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Correio da Manhã

Cultura
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“‘Mutts’ reflete os meus valores na defesa dos animais”

Autor da premiada série ‘Mutts', Patrick McDonnell explica o conceito e as influências que estiveram por trás da criação da série que está em exposição no Amadora BD até este domingo. 
9 de Novembro de 2013 às 18:41
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mutts, bd, banda desenhada, exposição, amadora, patrick mcdonnell FOTO: d.r.

Esperava-se a sua vinda ao Amadora BD, em virtude de ter ganho o troféu Melhor Álbum de Tiras Humorísticas na edição de 2012 com o livro ‘Os Nossos Mutts'...
Jeannie Schulz, viúva de Charles Schulz, autor de ‘Peanuts' já me tinha falado do Amadora BD, quando passou pelo festival, e disse-me que era algo a que não devia faltar. Motivos pessoais de última hora impediram-me de estar presente no festival, mas conto visitá-lo no próximo ano e encontrar-me com os fãs da série.

O que é que os amantes de histórias aos quadradinhos podem ver na exposição, que está patente até domingo, no festival?
Para esta exposição, selecionei 67 peças de arte, a maior parte delas tiras originais de ‘Mutts'. Acredito que os amantes da série vão gostar do que está exposto.

Como é que o Patrick Mcdonnell se define como autor de banda desenhada?
Já nem me consigo lembrar de quando comecei a desenhar, mas recordo-me que sempre quis ser cartoonista. Os meus pais conheceram-se numa escola de de artes, e ainda era eu pequeno, fui sempre encorajado por eles para desenhar. Formei-me na Escola de Artes Visuais de Nova Iorque, e comecei a fazer ilustrações humorísticas para várias publicações, como o 'The New York Times', a 'Time' e a 'People'. Em 1994, decidi seguir o meu sonho e comecei a desenhar ‘Mutts'.

Qual o segredo para o sucesso da série protagonizada pelo cão Earl e pelo gato Mooch?
É incrível pensar que as tiras de ‘Mutts' que criei no meu estúdio de New Jersey são lidas em todo o mundo. Faz-me acreditar que o nosso planeta é um lugar muito pequeno. Não sei qual é o segredo para o êxito da série, mas acredito que ela seja popular porque as pessoas reconhecem a ligação que têm com os seus animais de estimação. Aliás, ‘Mutts' reflete os meus valores pessoais na defesa dos animais.

O ‘merchandising' associado a ‘Mutts' pode ser uma explicação possível?
É uma boa questão. Eu tentei limitar ao máximo a venda de produtos que protejam o ambiente e defendam animais, porque reflete os meus valores pessoais. Até os livros de ‘Mutts' são editados nos Estados Unidos em papel reciclado.

Onde é que encontra inspiração para as tiras que saem todos os dias em centenas de jornais um pouco por todo o mundo?
Posso dizer que ‘Mutts' é uma combinação do meu amor por animais e pelo desenho. Neste caso específico, fui influenciado por Charles Schulz, com ‘Peanuts', George Herriman, com ‘Krazy Kat', e E.C. Segar, com ‘Popeye'. Mas a minha maior inspiração para a série foi Earl, o meu cão da raça Jack Russell Terrier, que morreu há cinco anos, os muitos gatos que tive, e todos os pássaros que cantam do lado de fora do meu estúdio.

Na vida real, a sua cadela Amelie e o seu gato Not Ootie são assim tão amigos como são Earl e Mooch?
Nos últimos anos, é verdade que Earl e Mooch estão a ganhar alguns dos traços dos meus animais de estimação. Eu defendo a adoção de animais nos canis e gatis, e foi num deles que conheci Amelie. Not Ootie é um gato que encontrei abandonado na rua e, depois de o alimentar durante dois anos, consegui por fim trazê-lo para minha casa.

E são muito ciumentos quando acarinha um em vez do outro?
Estes dois amigos fazem um par muito estranho. Amelie é muito tolerante com Not Ootie, exceto quando ele se aproxima da tijela da comida dela. E Not Ootie faz de conta que a cadela nem sequer existe.

É um acérrimo defensor dos direitos dos animais e está envolvido em várias ações de defesa do ambiente. A tira ‘Shelter Stories' é um dos seus principais contributos...
Quando comecei a desenhar ‘Mutts', queria apenas recordar o gozo que tinha ao ler as minhas histórias de quadradinhos favoritas, e dar voz aos sentimentos dos animais. Queria que os meus leitores percebessem que temos uma ligação com os animais, e acredito que eles partilham esta filosofia de vida. Quando desenho uma tira de ‘Shelter Stories', recebo dezenas de emails de apoio. E nada me torna mais feliz do que saber que ‘Mutts' inspirou-os para ajudar ou adotar um animal.

É um grande admirador do trabalho de George Herriman. Qual a razão para essa admiração?
‘Krazy Kat' é uma série intemporal. A primeira vez que tive contacto com ela, tinha eu 13 anos, quando li um dos livros de George Herriman [n.r.: série iniciada em 1913 e terminada repentinamente em 1944, com a morte do autor]. Era algo que nunca tinha visto até ali. A arte era muito orgânica e surreal, e os textos eram pura poesia. Fantasia e ‘nonsense': a série era sobre tudo e sobre nada. É uma fronteira que qualquer ilustrador deve tentar atingir.

Foi então uma inspiração para o seu trabalho...
George Herriman inspirou quase tudo na minha forma de fazer ilustração, desde o título da página até à colocação do texto nos balões das vinhetas.

São mais as mulheres ou os homens que apreciam ‘Mutts', mais jovens ou pessoas de meia idade?
Os emails que recebo dos admiradores da série são de ambos os sexos e de várias gerações. Em comum têm o amor que sentem pelos animais e pelas coisas simples da vida, mas também reparo nos comentários, que as tiras diárias que estão ‘online' são lidas por muitas mulheres solteiras que têm gatos.

Tem a perceção de que os leitores compram um jornal apenas para lerem a tira que lá é publicada?^
Muitos leitores dizem-me que ‘Mutts' é a primeira coisa que lêem no jornal todos os dias, e que se ela deixasse de ser publicada, deixavam de o comprar.

E tem ideia de quantos leitores a recebem por email?
O site http://www.muttscomics.com/ envia a tira todos os dias de forma gratuita para 75 mil assinantes, e mais 37 mil através da página do Facebook. Nestas contas não entram os que acedem à versão online dos jornais onde é publicada e no sítio Daily Ink da King Features Syndicate.

Reside em New Jersey, onde vive uma grande comunidade portuguesa há décadas. Conhece alguma coisa da cultura portuguesa ou tem amigos luso-descendentes?
É verdade que nesta região existe um enorme caldo de culturas, trazidas por imigrantes de vários pontos do globo. Um dos casamentos mais memoráveis em que estive foi o de um amigo português. O amor que se fazia sentir entre todos na boda foi algo emocionante. Ainda sorrio quando recordo esse dia.

Que novos projetos tem em mente a médio prazo?
O projeto que neste momento me está a entusiasmar é a longa metragem em desenhos animados de ‘Mutts', que está ser desenvolvida pela Fox e pela Blue Sky, criadores de ‘A Idade do Gelo' e ‘Rio'. Há mais de um ano que estou a acertar o argumento para o filme.

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