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Correio da Manhã

Cultura
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QUERIDAS TIAS

Uma nasceu a 8 de Junho de 1940, filha do homem que entraria na história como ‘The Voice’, ele próprio capaz de cruzar gerações e estilos com uma classe e uma relevância ainda por igualar. A outra nasceu a 29 de Dezembro de 1946, filha de aristocratas, modelo fotográfico, cantora por via sentimental – ou não tivesse sido a mais famosa das namoradas de Mick Jagger.
7 de Novembro de 2004 às 00:00
QUERIDAS TIAS
QUERIDAS TIAS
Ambas passaram, sem grandes marcas, pelo cinema: a norte-americana rodou um filme com o pai, outro com Elvis Presley, outro com Peter Fonda, num total de sete. A segunda, com mais de uma dezena de filmes, fez um Shakespeare (‘Hamlet’), contracenou com Orson Welles e com Alain Delon, tem sido aproveitada sobretudo pelo cinema francês. As canções que lhes servem de emblema estão à beira das quatro décadas: ‘These Boots Are Made For Walking’, de Nancy Sinatra, e ‘As Tears Go By’, de Marianne Faithfull, foram gravadas e lançadas em meados dos anos 60. Ícones? Talvez. Mas, sobretudo, duas mulheres a quem a idade não impede de dar cartas. Como se prova pelos discos ora em questão, em que as ‘queridas tias’ fazem questão de se rodear de muitos dos grandes agentes da modernidade.
Para ‘Nancy Sinatra’, que arranca com um neocountry, cheio de metais, a lista é reluzente e eficaz: Jon Spencer compõe e canta em dueto no sincopado ‘Ain’t No Easy Way’, o génio de Jarvis Cocker (Pulp) ressalta nos magnéticos ‘Don’t Let Him Waste Your Time’ e ‘Baby’s Coming Back To Me’, a inquietação reencontrada de Stephen Patrick Morrissey voa alto na excelente ‘Let Me Kiss You’ (escolhida como cartão de visita, com coros do autor). Ainda assim, a canção que vai ficar, até por aparecer ‘fora do baralho’, é mesmo ‘Two Shots Of happy, One Shot Of Sad’, de Bono e The Edge, a parelha U2, num momento maior de inspiração. Mas há mais: Pete Yorn, Thurston Moore (Sonic Youth) e Steven Van Zandt ajudam a dar lastro a um disco cantado – e tocado – de forma irrepreensível, um repositório pop em que esta enérgica sexagenária pede meças a muita mocinha que por aí anda. Pode, até, ser um álbum de fecho de carreira. Chega para perceber como a filha (tantas vezes ofuscada) de Frank Sinatra merece ficar bem na fotografia.
Se ‘Nancy Sinatra’ é a Luz, ‘Before The Poison’, de Marianne Faithfull, vale a Sombra. Ou não fosse quase todo desenhado por P.J. Harvey e Nick Cave, com participações isoladas de Damon Albarn (Blur) e Jon Brion. O contraste maior, sempre bem servido pela voz rouca, quase de ‘diseuse’ de Miss Faithfull, está entre a guitarra crua dos temas de Harvey e o piano etéreo de Cave, responsável pelos três momentos-chave do álbum: ‘Crazy Love’, ‘There Is A Ghost’ e, noutro estilo, a rasgar, ‘Desperanto’. O desfecho final é sólido e prova que também Marianne está no prazo de validade. A idade não conta quando ainda se vive assim.
TOCA A TODOS
A ela, ouvimo-la recentemente no álbum de Manuel Paulo, ‘O Assobio da Cobra’. A ele, conhecemo-lo de quase todas as músicas, dos Madredeus às aventuras com o jazz e com a Música Popular Brasileira. A falta de divulgação radiofónica – lá vem outra vez o pesadelo dos formatos – não pode impedir-nos de descobrir uma pequena pérola de canções, contenção a intenção, chamada ‘Estrela’. Portugueses em alta nesta dupla quase inesperada: FILIPA PAIS e José Peixoto. A merecer plenamente a descoberta.
O baiano DORIVAL CAYMMI parece ter feito tudo bem na vida, já longa de 90 anos. Das canções, genuínos sambas, simples, imortais, até aos filhos. Três deles juntaram-se para festejar o pai e a sua infinita arte. ‘Para Caymmi, de Nana, Dori e Danilo’ é um álbum de celebração (pelo que representam as canções), de rigor (os arranjos deixam planar cada uma das criações) e de mais-valia artística (sobretudo quando Nana, uma das grandes cantoras do Brasil, solta a voz). O resultado é irresistível.
TOCA E FOGE
O êxtase da maternidade é o ponto de partida para ‘Miracle’, o novo álbum de CELINE DION, em colaboração com a fotógrafa Anne Geddes, que passa ao papel o ar embevecido da cantora com sete bebés. Não adianta nada na carreira da canadiana: vale como uma miscelânea de asneiras e belas canções, todas espartilhadas por arranjos banais. Como excepções, ouçam-se ‘The First Time Ever I Saw Your Face’ (de Ewan MacColl) e ‘Une Chanson Douce’ (de Henri Salvador). Não chega para que o disco sobreviva.
Cada vez mais, a indústria proporciona estes fogachos, aceitáveis quando vivíamos a idade do single: como é possível que um álbum quase totalmente falho de ideias – e as boas são copiadas dos Jamiroquai, entre outros – consiga um destaque de vendas e o beneplácito da crítica? Falo de ‘Songs About Jane’, dos MAROON 5, completamente rebocado por uma canção de bom efeito, ‘This Love’. Com franqueza, tudo o resto é pobrezinho, confuso, a armar ao elaborado… e vazio. Está no ‘top’ – e então?
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