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Correio da Manhã

Cultura

Leonel Almeida: "A voz de Cabo Verde foi uma lição de vida para os músicos"

Foi com os Birds que deu os primeiros passos na música. Tinha na altura uns catorze ou quinze anos de idade.
Tiago Sousa Dias 18 de Novembro de 2021 às 22:42
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Leonel Almeida: "A voz de Cabo Verde foi uma lição de vida para os músicos"

Nascido em São Vicente, Cabo Verde, foi com os Birds que Leonel Almeida começou na música. Tinha na altura uns catorze ou quinze anos de idade. O grupo onde também tocava Paulino Vieira foi criado por Padre Simões, que na época incentivou muitos jovens a crescer com a música.

Leonel estava então no liceu, e não sonhava ser cantor. As suas ambições passavam por vir para Portugal estudar Belas Artes, e evoluir como pintor. O serviço militar acabou por dar outro rumo à sua vida. "Fui para a tropa em São Vicente, e comecei a cantar com o grupo de Malaquias Costa, Os Alegres. Fizemos várias atuações em São Vicente e Santo Antão", recorda o cantor Cabo-verdiano. 

Na altura da independência Leonel atuava nos saraus musicais do PAIGC. "Num desses saraus, o Luís Morais gostou de me ouvir cantar. Fez-me um convite para entrar na Voz de Cabo Verde. Com a anuência do Bana vim para Portugal, porque eles não tinham vocalista. Quem desenrascava, e bem, era o génio Paulino Vieira. Mas naquele tempo ele era pianista. Precisavam de um cantor, e então eu vim, e começamos a fazer digressões. A primeira foi à Guiné Bissau, depois Holanda, Suíça. Começamos a fazer a Europa para os emigrantes de Cabo Verde".

Em 1976, o cantor Bana abriu um restaurante em Lisboa, o Novo Mundo (mais tarde, Monte Cara). "Era o nosso quartel. Onde ensaiávamos, preparávamos as tournées e os trabalhos discográficos.", recorda Leonel Almeida. "Nesse tempo atuávamos à noite. O restaurante era em cima e nós atuávamos em baixo. O Bana cantava, eu cantava, o Paulino cantava. O Luís Morais era o nosso diretor, mas voltou para Cabo Verde para ser professor de música e quem começou a dirigir musicalmente a Voz de Cabo Verde foi o Paulino Vieira. O Bana montou a editora Monte Cara, onde fazíamos gravações com vários artistas de Cabo Verde, e não só.", lembra Leonel Almeida. O grupo ainda fez uma digressão pelos Estados Unidos, mas com o passar do tempo cada um começou a seguir o seu caminho. Paulino Vieira com a sua carreira a solo, e mais tarde com Cesária Évora em França, juntamente com Toy Vieira e Armando Tito. "E eu comecei a fazer os meus espetáculos a solo. Por Angola, Guiné Bissau, Cabo Verde, França, Luxemburgo, por aí. E a vida continua, mas eu nunca deixei de estar ao lado do Bana. Pessoa que me trouxe para Portugal, e a quem devo muito. Muita consideração", declara o cantor, que não esquece também Malaquias Costa, Padre Simões, Luís Morais, e todos os colegas da Voz de Cabo Verde. Armando Tito, Bebeth, Joãozinho Severiana, Cabanga, Tito Paris, Toy Vieira, Toy Paris e muitos outros. "Foi uma lição de vida para nós. Aquilo parecia uma academia pequenina de onde saiam vários músicos", recorda Leonel Almeida.

O cantor tem novo disco preparado, com o título Serenata de Saudade. Leonel estava em Cabo Verde quando soube que Zequinha dos Bulimundo tinha falecido. No funeral lembrou-se que um dos sonhos de Zequinha era cantar com uma orquestra. Surgiu então a vontade de o fazer, de gravar um ou dois temas com uma orquestra. Com a ajuda de alguns amigos de Angola, Portugal e Cabo Verde conseguiu realizar esse trabalho. "Quando esse disco sair,  não é um disco de negócio, porque a Serenata de Saudade é à base de Morna. A Morna não é um disco que se vende em grandes quantidades, mas vai caindo algum. Dedico o Serenata de Saudade a todos os músicos que já faleceram. Mas são vários, nós temos mais de sessenta músicos que já desapareceram deste mundo. Mas é dedicado principalmente ao Zequinha. Porque foi a pessoa em quem me inspirei. Foi um grande cantor que desapareceu muito cedo", refere Leonel Almeida.

O cantor desenhou algumas capas de discos, e isso deixa-o bastante feliz. Em tempos difíceis, quando tudo era feito à mão, sem computadores. Mas sente que hoje em dia a mão para a pintura já não seria mesma. "A pintura é uma coisa estranha. Ou se tem paz de espirito para pintar, ou é melhor não pintar. Sair a correr de um ensaio ou espetáculo musical para ir pintar não vale a pena. A pintura é uma arte de amar. Se hoje voltasse a pintar, não seria a mesma coisa. Porque perdi a mão. Em três profissões que poderia escolher, a arte de cozinhar é que é a minha. O meu amor é a cozinha. A minha paixão é a música. E o que me deu de viver, de comer, de vestir...eu tenho de cantar. Eu devo isso tudo aos meus fãs. Sem eles não seria nada. Sem os compositores de Cabo Verde, que já fizeram muita música que eu canto. Sem os músicos e as pessoas que me dirigem não seria nada. Passaria ao lado. É com humildade que lhes agradeço, do fundo do coração. Não vou mencionar nomes porque são tantos. Há especiais, eles sabem".

Leonel Almeida continua a cantar por Lisboa, seja no Café de la Musique ou noutros palcos. No dia 30 de Novembro vai estar no espaço B.Leza para um concerto com a banda Monte Cara, onde tocam Zé António, Manuel Paris e Toy Paris. e como convidados vão participar também Rui Veloso, Dany Silva e Luís Caracol.

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