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Correio da Manhã

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A beleza feminina recupera as formas

Os ideais mudam ao sabor dos tempos, reféns do contexto político e social. São diferentes as belas das últimas décadas
26 de Junho de 2011 às 22:00
Soraia Chaves, a musa do cinema português
Soraia Chaves, a musa do cinema português FOTO: Elite Lisbon

As formas arredondadas que deram fama à Vénus de Milo voltam a estar na moda. "A mulher do século XXI é mais roliça. Fruto de campanhas publicitárias e da auto-satisfação feminina, estamos a valorizar as curvas e figuras como Beyoncé ou Jennifer Lopez são hoje ícones de beleza, o que era impensável há uns anos", garante Ana Oliveira Madsen, especialista em consumo.

Reflexo da cultura e latitude geográfica, a imagem da mulher muda ao sabor de ideais estéticos, sociais e políticos e tem evoluído ao longo das décadas. "As supermagras deram lugar às profissionais dos anos 90 e estas às mulheres abundantes deste século", anui Américo Guerreiro.

Habituado a associar a imagem feminina a um estilo de vida, o publicitário lembra que foi "nos anos 60 e 70 do século passado que a publicidade começou a explorar o corpo feminino. Surgiram anúncios ousados de cosmética, lingerie e collants e as mulheres acompanharam essa tendência". Portugal copiava os modelos do exterior e "qualquer mulher que se parecesse com Sophia Loren ou Brigitte Bardot era apreciada".

A ERA DA LIBERDADE

Foi a pílula contraceptiva que "libertou a mulher" e lhe deu o direito a uma beleza mais natural, frisa a historiadora Irene Pimentel. Era a década da britânica Twiggy, desprovida de formas, ou da esbelta francesa Sylvie Vartan. Portugal, ainda amordaçado pela ditadura, elogiava a mulher "recatada e sóbria, existia uma forte distinção de classe, com concursos para costureiras e revistas da ‘Mocidade Portuguesa' destinadas às meninas da classe alta, que tinham, diz-se, propensão para a extravagância", lembra a autora do livro ‘A Cada Um o Lugar: A Política Feminina do Estado Novo'. A revolução de Abril e a cultura do audiovisual, que pontuou nas décadas seguintes, diluiu a diferença social e deu espaço à mulher profissional, com forte personalidade.

Mas o paradigma está a mudar. O crítico de arte Waldemar Januszczak confirma que a estátua grega que representa o amor e a beleza é, ainda hoje, o ideal de formosura feminina pois as formas arredondadas "apontam para a maternidade e a ausência de expressão e braços para a submissão".

A olhar o que vê na rua, "as portuguesas, com a sua beleza serena, boca meiga, resultado do cruzamento de árabe, judeu e celta, mantêm uma beleza que se adequa a este tempo. Apontam para uma ideia de fertilidade. São características naturais", nota Américo Guerreiro. E é precisamente no respeitar das origens que está o segredo da nova beleza, diz o estilista Miguel Vieira. "No início dos séculos tendemos a revisitar estilos anteriores", as formas dos anos 50 ou a androginia dos 20, "mas se quisermos falar de uma nova mulher será o mais depurada possível, sempre cuidada."

AS FORMAS DO SÉCULO XXI

Quando uma loira voluptuosa entrou nas televisões nacionais a saltar à corda vestida com uma lingerie de algodão cinzento, o País adoptou uma nova namoradinha e projectou Marisa Cruz para o estatuto de sex-symbol português do início do milénio, ajudada por uma aura de mulher inatingível. Para trás ficavam Catarina Furtado, Bárbara Guimarães e Alexandra Lencastre - divas dos anos 90. Estava-se em 2001 - desde o fecho da ‘Élan', em 90, nenhuma revista masculina tinha entrado nas bancas e a ‘Maxmen' (na altura ‘Maxim') apostava forte no lançamento.

"Naquela altura o País precisava de uma diva, a Marisa foi a mulher certa para o momento certo", recorda Domingos Amaral, então director da revista publicitada no vídeo que encheu o olho aos portugueses. Dez anos depois, o hoje director da ‘GQ', diz que aquela "beleza continua a fazer sentido, embora agora os territórios estejam todos ocupados, o que faz com que seja difícil obter aquele impacto transcendente".

