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Correio da Manhã

Cultura
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Preciso de regras

Mário Cláudio é, por excelência, o escritor de romances biográficos. Nos anos 80, foi um êxito a trilogia que escreveu sobre Amadeo de Souza-Cardoso, Rosa Ramalho e Guilhermina Suggia, este último, agora, reeditado (D. Quixote).
29 de Junho de 2007 às 00:00
“Encaro o trabalho literário como qualquer outro”
“Encaro o trabalho literário como qualquer outro” FOTO: Tiago Sousa Dias
A pretexto das histórias de vida dos outros, falámos da sua, a começar pelo nome e o pseudónimo – de como Rui Manuel Pinto Barbot Costa passou a responder por Mário Cláudio.
“Não é inédito o recurso a um pseudónimo literário. Por uma razão ou por outra, muitos o fazem. No meu caso, foi o acaso... Segui um gosto pessoal tal como se escolhesse o nome de um filho. Não houve qualquer relação com pessoas vivas ou mortas, personagens inventadas ou por inventar”, revela.
Para o escritor, todas as biografias são romances e todos os seus romances são biografias. E explica porquê: “Qualquer leitura é sempre ficcionada. Corresponde apenas a uma determinada dimensão daquela pessoa e não a toda a sua vida. Há uma frase de Gunther Grass que traduz isto na perfeição: ‘Todas as biografias são romances com notas’. No meu caso, todos os meus romances são biografias porque parto de figuras reais para chegar à sua mundividência, ou melhor, ao que julgo ser o seu imaginário. Qualquer romancista faz isso mas eu invento vidas para as pessoas que as viveram”.
Apesar de ter no romance o género de eleição, esta, é matéria pesada que trata de aliviar com outros géneros: o ensino e o ensaio, a dramaturgia e, sobretudo, a poesia.
“Todas essas actividades são como que exercícios da mão esquerda, ou seja, servem para refrescar das outras ocupações da escrita, designadamente, os romances que me absorvem a maior parte do tempo. E a poesia é talvez o meu maior escape. O poeta é alguém que vive de lampejos, momentos... Não concebo uma poesia produzida na base de uma rotina como acontece com uma ficção”, confessa.
Esta confissão traduz outras: disciplina rígida, horário ininterrupto, vida sedentária e, decididamente, o caos não o inspira.
“A verdade é que eu encaro o trabalho literário como qualquer outro. Preciso de regras: a insistência, a persistência ou a tenacidade são valores inseparáveis daquilo que faço. E, confesso, não tenho muito respeito pelos autores que escrevem sobre o joelho”, adianta.
As horas da manhã são dedicadas ao ofício da escrita, as outras são do homem comum que o escritor também é e conta o que faz com elas.
“Depois de almoço, raramente, escrevo. Faço as minhas leituras, dou as minhas aulas de Literatura (Serralves, Universidade Católica e Escola de Jornalismo do Porto) e, olhe, trabalho muito”, conclui.
Toda esta dedicação ao trabalho teve o seu reconhecimento em 2004, ano em que foi distinguido como personalidade do ano com o Prémio Pessoa: “Na minha obra e na minha carreira nada mudou, na minha vida sim, afinal, é um valor muito simpático e eu não sou rico”.
PESSOAL
FIGURA HISTÓRICA
“Gostava muito de reinventar a biografia do ‘Tarzan’... Sério! Ela existe mas eu acho que há outras maneiras de a abordar, porventura, mais interessantes”, diz. E mais: “Tenho inclusive um projecto entre mãos que passa, por essa figura, um ícone dos anos 20 e 30”.
DESTINO DE SONHO
A exigência é “uma qualquer ilha fora dos circuitos turísticos”. E Sicília, Candelária ou Stromboli são possibilidades de destino do ano.
SONHO DE CONSUMO
“Essa é fácil”, responde e, sem hesitação ou dúvida, ‘dispara’: “Consumir cada vez menos!”.
TEMPOS LIVRES
Sempre que pode, “apesar de poder pouco”, anda muito a pé, assiste a espectáculos e ainda... “Passo todo o tempo que posso numa casa de campo que tenho no Alto Minho”, diz.
FILOSOFIA DE VIDA
“Vive e não mordas!”: uma máxima da sua autoria para usufruto de todos.
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