Barra Cofina

Correio da Manhã

Desporto
2

Superliga Europeia: A curta história de uma vitória dos adeptos contra os milhões

Projeto liderado por Florentino Perez, presidente do Real Madrid, caiu poucos dias após o anúncio oficial mas os cifrões conquistaram os empresários que comandam clubes ingleses, espanhóis e italianos.
22 de Abril de 2021 às 20:36
Projeto liderado por Florentino Perez, presidente do Real Madrid, caiu poucos dias após o anúncio oficial mas os cifrões conquistaram os empresários que comandam clubes ingleses, espanhóis e italianos.
22 de Abril de 2021 às 20:36
O cronómetro parou aos 2880 minutos. Foi este o tempo útil da Superliga europeia, mas os descontos podem ainda estar por vir. Os planos megalómanos que previam uma distribuição de 3,5 mil milhões pelos 12 clubes fundadores caíram por terra... pelo menos para já.

O projeto liderado por Florentino Pérez, presidente do Real Madrid, e pelo banco JPMorgan para derrubar o modelo atual do futebol europeu - comandado pela FIFA e UEFA - revelou-se um fracasso quando confrontado com a paixão dos adeptos, jogadores e as intenções dos principais líderes europeus, que desde logo se mostraram contra a 'americanização' do desporto-rei na Europa.

Boris Johnson, primeiro-ministro do Reino Unido, Emmanuel Macron, líder francês e até António Costa em Portugal arrasaram o anúncio pouco tempo após os primeiros ecos surgirem na imprensa internacional.

AC Milan, Inter de Milão e Juventus, da Liga italiana, Real Madrid, Atlético de Madrid e FC Barcelona, da Liga espanhola, e os 'Big 6' ingleses eram os predestinados. Mas, mesmo após ameaças à FIFA e UEFA com ações em tribunal e um clima , os clubes fundadores começaram a 'cair'.
Uma máquina de fazer dinheiro. Era este o objetivo com a criação de uma Superliga europeia apoiada monetariamente por banqueiros do JPMorgan, que trabalharam ao longo dos últimos anos com Florentino Pérez.

Em cima da mesa estavam valores a rondar os 3,25 mil milhões de euros a ser partilhados pelos clubes fundadores como um bónus de "boas vindas".

Os planos financeiros da Superliga europeia, revelados pelo Financial Times, apontavam para uma limitação dos salários dos jogadores e divisão da riqueza entre os clubes mais ricos do futbeol.

A ideia era criar uma liga semelhante aos principais campeonatos nos Estados Unidos. O jornal anunciava que os clubes fundadores compartilhariam 32,5% das receitas comerciais da prova. Outros 32,5% seriam distribuídos entre todas as 20 equipas participantes, já incluíndo as cinco equipas convidadas a cada ano. 20% estavam destinados tendo como base o "mérito" ou desempenho das equipas na prova e os 15% restantes seriam partilhados consoante a audiência da transmissão.

Segundo o Financial Times, o vencedor da prova receberia apenas 1,5 vezes mais do que as equipas derrotadas.

A 'americanização' do futebol na Europa passava por tornar esta Superliga numa prova como a NBA ou a NFL onde existem acordos de trabalho coletivos com jogadores e acordos comerciais conjuntos. Estas competições são 'fechadas' e implicam que a vaga esteja garantida todos os anos para os clubes definidos pela organização.
Crise nos clubes
A pandemia veio condicionar duramente as contas e os investimentos dos principais clubes europeus. As vinte equipas mais ricas estão em vias de perder cerca de mil milhões de euros em receitas até ao final da presente temporada, devido à pandemia de Covid-19.

O Barcelona foi o clube com maiores receitas na temporada passada - 2019/20 - apesar da queda de 15%. 715 milhões de euros foi quanto o clube catalão arrecadou segundo um relatório da Deloitte em 2019/20. No entanto, as contas dos blaugrana apresentaram uma duplicação da dívida líquida para 488 mihões de euros.

Em 2020, o Arsenal despediu 55 funcionários devido a problemas financeiros provocados pela Covid-19. Entre os despedimentos estava até a mascote do clube.

O denominador comum a estas duas equipas é a falta de títulos europeus nos últimos anos e a redução de receitas provenientes das provas da UEFA/FIFA, muito devido às fracas prestações na Liga dos Campeões.

O desinvestimento em grandes contratações e a redução das folhas salariais de jogadores e staff tem sido regra na maioria dos emblemas europeus. 

A Superliga europeia entrava no seio destes clubes como uma tábua de salvação e uma injeção de capital importante numa fase crítica devido à pandemia.
Três dos clubes pertencentes ao 'big six' inglês que estava convidado para a Superliga europeia têm proprietários norte-americanos e ligados ao desporto nos EUA.

As reações não se fizeram esperar de todos os quadrantes, do desporto à política, com todos, à exceção dos envolvidos, a condenarem o 'capricho' destes 12 clubes, comandados pelo presidente do Real Madrid, Florentino Pérez.

"A UEFA e o futebol estão unidos contra a proposta que vimos de alguns clubes na Europa que são movidos pela ganância. Toda a sociedade e os governos estão unidos contra estes planos cínicos, que são contra o que o futebol deve ser", defendeu o presidente da UEFA, Aleksander Ceferin, equivalendo a Superliga a "cuspir na cara de todos os que gostam de futebol" e apelidando de "cobras" movidas por "ganância, egoísmo e narcisismo" as equipas dissidentes.

Mais ou menos violentas, as críticas ao projeto da Superliga uniram FIFA, federações e governos nacionais -- incluindo o português -, instâncias europeias, mas também equipas de elite, como os poderosos Bayern Munique, Borussia Dortmund, ou Paris Saint-Germain, treinadores, como Pep Guardiola (do Manchester City), ou atuais e antigos jogadores, com destaque para o português Bruno Fernandes, estrela do Manchester United, e para o capitão do Liverpool, Jordan Henderson, o mais inconformado dos jogadores da Premier League -- chegou a convocar uma reunião de capitães para hoje, cancelada após o recuo dos 'Big 6'.

Em Portugal, o presidente do FC Porto, Pinto da Costa, admitiu terem existido alguns contactos informais de alguns clubes sobre a matéria, aos quais não deu "grande atenção", por serem "algo que é contra as regras da União Europeia e da UEFA", enquanto Sporting, Benfica e Sporting de Braga se opuseram veementemente à criação da Superliga.

A vitória dos adeptos
Mais festejada que um golo aos 90' minutos. A derrota da Superliga europeia foi uma vitória para os adeptos de muitos dos clubes participantes. Os 'blues' do Chelsea convocaram uma grande manifestação contra a entrada do clube na prova e o momento em que foi anunciada a 'morte' da prova foi festejado como se da conquista de um troféu se tratasse.

Os adeptos do Manchester United chegaram mesmo a invadir o centro de treinos em discórdia com a decisão do clube em entrar na nova prova milionária. Os adeptos entraram no Complexo de treinos de Carrington com tarjas com a inscrição "Glazers out" [Fora Glazers], em alusão à família proprietária do clube, e com a indicação "Nós decidimos quando vocês jogam".

Face à contestação dos adeptos e das autoridades governativas e do futebol, Manchester City, Liverpool, Arsenal, Manchester United, Tottenham e Chelsea iniciaram a debandada do projeto da Superliga na terça-feira, seguindo-se Atlético de Madrid e Inter Milão. A Superliga europeia fica assim em suspenso.
A carregar o vídeo ...
Adeptos do Chelsea festejam
Superliga Europeia desporto futebol chelsea real madrid barcelona arsenal juventus ac milan inter milão