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Correio da Manhã

Desporto
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Portugal sem mãos

Pela primeira vez, os estrangeiros estão em maioria nos clubes, podendo obrigar o seleccionador nacional a recrutar na 2.ª Liga ou entre os brasileiros.

5 de Fevereiro de 2011 às 00:00
Portugal sem mãos
Portugal sem mãos FOTO: Paulo Calado/Record

A opção deliberada de dirigentes e treinadores dos clubes por guarda-redes estrangeiros abriu uma crise sem precedentes no campo de recrutamento do seleccionador nacional, forçado a convocar esta semana o mais batido da 1.ª Liga.

Chamado como terceira opção, o jovem Ventura é o primeiro guarda--redes a chegar à Selecção na condição de titular de uma equipa ameaçada de descida de divisão (Portimonense) e não obstante ter sofrido 33 golos em 17 jornadas.

Ventura tem a seu favor o estatuto de jogador de selecções jovens e a pertença ao quadro do FC Porto, que lhe garantiu um posto de titular pela segunda época consecutiva, condenando o experiente Nuno Santos a ter de optar um emblema de 2.ª Liga, para não voltar a marcar passo como suplente crónico. O caso de Nuno Santos é paradigmático das dificuldades de afirmação, maugrado a boa escola: durante 20 anos pertenceu ao Sporting, mas só defendeu o clube num único jogo da 1.ª Liga.

Desde os anos 90, a opção deliberada por estrangeiros, sobretudo oriundos do Brasil, mas incluindo as nacionalidades mais exóticas, aniquilou a evolução dos profissionais portugueses. Dos Camarões ao Liechtenstein, dos Balcãs à Escandinávia, de todo o lado chegam especialistas com mais aceitação do que qualquer jovem promissor das Academias locais – o que também suscita dúvidas sobre a qualidade do trabalho de formação, no país de Silvino Louro, o treinador dos melhores do Mundo (Cech, Júlio César, Casillas).

Enquanto há 30 anos não existia um único estrangeiro nos plantéis dos 16 clubes principais, actualmente já são a maioria, esmagadora até, considerando apenas os titulares: 9 brasileiros, 2 franceses e 1 espanhol. Os resistentes são Rui Patrício e Ventura, que vêm da selecção de sub-21, o veterano Paulo Santos e o surpreendente Rui Rego, que o Beira-Mar repescou na 2.ª divisão, depois de ter disputado a final da Taça de Portugal com o Desportivo de Chaves.

Esta evolução negativa sofreu um agravamento na transição da última temporada, quando ainda houve oito titulares nacionais e «apenas» seis brasileiros, com o campeão nacional a dar o mote com a estranha dispensa de Quim, depois de ter jogado todos os minutos da reconquista do título nacional. Se não houver uma inversão, não faltará muito para que o campo de recrutamento do seleccionador tenha de ser alargado à divisão secundária ou aos brasileiros nacionalizados.

O ANO EM QUE TUDO MUDOU

A última temporada foi brutal, com quatro clubes a trocarem portugueses por estrangeiros. O caso mais discutido foi a dispensa de Quim, do Benfica campeão nacional, gorando-se depois por infelicidade a sua aposta em suceder no Braga a Eduardo, que trocou a Liga dos Campeões por um clube italiano de segunda linha.

 

Quim

Titular do Benfica campeão afastado por Jorge Jesus e vítima de grave lesão.

Eduardo

Destaque da Selecção no Mundial-2010 optou por um clube modesto de Itália.

Nélson

Prolongou a carreira com pouca motivação e passou ao lado de uma reviravolta.

Carlos

Ansioso e sem oportunidades nos clubes de topo, trocou Portugal por Angola.

Nuno Santos

Cansado de ser suplente na 1ª Liga, passou a titular na 2.ª divisão (Gil Vicente).

Rui Nereu

De preferido de André Villas-Boas na Académica, a despromovido à 2.ª Liga.

Ventura

Protecção portista garantiu-lhe: de Olhão a Portimão, até à Selecção.

 

Guarda-redes portugueses titulares na 1ª Liga

Em 30 anos, o número de guarda-redes portugueses titulares na 1.ª divisão baixou de 18 (100%) para apenas 4 (25%). Em 1980-81, com Bento, Damas, Tibi ou Vaz, não existia um único estrangeiro entre os titulares e suplentes. Mas logo de seguida as fronteiras abriram-se e, dez anos depois, já a percentagem de estrangeiros era significativa (Ivkovic, Mihaylov, Lemajic, Everton, Gilmar) num campeonato de 20 equipas. Os anos 90 foram os da invasão consentida e, no começo do século (2001), o número de portugueses tinha baixado para apenas 11, com a particularidade rara de nenhum dos três clubes grandes ter um «keeper» nacional (Enke, Ovchinnikov, Schmeichel). Nessa altura, só havia um brasileiro (Marco Aurélio), mas nos anos seguintes a tendência inverteu-se até se chegar à situação alarmante da época actual, em que pela primeira vez eles estão em maioria, quer nos titulares, quer no conjunto dos plantéis.

 

 

Leões do Leste

Vieram do frio os estrangeiros da baliza leonina, em particular do Leste, mas na maioria foram muito felizes e marcantes para o clube. A começar pelo húngaro Ferenc Meszaros, que era uma estrela europeia e foi campeão em 1982, até ao dinamarquês Schmeichel, campeão em 2000, passando pelo croata Ivkovic.

 

Caso raro no Porto

O polaco Jozef Mlynarczyk foi o único guarda-redes estrangeiro bem sucedido no FC Porto, antes de Helton, conquistando todos os títulos nacionais e internacionais, antes de dar lugar ao fenómeno Vígtor Baía, em 1989, quando já tinha ultrapassado os 36 anos de idade. Depois dele, foram vários os candidatos, como o sueco Ericksson, o ruso Ovchinnikov, ou o montenegrino Kralj, mas nenhum correspondeu à expectativa ou resistiu à sombra de Baía.

 

Campeão  sem faixa

Quando Michel Preud’homme chegou ao Benfica para romper uma tradição de décadas (Costa Pereira, José Henrique, Bento, Silvino) já era considerado o melhor do Mundo e não demorou a impor a classe e a deixar um vazio, que nem o malogrado Robert Enke, o argentino Bossio ou, mais recentemente, o brasileiro Moretto ou o espanhol Roberto estiveram perto de preencher. Não foi por Preud’homme que o Benfica do seu tempo não conseguiu melhores classificações e o belga é dos poucos «campeões» encarnados que nunca conseguiu qualquer título. 

Brasileiros em maioria

Pela primeira vez este ano, os brasileiros estão em maioria absoluta entre os titulares e na soma dos titulares e suplentes, num total (recorde) de 16 num universo de 32. Em cinco clubes (Braga. Guimarães, Marítimo, Nacional e Setúbal) titular e suplente são ambos brasileiros.

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