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Correio da Manhã

Domingo
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A beleza ao espelho do tempo

As mulheres bonitas já foram gordas. Cobiçadas pela barriguinha. Os galãs já usaram bigodinho e brilhantina. A beleza não perdura .
15 de Abril de 2007 às 00:00
Soraia Chaves
Soraia Chaves
Gordura não é formosura. Se hoje a máxima é esta, se homens e mulheres castigam o corpo em busca da perfeição que não inclui o inestético pneu à volta da cintura ou a proeminente barriguinha, tempos houve em que as formas roliças eram as únicas capazes de conquistar corações. Bem longe da Vénus de Willendorf, a figura mais conhecida do Paleolítico Superior, com um corpo mais à medida de um extra-largo do que dos números pequenos que são hoje sinónimo de perfeição feminina, ou dos quadros de Botticelli, que retratava as mulheres com uns quilinhos a mais, o padrão de beleza nunca foi igual ao longo da História.
“Têm sido muitas as mudanças”, confirma à Domingo o cirurgião plástico Biscaia Fraga. Fala com a experiência conferida por anos de trabalho na área, que o tornam um dos mais conceituados no País. “As alterações são confirmadas com os pedidos que chegam ao consultório, que se alteram com o passar dos anos.”
Momentos houve, na Antiguidade, que ser magro era um objectivo importante, sinal de juventude, flexibilidade e, claro, beleza. Mas nem sempre foi assim. O exemplo surge do século XVII, onde as mais belas não eram as que encolhiam a barriga ou faziam sacrifícios para manter a linha, mas as que a deixavam ver, saliente, mesmo quando não estavam grávidas. Aqui, a ideia de beleza era indissociável da riqueza e da mesa farta, que alimentava a gula.
Antes disso, no século XV, as senhoras de classe média e alta do Norte da Europa submetiam-se a verdadeiras sessões de tortura. O objectivo era um só: atingir a perfeição, nem que para isso fosse preciso arrancar os fios de cabelo que reduziam o tamanho das testas, num esforço incessante para mudar, adaptar ou contornar aquilo que tinha sido presente da mãe natureza.
O tempo passa e os ideais de beleza mudam. Durante o século XX, as alterações foram uma constante. Não tardou muito para que a ideia de feminismo que marcou as primeiras décadas, retratada pela imagem de mulher com cintura de vespa, lábios vermelhos, dedos longos e pés pequenos, fosse substituída pela obrigatoriedade das curvas, das ancas largas e de um traseiro condizente. Hoje, a cintura estreita volta a estar na moda. “As mulheres querem as cinturas estreitinhas e pedem ainda que sejam removidas as gorduras da zona dorsal, para poderem usar os tops e camisolas curtas sem constrangimentos”, explica Biscaia Fraga.
ESPELHOS NÃO RESPONDEM
O reflexo do espelho exerce um fascínio para homens e mulheres, magras ou gordas, bonitas ou feias. Mas de nada adianta perguntar se a imagem reflecte a mais bela de sempre. O espelho pode não responder, mas a imagem é, tantas vezes, resposta suficiente. E nem sempre a mais desejada. Por isso, contra a ditadura do espelho, os anos 20 do século passado assinalam a tentativa de liberalização feminina, que se manifesta, de imediato, com os cabelos curtos e as roupas menos cintadas.
O impacto do cinema fez-se sentir pela primeira vez, com o uso e abuso da maquilhagem, o pó-de-arroz ou a brilhantina, conquistam os homens, sobretudo os mais conscientes dos imperativos da imagem e da importância do bem parecer, como Rudolph Valentino.
Nos anos seguintes, os 30 e 40, as estrelas de Hollywood continuam a definir as tendências da moda, com Bette Davis ou Rita Hayworth a servirem de inspiração. O tom bronzeado ganha o estatuto de moda e, para eles, os cabelos pedem-se curtos, bem oleados, a que se junta o bigode à Errol Flynn ou Clark Gable.
Nos tempos incertos que se seguiram à II Grande Guerra, os valores tradicionais e conservadores voltaram a ganhar terreno. Isto até aos loucos anos 60, que marcam a saída da mulher da esfera do lar para o local de trabalho. Voltam os cabelos curtos, menos trabalhosos para elas. No caso masculino, as estrelas rock fazem com que os cabelos compridos voltem a ser moda. É nesta altura que nasce a primeira top model: magra, de pequena estatura, cabelos loiros muito curtos e olhos realçados com camadas de rímel, que lhes davam uma intensidade quase assustadora. Conhecida como Twiggy, foi o grande ícone dos anos 60 e a fonte de inspiração para mulheres de todo o Mundo.
DÉCADA ATRÁS DE DÉCADA
As décadas sucedem-se: a de 70, com a moda dos cabelos compridos, que apenas cederam o seu espaço com a chegada do punk, que ditou um look mais agressivo. A de 80, a dos enchumaços nos ombros e do uso e abuso das pinturas em homens e mulheres, com nomes como Madonna, Stallone ou Van Dame, que exibiam os seus corpos musculados, a tornarem-se estereótipo de beleza. Ou ainda os 90, em que o standard de beleza mudou e voltou a mudar. Depois do auge de Cindy Crawford ou Claudia Schiffer, Kate Moss toma o lugar na passerelle e, com ela, a ideia de extrema magreza para definir o belo.
