Barra Cofina

Correio da Manhã

Cultura

"Um corpo que não era o meu"

Diana Niepce é apaixonada pelos limites do corpo. Aos 28 anos ficou tetraplégica após cair de um trapézio. "Anda, Diana" é um projeto que mostra a força, a luta e a recuperação da bailarina. | FOTOS: Mariline Alves TEXTO: Marta Quaresma Ferreira VÍDEO: Mariana Margarido
23 de Abril de 2021 às 15:06
Diana Niepce é apaixonada pelos limites do corpo. Aos 28 anos ficou tetraplégica após cair de um trapézio. "Anda, Diana" é um projeto que mostra a força, a luta e a recuperação da bailarina. | FOTOS: Mariline Alves TEXTO: Marta Quaresma Ferreira VÍDEO: Mariana Margarido
23 de Abril de 2021 às 15:06

A dança é, desde sempre, a aliada de Diana Niepce. Um problema de saúde empurrou-a para o ballet aos dois anos de idade e o que se seguiu foram anos dedicados à arte, numa procura infinita entre a bailarina e a criadora.

Aos 28 anos, o enamoramento pelo trapézio, um aliado para a dança contemporânea, e uma consequente queda, obrigou-a a (re)encontrar-se num novo mundo.

O projeto "Anda, Diana" é o culminar de vários anos de recuperação, onde a bailarina dá a conhecer o processo de transformação pelo qual passou desde o acidente, em 2014, até ao presente.

Nas criações de Diana, o deslumbramento pelos limites físicos tem sempre lugar.

O acidente deixou-a tetraplégica e com uma nova noção da representatividade do corpo. "Quando tens uma lesão muito grande como a minha, se tu não arriscares, tu não vais sair do lugar", revela, admitindo a existência de risco nos espectáculos que apresenta. Apesar da perigosidade, o importante continua a ser superar-se e mostrar que o corpo é muito mais do que a ideia que a sociedade construiu.

"Tu andas sem pensar, mas se tu pensares que eu tenho que pensar para andar, isto tem um novo sentido, de importância. Mesmo que não seja para ti, é para mim. Mas se tiveres a andar comigo eu vou levar-te em viagem nesta nova fórmula de tempo que te faz ver o mundo de forma diferente", afirma.

E é nesta viagem que seguimos, a marcar passo, ao ritmo da redescoberta.

O "Anda, Diana é um projeto que conta a história do meu corpo", revela a bailarina que, nos últimos 7 anos, tem reconstruído a relação com o corpo. A experiência do acidente é também contada em livro pela própria artista, que considera a obra "sarcástica e cruel", numa descrição fiel à brutalidade e às marcas deixadas pelo processo.

Aquecimento da bailarina Diana Niepce para o espectáculo 'Anda, Diana'
Aquecimento da bailarina Diana Niepce para o espectáculo 'Anda, Diana'
Aquecimento da bailarina Diana Niepce para o espectáculo 'Anda, Diana'
"Enquanto pessoas vivemos em função da nossa própria experiência e em função do nosso próprio umbigo. Quando nos retiram dessa história, é muito concreto que o nosso lugar é muito pequenino no mundo", relembra em entrevista ao CM.

Na peça, Diana procura proporcionar uma experiência ao público através da história de "um novo corpo".

"Eu estou a esticar a tensão e a pôr o dedo na ferida sem a pessoa perceber muito bem que eu estou a pôr o dedo na ferida", refere a bailarina, que procura ainda despertar a ambiguidade em todos aqueles que assistem à peça.

"Nós assumimos coisas erradas a partir de uma imagem. Na maioria das vezes não são reais. Aquilo que me interessa é que as pessoas pensem sobre isso", admite.
Peça 'Anda, Diana'
Peça 'Anda, Diana'
Peça 'Anda, Diana'
O futuro é ainda uma incógnita para Diana. A bailarina prefere pensar nas conquistas conseguidas até hoje, após anos de trabalho até à apresentação do espectáculo e do livro "Anda, Diana".
A carregar o vídeo ...

"Para mim aquilo que é importante não é o que falta, é o que foi conquistado até agora"

"Anda, Diana"
Teatro do Bairro Alto
Sexta-feira, 23 de abril às 19h00
Sábado, 24 de abril, às 11h00

Direção artística: Diana Niepce
Interpretação: Diana Niepce, Bartosz Ostrowski, Joãozinho da Costa
Produção Executiva: Helena Baronet
Estrutura de Produção: Produção d’Fusão
Coprodução: Teatro do Bairro Alto
Residência de coprodução: O Espaço do Tempo
Diana Niepce bailarina tetraplégica doenças saúde arte cultura Anda Diana entrevista espectáculos