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Correio da Manhã

Cultura
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Taras e manias de uma actriz polémica

Já chocou a América no grande ecrã e fora dele, mas também teve o Mundo a seus pés como actriz e percursora da ginástica aeróbica. Jane Fonda é, sem sombra de dúvida, uma das mais polémicas mulheres de sempre. Agora, os mais controversos relatos da sua vida estão no livro ‘My Life So Far’ (‘A Minha Vida Até Agora’, em tradução livre), a autobiografia lançada nos Estados Unidos no passado dia 5.
10 de Abril de 2005 às 00:00
Taras e manias de uma actriz polémica
Taras e manias de uma actriz polémica FOTO: d.r.
Ao longo de 600 páginas, Fonda discorre sobre as suas alegrias e mágoas, conquistas e desilusões e, para espanto de muitos, faz surpreendentes revelações sobre a vida íntima com os seus três ex-maridos e a polémica foto ‘Hanói Jane’.
Fonda dividiu a sua vida em três capítulos. No primeiro, recorda a infância, a entrada no mundo da Sétima Arte e os primeiros filmes, bem como o casamento com o cineasta francês Roger Vadim. Filha do lendário actor Henry Fonda e da glamourosa princesa do ‘jet-set’ Frances Seymour, a infância de Jane até poderia ter sido um conto de fadas não fossem os problemas mentais da mãe, que a levariam ao suicídio (Fonda tinha então 12 anos), a frieza do relacionamento com o pai e a sua busca incessante por uma identidade própria que a levou a cair nas ‘armadilhas’ da bulímia aos 13 anos.
Mas é sobre o primeiro marido, Roger Vadim, que Fonda faz as afirmações mais escaldantes do livro, ao revelar o seu particular apetite por sexo a três. “Às vezes erámos três na mesma cama. Ou mais! Mas algumas vezes até era eu que o solicitava. Gostava das manhãs do dia seguinte, de poder ficar a conversar calmamente com outra mulher, sobre o que a tinha levado a partilhar a nossa cama. No caso das prostitutas, ficava espantada com a quantidade de abusos que sofriam. Não era o sexo que me agradava mas antes a possibilidade de trazer alguma humanidade para o seio do nosso casamento, um antídoto para o pragmatismo e a frieza da relação”, escreveu, revoltando os seus detractores, que a acusam de fazer tais afirmações apenas porque “Vadim já está morto”.
Ao longo do livro, Jane Fonda passa ainda em revista a fase em que se tornou ‘personna non grata’ para o governo norte-americano, devido ao seu envolvimento nos movimentos contra a guerra de Vietname. Casada na época com Tom Hayden, senador e activista antiguerra, e a viver um dos melhores períodos da sua carreira como actriz, Fonda aproveita a fama para ajudar à causa do marido.
Quando é fotografada junto a armamento antiáereo do inimigo, imagem que ficou conhecida como ‘Hanói Jane’, a sociedade norte-americana não hesita em considerá-la uma “traidora” da pátria. No início dos anos 90, curiosamente, viria a ser acusada de “estar do lado do Iraque” durante a Guerra do Golfo, apenas por ser casada com Ted Turner, o fundador da CNN, estação que fazia a maior cobertura do conflito.
ARREPENDIMENTO
Em ‘My Life So Far’, a actriz admite, pela primeira vez, que a ‘infame’ fotografia aconteceu “por acidente” e deixa transparecer algum arrependimento: “Levaram-me para junto da arma e eu, simplesmente, sentei-me, sem pensar no que estava a fazer. Quando senti os ‘flashs’, levantei-me de imediato. Só pensava: ‘Meu Deus! Não podem publicar estas fotos. Não podem!’ Mas era inevitável. Chego mesmo a pensar se não terá sido tudo uma armadilha dos vietnamitas. Mas quem sou eu para os culpar? O erro foi meu, por permitir que aquilo acontesse”, escreve, acrescentando já ter pago “um preço muito alto” pelo incidente.
Fonda recorda ainda como conheceu aquele que viria a ser o seu terceiro marido, Ted Turner, cuja performance sexual também não escapa às corrosivas linhas do livro: “Era muito sofisticado. O sexo com ele era como o palácio de Versailles”.
"EXORCIZAR VELHOS DEMÓNIOS"
A publicação de ‘My Life So Far’ é, de acordo com uma entrevista recentemente concedida por Fonda ao jornal ‘Chicago Tribune’, uma forma de “exorcizar velhos demónios interiores” para “continuar a viver”. Esse é, aliás, o ‘espírito’ do terceiro e último capítulo da obra, aquele em que Fonda, com um tom inesperadamente cândido e maternalista, explica os propósitos que a levaram a escrevê-lo: “ajudar os outros através da minha experiência”.