Hoje, agradar aos olhos exigentes que esmiuçam a beleza alheia, "leva mais tempo, é preciso ter uma carreira" - o que veio a acontecer com Soraia Chaves e Cláudia Vieira. As duas actrizes tornaram-se referências: Soraia, aos 23 anos, depois de vestir a pele da sedutora ‘Amélia', que espicaçou a castidade do ‘padre Amaro', e de outros papéis igualmente despidos, como ‘Maria', em ‘Call Girl'; Cláudia depois de participar em novelas da TVI e emprestar o corpo a uma conhecida marca de lingerie que a espalhou em outdoors pelo País. Já em 2011 foi a capa escolhida para assinalar os dez anos da ‘GQ', que a considerou a ‘Princesa da Década'.

Sofia Ribeiro, que venceu o Sexy 20 do CM em 2010, é admiradora confessa da colega de profissão e elege-a como um modelo de beleza. Quanto à sua própria imagem, não tem pudor em considerar-se "bonita" mas garante que demorou algum tempo a perceber "que não era feinha de todo".

Para Soraia Chaves, que aos 14 anos já tinha corpo de mulher, o grande ícone sexual do século XX, Marilyn Monroe, estava longe de ter um corpo (hoje) considerado perfeito. "Identifico-me mais com esses padrões, da beleza natural, do que com a beleza que implica horas de ginásio e operações plásticas', disse numa entrevista.

Rita Pereira, que deu que falar nos prémios Emmy por causa do pronunciado decote, não se considera "a última bolacha do pacote. Lido com a beleza com a maior das tranquilidades. Acho a Beyoncé um modelo a seguir, é uma mulher com formas, saudável". Pasme-se também quem acha que Vanessa Oliveira, uma das caras bonitas da televisão portuguesa, gosta de se ver ao espelho quando acorda: "De manhã não tenho consciência nenhuma, nem penso nisso".

BOOM DA TV NOS ANOS 90

Sobre a década do boom televisivo e das suas grandes estrelas, Frederico Ferreira de Almeida, presidente da Associação de Produtores Independentes de Televisão, realça o aparecimento de Catarina Furtado e Bárbara Guimarães. "Num registo diferente mas ambas muito poderosas. A Catarina apareceu muito jovem, cheia de garra, muito descomprometida e verdadeira, características que a tornavam muito bonita. Era uma pessoa que agarrava as oportunidades e as transformava em algo positivo. Hoje isso não se encontra com facilidade".

Por outro lado, "Bárbara sempre foi dona de uma beleza natural muito marcante e que ainda hoje se mantém, sendo uma pessoa que foi crescendo ao longo dos trabalhos que assumiu". Luís Pinheiro de Almeida deita outra acha para a fogueira e fala de "Alexandra Lencastre, uma das mulheres com mais classe e beleza que a televisão portuguesa já viu".

PRODUZIDAS NOS ANOS 80

Na época em que os sintetizadores e a electrónica da new wave chegaram a Portugal, Carlos Maria Trindade (ex-Sétima Legião e Madredeus) destaca as figuras femininas que davam cartas nos palcos nacionais: Anamar, Ana Deus (Ban) e Midus (vocalista e baixista dos Roquivários).

"Eram artistas que estavam a desbravar um mundo até então apenas reservado aos homens. Pisavam um palco em igualdade de circunstâncias, tocavam instrumentos, portanto é natural que dessem que falar. Por outro lado eram também fruto de uma nova corrente, a da electrónica, e de toda a sua estética. Era uma época em que se dava valor à produção: as roupas e os cabelos eram hiperestilizados, a maquilhagem carregada. Até nós, homens, usávamos base. O vestuário cuidado marcava a antítese em relação à anterior geração que ia para o palco de calças de ganga. Havia o culto da noite, das novas tecnologias e toda uma nova forma de ser e estar, cheia de glamour".

Mas fora dessa corrente, e numa orientação mais roqueira, o País também não esquece as suas ‘miss hot legs', encarnadas por Adelaide Ferreira e Lena d'Água. "A sensualidade da Adelaide Ferreira passava muito por aquela voz quente e grave, a presença forte em palco. Era uma fera e mulher de inegável beleza. Já a Lena d'Água era precisamente o contrário, mas não deixava de ser igualmente sensual", recorda Tozé Brito, actual administrador da Sociedade Portuguesa de Autores.

Mas não eram as únicas, também Xana (Rádio Macau) fazia palpitar corações, embora num registo diferente. "Tinha voz sensual, uns lindíssimos olhos e uma aura de mistério que deixavam adivinhar a femme fatale... Por outro lado, é uma mulher inteligente, que escrevia as letras das suas canções, e isso também é sensual".