Hoje, a última novidade são os rabinhos salientes, influência dos bumbuns brasileiros, que se querem empinados e com presença. “Há 15 anos, ninguém o pedia, mas agora são muitas as mulheres com idades entre os 19 e os 40 anos que o querem. Elas e os homens com mais de 50 anos”, confirma o cirurgião plástico.
A isto junta-se a aplicação de tecido adiposo, que passou de um quase tabu para uma prática que está nos primeiros lugares no top das intervenções. Fora de moda parecem estar os peitos volumosos. “Ainda se fazem aumentos, mas desde que a mulher se tornou mais urbana que o peito está a reduzir de tamanho.”
O século XXI é o tempo dos mais jovens, como Brad Pitt, Leonardo DiCaprio ou o brasileiro Rodrigo Santoro, dos mais grisalhos que conservamo charme,como George Clooney ou Sean Connery, ou de Hugh Laurie, que à conta de uma personagem de uma série de TV, ‘Doutor House’, ganhou fama e o espantoso estatuto de beldade. Esse médico televisivo com barba por fazer e coxo destronou muitos metrossexuais do trono da cobiça feminina.
Entre elas – as eleitas mais sexy – estão louras carnudas como Scarlett Johansson que remetem a modelo dos anos 60 Twiggy para o estatuto de anorética, e ainda morenas esculturais como Jennifer Lopez e Angelina Jolie.
AS TELENOVELAS
A BELEZA TEM SOTAQUE BRASILEIRO E CHEGA EM EPISÓDIOS
A história das telenovelas no Brasil começa nos anos 50, mas por cá os galãs enlatados, astros dos folhetins intermináveis, só chegam mais tarde.
A primeira, um dos maiores sucessos da televisão, chega aos ecrãs nacionais em 1977. Gabriela Cravo e Canela conquistou os corações masculinos, com a beleza de Sónia Braga, a protagonista, e deu ainda a conhecer nomes que se vieram a tornar autênticos galãs, como José Wilker. As novelas brasileiras conquistam os portugueses e, nos anos 80, nomes como Tarcísio Meira ou Regina Duarte tornam-se os ídolos de uma geração, a que se juntaram outros, como Francisco Cuoco, António Fagundes. Os anos passaram e, hoje, são os jovens os que mais conquistam corações. Reinaldo Gianecchini, Rodrigo Santoro, agora também galã do cinema, Eduardo Moscovis, Henri Castelli do lado deles. Quanto às senhoras, nomes como Deborah Secco, Juliana Paes ou Danielle Winits não passam despercebidos.
O QUE É NACIONAL É (TAMBÉM) BOM
Eram considerados os grandes galãs nacionais, capazes de atrair multidões, sobretudo de jovens. António Calvário e Artur Garcia foram os verdadeiros símbolos sexuais nacionais dos anos 60, donos de vozes que impressionavam e faziam vacilar os corações e de uma imagem que, longe da rebeldia, inspirava as jovens de todo o País que vivia sob o manto da ditadura de Salazar.
Ninguém lhes ficava indiferente, nem os homens, que os invejavam e nem as mulheres, que os idolatravam. Madalena Iglesias chega na mesma altura, também sinónimo de beleza, lançando modas e provocando a inveja a muitas mulheres portuguesas. Na mesma altura, o actor Virgílio Teixeira conquistava as telas e os corações mais incautos, incapazes de resistir ao que foi considerado um galã do cinema nacional durante duas décadas. Mais tarde, Riquita e Ana Maria Lucas, a primeira Miss Angola, a segunda Miss Portugal, integraram também elas a lista de ícones de beleza. Hoje, são muitos mais, com estilos diferentes, mas em comum a capacidade de atrair e conquistar, como o actor Ricardo Pereira, a bela Soraia Chaves, José Fidalgo, Diogo Morgado ou as jovens promessas da representação nacional, em novelas como ‘Morangos com Açúcar’.
O PESO DAS PASSERELLES
É na moda que se encontram os maiores galãs e as mais cobiçadas sex symbol de todos os tempos. Eles lançam tendências e criam, à sua volta, uma autêntica legião de fãs. Desde Twiggy, nos anos 60, passando por Anna Bayle ou Christie Brinkley, na década seguinte, restam poucas dúvidas que foi a partir dos anos 80, década dos chumaços nos ombros, que as supermodelos ganharam uma maior projecção. Linda Evangelista, Naomi Campbell ou Christy Turlington são nomes que ficam para a história. A lista prossegue com Claudia Schiffer, Valeria Mazza, Rachel Hunter, Heidi Klum, já nos anos 90, Milla Jovovich, Gisele Bündchen, Kate Moss. Por cá, Sofia Aparício, Paulo Pires, Ana Afonso, Marisa Cruz, Isabel Figueira, Pedro Lima, Bárbara Elias, Pedro Reis são os ícones de uma moda em constante evolução.
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