Por isso, este é o capítulo mais instrospectivo, aquele em que Fonda se reconcilia com os traumas que durante toda a vida a perseguiram. A percursora da ginástica aeróbica, ícone da boa forma, invejada pelas mulheres do Mundo inteiro, confessa que travou uma batalha com o corpo durante 30 anos. Introduzida no doentio ciclo ‘empanturrar-vomitar’ da bulímia aos 13 anos, ainda no liceu, Fonda viveu em segredo o pesadelo durante décadas.
“A bulímia acompanhou-me durante a adolescência, dois casamentos e dois filhos. Nunca ninguém soube. Era o meu segredo mais profundo. Uma tortura auto-inflingida de que só me livrei depois dos 40 anos”, confessa. Também só aos 40 anos é que Fonda conseguiu chorar, pela primeira vez, a morte da mãe.
“Quando ela morreu, disseram-me que tinha tido um ataque cardíaco. Só mais tarde descobri, através de uma revista, que se tinha suicidado na clínica psiquiátrica onde estava internada há meses. Tinha 12 anos e não fui capaz de verter uma única lágrima, talvez por sentir um misto de revolta e um profundo alívio. Aos 40 anos, e sem qualquer razão aparente, tomei consciência do seu sofrimento. Então, as lágrimas nunca mais pararam de cair. Pensei que era incapaz de sobreviver àquela dor tão grande”, confessa.
FILMOGRAFIA
Jane Fonda começou a fazer cinema em 1960, mas o primeiro filme relevante na sua filmografia é ‘Barbarella’ (1968), no qual foi dirigida pelo realizador Roger Vadim.
Desde então, começa a firmar o seu nome em Hollywood e, um ano depois, consegue a sua primeira nomeação para os Óscares, pelo desempenho em ‘Os Cavalos Também se Abatem’ (1969). Não ganhou mas não teria de esperar muito para levar a desejada estatueta dourada para casa, o que acontece em 1972, com o filme ‘Klute’, no qual contracena com Donald Sutherland.
Muito controversa, a sua actividade política nunca chegou a prejudicar-lhe a carreira artística. Assim, em 1979, e ainda mal refeita do episódio da foto ‘Hanói Jane’, Fonda volta ao plantel dos vencedores do Óscar. A proeza acontece com ‘O Regresso dos Heróis’, obra que recupera uma das suas temáticas favoritas (a guerra do Vietname) e na qual se estreia como produtora.
Foi ainda nomeada pela Academia de Hollywood noutras quatro ocasiões, nomeadamente com os filmes ‘A Manhã Seguinte’ (1987), ‘A Casa do Lago’ (1982), ‘O Síndroma da China’ (1980) e ‘Julia’ (1977).
Entre os seus filmes mais marcantes, encontram-se precisamente ‘O Síndroma da China’, outra película liberal no qual aborda o secretismo que rodeia os acidentes em centrais nucleares, e ‘A Casa do Lago’, um melodrama sobre uma reunião familiar no qual, curiosamente, contracenou com o pai, Henry Fonda.
Além de ser uma das mais conhecidas actrizes de todos os tempos, Jane Fonda é ainda recordista de vendas de vídeos de ginástica para fazer em casa. Na década de 80, produziu e protagonizou quase duas dezenas de vídeos que despertaram o Mundo para os ‘milagres’ da ginástica aeróbica e a tornaram na nova ironia das donas de casa.
Apesar de ter anunciado a sua retirada do Mundo da Sétima Arte em 1992, Jane Fonda prepara-se para regressar ao grande ecrã com ‘Monster-in-Law’, uma realização de Robert Luketic, com estreia prevista nas salas de cinema norte-americanas para Maio, e que protagoniza com Jennifer Lopez.
OS CASAMENTOS
Os casamentos. Mais do que simples uniões matrimoniais, os três casamentos de Jane Fonda foram sempre focos de polémica. “Insegura, extremamente voluntariosa” e “desesperada por agradar aos homens” (assim se descreve em ‘My Life So Far’), Fonda nunca soube preservar a sua carreira e a individualidade das posições sociais e políticas dos respectivos cônjuges.
Assim, da mesma forma que ficou associada à imagem da ‘boneca sexy’ de ‘Barbarella’ (realizado por Roger Vadim), também nunca se livrou do estigma dos activistas contra a guerra do Vietname (o segundo marido, Tom Hayden, era senador e activista) ou das polémicas que envolveram a CNN, fundada pelo terceiro companheiro, Ted Turner.
PERFIL
Jane Seymour Fonda nasceu a 21 de Dezembro de 1937, fruto do casamento de um dos maiores actores de Hollywood dos anos 40 e 50, Henry Fonda, e da rainha do ‘jet set’ nova-iorquino Frances Seymour. É irmã do actor Peter Fonda (embora este tenha um currículo cinematográfico bem mais modesto) e tia da actriz Bridget Fonda.
Tem três filhos, fruto dos matrimónios com Roger Vadim e Tom Hayden. Frequentou os melhores colégios dos Estados Unidos da América e, antes de se estrear como actriz, foi modelo, tendo chegado a ser escolhida para a capa da mítica revista ‘Vogue’.
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