudos por mês: o recorde para uma atriz na altura. Aí brilha com interpretações inesquecíveis de peças de Richard Nash ,Tennessee Williams ou Bernardo Santareno.

Volta a casar, pela terceira vez, com António Barahona Fonseca, poeta de quem tem uma filha.

Começa a década de 70 a estender o talento além-fronteiras, em Angola e Moçambique, com a Companhia Somos Dois, que fundou com José de Castro e, em 1971, regressa à companhia que a lançou na carreira, (Rey Colaço/Robes Monteiro), no Teatro da Trindade. É nesse mesmo ano que no São Luiz, integra o projeto leva a cena A Salvação do Mundo, de José Régio, e cuja posterior encenação de A Mãe, de Stanislaw Wikitiewicz, acaba travada pela PIDE escassos momentos antes de Eunice subir ao palco – o grupo acabaria aí com a demissão de Luiz Franco Rebello, que dirigia a companhia.

Divide-se entre a declamação de poemas, o Teatro Experimental de Cascais e uma turné por África com Carlos Avillez, antes de voltar ao reaberto D. Maria II em 1978, para históricas apresentações de Brecht, Eurípedes, John Murray, e no qual também viria a trabalhar, mais tarde, com Filipe La Féria, em Passos do Rossio.


No cinema, é dirigida por João Botelho em Tempos Difíceis (1987), depois de entrar em Manhã Submersa, adaptação do clássico de Vergílio Ferreira, por Lauro António, e em Repórter X, de José Nascimento.


Celebra os 50 anos de palco em 1991, com uma exposição no Museu Nacional do Teatro, e é condecorada no Teatro Nacional pelo então Presidente da República Mária Soares.


Estreia-se nas telenovelas em 1993, dando vida à famosa banqueira Dona Branca em A Banqueira do Povo.

Eunice é A Maçon em 1997, no Teatro Nacional, peça escrita de propósito para a diva do teatro português por Lídia Jorge.

Já em 2001 volta a ser dirigida por La Feria no Politeama, em A Casa do Lago, de Ernest Thompson.

Vai-se tornando rosto cada vez mais comum na televisão, com várias participações em telenovelas de grande sucesso, como Todo o Tempo do Mundo (1999), Olhos de Água (2001), Mistura Fina (2004), Dei-te Quase Tudo (2005), Equador (2009), Mar de Paixão (2010) Destinos Cruzados (2013), e A Impostora (2016).

Em 2006 representa pela primeira vez no auditório homónimo, em Oeiras, com Miss Daisy e no ano seguinte, com Diogo Infante, leva a cena A Dúvida, de John Patrick Shanley, no Teatro Maria Matos. Vence o Globo de Ouro de Mérito e Excelência, em 2008. Nesse ano participa também no

Sob direção de Infante, sobe ao palco do Teatro Nacional D. Maria II com o monólogo O Ano do Pensamento Mágico, em 2009. Volta a subir ao palco dois anos depois, com O Comboio da Madrugada, de Tennessee Williamse, em 2011, O Cerco a Leninegrado, de José Sanchis Sinisterra. No dia dessa estreia assinala os seus 70 anos de carreira.


A saúde começa a dar primeiros sinais de fragilidade. Uma queda na reposição de O Comboio da madrugada, no D. Maria II, em 2012, cai, parte os dois punhos e sofre uma lesão na cervical. É-lhe detetado um cancro na tiroide, que se viria a revelar um pesadelo. Uma sucessão de cirurgias para retirar o tumor deixa Eunice sem voz.

O cancro arranca-a dos palcos e deixa-a triste, mas esperançosa numa recuperação. Na altura, depois de dois anos sem subir ao palco, confessou a falta que sentia do trabalho como atriz ao Correio da Manhã "Ter uma voz, a voz que sempre tive, e não poder usá-la quando é necessário é muito doloroso. Para continuar a sorrir tenho a minha família e a minha fé em Deus", disse, fazendo questão de esforçar a voz para relatar esta mágoa e alertar para a atenção a ter para os problemas na voz.

Com terapia vocal, volta a conseguir falar no final de 2015. É nesse mesmo ano, a 13 de setembro, que tem lugar o espetáculo 74 Eunices, dirigido por Cristina Carvalhal, na Sala Garret Teatro Nacional D. Maria II. A homenagem à carreira da atriz contou com um elenco de 74 atrizes, que deram vida às várias facetas e personagens que marcaram a carreira da celebrada atriz portuguesa.

Eunice volta ao pequeno ecrã um ano após recuperar a voz. Brilha nas novelas da TVI A Impostora (2016), A Teia (2019) e Quer o Destino (2020).

Decide retirar-se dos palcos e anuncia a despedida, aos 80 anos de uma carreira para lá de cheia, com A Margem do Tempo. Com a neta Lídia Muñoz, realiza um périplo por teatros de norte a sul do País, que se revela um sucesso com sucessivas sessões esgotadas, mesmo em plena pandemia da Covid-19.

No final de julho de 2021, a dia 24, é internada no Hospital de Santa Cruz, em Carnaxide, durante algumas semanas, para realizar exames. O internamento foi por precaução, uma vez que a atriz apresentaria sinais de cansaço e fragilidade no decorrer da tournée de A Margem do Tempo. A conselho médico é aconselhada a parar.

Ordens Honoríficas

1981 – Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago de Espada

1990 – Medalha de Mérito Cultural, pelo Ministério da Cultura

1991 – Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique

2010 – Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago de Espada

2011 – Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique

2018 – Grã-Cruz da Ordem de Mérito

2021 – Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago de Espada

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