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Correio da Manhã

Cultura
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MORREU O FADISTA FERNANDO MAURÍCIO

O fadista Fernando Maurício, considerado por muitos o "rei do fado", faleceu ontem no Hospital St. António dos Capuchos, em Lisboa, vítima de trombose, aos 69 anos de idade. Fernando Maurício, que celebrizou o tema "Igreja de S. Estêvão", encontrava-se acamado há bastante tempo, segundo revelou ontem à agência Lusa fonte familiar.
16 de Julho de 2003 às 00:00
Fernando Maurício era considerado o rei do fado
Fernando Maurício era considerado o rei do fado FOTO: d.r.
O funeral realiza-se hoje, às 15h30, no Cemitério dos Prazeres. Religioso, familiar, de coração mesmo ao pé da boca, "artista do povo" como gostava de se auto-intitular, Fernando Maurício preferia cantar em festas de bairro e restaurantes típicos e fugia do chamado fado com verniz e champanhe. Talvez tenha sido por isso um dos fadistas da sua geração que menos discos gravou. "Podia ter tido uma carreira extraordinária, pelos seus dotes interpretativos, mas descurou-a, pois não era vaidoso ou materialista", recorda Luís de Castro, presidente da Associação Portuguesa dos Amigos do Fado (APAF).
Homem de muitas leituras e poucos sonos, promovia a boémia como qualquer bom fadista e defendia, acima de tudo, a genuinidade do fado. De tal forma que há dois anos recebeu a Medalha da Cidade e a comenda de Bem-Fazer da Presidência da República.
Luís de Castro recorda hoje "o menino que cantava nas casas da Mouraria, no Chico da Severa ou na Taberna do Saloio. "Eu abria o ferrolho, abria a porta pela surdina e ia para a taberna ", disse o fadista numa entrevista em 1998. "Depois punham-me em cima de uma pipa e eu cantava".
UMA LENDA AOS 13 ANOS
Nascido na rua do Capelão (mesmo em frente à casa da Severa), na Mouraria, a 21 de Novembro de 1933, Fernando Maurício apareceu pela primeira vez aos 13 anos no Concurso João Maria dos Anjos, no antigo Café Latino, e ficou em 3.o lugar. A sua prestação foi de tal forma emotiva que a Inspecção-geral dos Espectáculos, a título excepcional, o autorizou a iniciar uma carreira profissional.
Em 1969 recebeu o Prémio da Imprensa para o melhor fadista e durante 20 anos cantou aos microfones da então Emissora Nacional. Foi também um dos primeiros fadistas a cantar na RTP.
Entre os vários prémios que recebeu, mas aos quais pouco ligava, contam-se ainda os de Prestígio e Carreira atribuídos pela Casa de Imprensa (1985 e 1986). Para o musicólogo Rui Vieira Néry, o fado de Fernando Maurício "assentava na identificação emocional imediata entre o fadista e cada um dos seus ouvintes".
Foi muitas vezes identificado com o bairro da Mouraria que o viu nascer, mas como viria a confessar em entrevista: "O fado é o meu bairro".
A influência que teve junto dos fadistas da nova geração é directamente proporcional ao carinho que todos lhe têm. E isso mesmo foi constatado por uma jornalista da revista “Time” que, após assistir ao jantar do 69.o aniversário de Fernando Maurício, em 2002, na Petisqueira de Alcântara, descreveu assim o encontro entre este e Mariza, uma das convidadas. “Ela aplaudiu-o e gritou efusivamente. Então, o rei do fado atravessou a sala e beijou-a com carinho, numa intensa manifestação de reconhecimento entre uma geração do fado e outra”.
ARTISTAS E AMIGOS SÃO UNÂNIMES NO RECONHECIMENTO
“Perdi um grande amigo, um artista a quem dediquei um fado num dos meus primeiros discos, uma música chamada ‘Rei do Povo, Rei do Fado’. Acho que este título explica tudo em relação a um artista que trouxe ao fado um estilo novo e marcante. Tinha uma forma muito própria de cantar e deixa uma grande influência”. Nuno da Câmara Pereira (Fadista)
“O fado popular perdeu o seu Rei. Eu considero o Fernando Maurício como o grande contador de histórias do fado tradicional, um dos artistas mais influentes do fado. Hoje é um dia muito triste. A sua morte deixa a Mouraria de luto e a mim também, visto que perdi, acima de tudo, um companheiro, um grande amigo”. Mariza (Fadista)
“Lamento muito o falecimento do Fernando Maurício. O seu desaparecimento constitui o desaparecimento de um fadista que fez escola, que influenciou um número enorme de artistas, o que se vê na quantidade de fadistas que cantam como ele. Perdeu-se o mais bairrista de todos os fadistas da minha geração”. Carlos do Carmo (Fadista)
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