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Correio da Manhã

Desporto

ARGENTINA REZA PELO DIEGO DO POVO

Se Maradona se constipar, a Argentina espirra”, “Diego, A Argentina ama-te”, “Força D10, nós respiramos contigo”.
24 de Abril de 2004 às 00:00
Estas são apenas três das muitas centenas de cartazes escritos à mão que os fiéis admiradores de Maradona depositaram nesse altar pagão em que se converteu a porta da Clínica Suíça-Argentina, no pacato e modesto Bairro Norte da capital argentina, Buenos Aires, desde o passado domingo à noite, altura em que o ‘astro’ foi internado com problemas cardíacos e pulmonares.
Velas, rosários, imagens religiosas e uma multidão de pessoas a rezar, de dia e noite, debaixo do frio da madrugada e da chuva intensa que ‘chicoteou’ Buenos Aires nas últimas horas, são imagens fortes e que chocam. E tudo porque demonstram o amor incondicional que o povo argentino sente para com o seu ídolo. A Argentina sofre por Maradona.
A vigília é permanente e, desde o presidente desta nação sul-americana, Néstor Kirchner, até ao mais humilde anónimo, todos estão – estamos – preocupados com a saúde de Diego Maradona. O engenho popular não tem limites: “Viverás para sempre porque Deus não quer rivalizar contigo”, “Deus, dá-lhe outra mão” e “Não o leves, Maradona pertence ao Mundo”. Súplicas que, de imediato, passaram a mensagens. Os jovens (alguns nem nunca viram ao vivo o génio de Maradona com uma bola nos pés, somente através da televisão) ostentam orgulhosamente tatuagens de Maradona no seu corpo, numa emotiva veneração. Os adultos organizam grandes sessões de oração e rezam em frente às imagens da Virgem de Lujan, patrona da Argentina, ou de Gauchito Gil – que uma senhora levou por saber que Dona Tota, a mãe de Maradona, é devota deste santo.
Os muitos turistas que visitam a Argentina, devido ao valor barato do dólar (para eles), não deixam de incluir nos seus habituais passeios turísticos uma visita até junto da clínica. A claque do Boca Juniors, onde Maradona jogou, também esteve presente e gritou bem alto “Maradó… Maradó…”, como se estivessem em pleno Estádio da Bombonera, o que levou os responsáveis do centro de saúde a pedirem, através de um comunicado, respeito para os outros 170 pacientes internados junto a Maradona. E até o próprio Guillermo Coppola, ex-amigo e representante que se encontra em conflito com o jogador, sentiu a necessidade de, neste momento, estar perto de Diego e da sua família.
Mais uma vez ficou provado que Maradona é – como o próprio pediu para porem na capa do seu livro autobiográfico – o Diego do povo.
FAMÍLIA SOFRE COM ESTADO DE 'EL PIBE'
Desde domingo que Cláudia Villafañe e as filhas, Dalma e Gianinna , estão praticamente instaladas no 4.º piso da clínica, acompanhando o ídolo, que se encontra em coma induzido.
Chegam a meio da manhã, esperam ansiosas que os médicos falem ao meio-dia, e retiram-se à noite, perante o assédio de um batalhão de jornalistas. Cláudia separou-se de Maradona em 2003, após 14 anos de casamento, mas o amor é mais forte e, com grande integridade, vive este momento complicado. Dalma e Gianinna mostram grande maturidade. Gianinna, a mais nova, é quem filtra as visitas. E foi ela quem perdeu a paciência, num programa de TV, com o apresentador. “Deixa de dizer parvoíces e de chupar o sangue ao meu pai. Passaste a vida a pedir-lhe informações e agora, em vez de o ajudares, queres usá-lo para conseguir mais um ponto de audiência…”.
A reacção deveu-se ao facto de, nesse mesmo programa, se ter debatido a hipótese do problema de Maradona ter sido causado por uma overdose de cocaína.
Don Diego, o pai de Maradona, também vai todos os dias à clínica, sempre na companhia de outro filho, Lalo, que também jogou no Argentina Juniors. Ao contrário, Dona Tota (assim é conhecida a mãe de Maradona) foi somente duas vezes, porque também ela já não mostra muita saúde. Porque, como sempre, nos bons e nos maus momentos, a família de Diego é a única que suporta, incondicionalmente, o ídolo.
MÉXIXO'86 COROA 'EL PIBE'
México’ 86 foi o Mundial que coroou Maradona. Marcou dois golos inesquecíveis à Inglaterra. O primeiro foi votado pela FIFA como o melhor do século. O segundo ficou conhecido como ‘a mão de Deus’.
COM O EX-PRESIDENTE MENEM
Maradona sempre gostou de ser conhecido como ‘o Diego do povo’. A Argentina viveu muitas alegrias à conta de ‘El Pibe’. O carinho é tão grande que até Menem, ex-presidente argentino, fez questão de jogar ao lado de Maradona.
TIROS AOS JORNALISTAS
Em 1994, Maradona feriu seis jornalistas à porta de sua casa, depois de disparar alguns tiros com uma espingarda de pressão de ar. Foi acusado e ouvido no tribunal de Buenos Aires.
PERFIL
Nome: Diego Armando Maradona
Naturalidade: Lanus (Argentina)
Data nascimento: 30 Outubro 1960
Idade: 43 anos
Clubes: Cebollitas, Argentinos Juniors, Boca Juniors, Barcelona, Nápoles, Sevilha e Newell’s Old Boys.
Palmarés: Campeão Mundial de juniores (Japão, em 1979); Taça UEFA 88/89 (Nápoles); três vezes campeão: 80/81 (Boca Juniors), 86/87 e 89/90 (Nápoles); Taça de Espanha 82/83 (Barcelona); Taça de Itália 86/87 (Nápoles); SuperTaça de Espanha 83/84 (Barcelona); SuperTaça de Itália 90/91 (Itália).
Selecção: presença em 88 encontros, onde marcou 34 golos. Sagrou-se campeão Mundial no México, 1986, sendo ainda coroado melhor jogador da competição. O seu golo, frente à Inglaterra, foi considerado pela FIFA o melhor do século; Vice-campeão mundial no Mundial de Itália, em 1990.
Clubes que treinou: Mandiyú de Corrientes e Racing Avellaneda.
Golos ao serviço de clubes: 316
Golos ao serviço da selecção: 34
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