Entre as alternativas e as estrelas do rock, Portugal assistiu nos anos 80 a um dos maiores fenómenos, protagonizado por beldades de cortar a respiração. Fátima Padinha, Teresa Miguel, Lena Coelho e Laura Diogo formavam então as Doce, primeira girls band feminina de atributos generosos e pop insinuante.

Tozé Brito foi um dos mentores do projecto e lembra que tudo foi projectado ao milímetro: "Da música à imagem passando pelo marketing, nada acontecia por acaso. As Doce tiveram os melhores profissionais a trabalhar: o José Carlos, por exemplo, era o responsável pelas roupas, e tinham uma sonoridade à frente do seu tempo. E, claro, eram mulheres bonitas, que ainda por cima cantavam letras insinuantes...", recorda o compositor, lembrando que a ideia do projecto era "abanar com o mercado e as pessoas", sobretudo numa época em que ainda se vivia "grande cinzentismo".

OS LIVRES ANOS 70

A onda de liberdade que atravessou a década de 70 sentiu-se, sobretudo, através da televisão, lembra Luís Andrade, ex-director de programas da RTP. "Foi importantíssima nessa época. A Ana Maria Lucas marcou uma tendência ao vencer o primeiro concurso Miss Portugal, criado por Vera Lagoa (pseudónimo de Maria Armanda Falcão), que, por sua vez, era a mulher poderosa, inteligente, que defendia o direito das mulheres a serem bonitas e cultas. Ela e a Natália Correia, que à sua maneira também era um ícone da beleza, tornaram-se símbolos da frontalidade, eram mulheres com cérebro e as suas intervenções marcavam".

A RTP afrontava a sociedade machista de então e "surgiram locutoras com aspecto diferente, como a Ana Zannati, que todos elogiavam" e que António-Pedro Vasconcelos dirigiu anos mais tarde no filme ‘O Lugar do Morto'. "Grande parte do seu sex-appeal residia na aura de mistério. É uma mulher corajosa, firme na sua independência e na forma como conduziu a sua vida privada, algo pouco comum à época".

Logo no virar da década foi Maria Cabral, protagonista de ‘O Cerco' e ex-mulher de Vasco Pulido Valente, quem " rompeu os cânones", diz António da Cunha Telles, realizador e produtor. "O filme passou em Cannes e a ‘Elle' francesa dedicou-lhe a capa. Portugal ainda era provinciano e ela chocou, pela beleza e pelo comportamento. Despiu-se e mudou de penteado para o filme e a sua imagem foi copiada por estudantes e operárias".

No Parque Mayer, eram as actrizes de revista que davam cartas. O empresário Hélder Freire Costa lembra o imenso glamour de Aida Baptista e Mariema. "Pessoas que se arranjavam muito bem, iam todos os dias ao cabeleireiro e não descuravam a maquilhagem, o que se aliava a grande beleza natural, a personalidades marcantes e vida social intensa", refere o director do Teatro Maria Vitória. "Os anos 60 e 70 foram a época áurea do bom gosto, em que as pessoas ainda se arranjavam à noite para ir à revista. As actrizes eram o exemplo desse glamour".

A CLASSE DOS ANOS 60

"As mulheres distinguiam-se pela classe social", nota o fadista João Braga, que esteve presente nas duas festas que em 1968 trouxeram ao País o jet-set internacional: a festa do milionário Patiño e de Pierre Schlumberger. "Havia um culto pelo extremo bom gosto e as nossas mulheres causaram furor junto de galãs internacionais, como o príncipe Orsini".

Ana Caetano, filha de Marcello Caetano, "era uma presença que fazia parar uma festa". Mas quem não tinha acesso ao mundo restrito da alta sociedade - "é preciso ver que na altura não havia revistas cor-de-rosa", lembra João Braga - guiava-se por modelos do espectáculo. Madalena Iglésias, Simone de Oliveira e Florbela Queiroz pontuavam. "A Madalena, com olhos azuis, seguia a moda inglesa, usava minissaias, que era o que fazia furor na época, pois ouvíamos os Beatles, os Rolling Stones. A Simone destacava-se por ser muito alta", recorda.

"Percebo que aos 25 anos o meu tipo físico não retratava o padrão da mulher portuguesa. Eu era muito grande mas hoje, ao ver as fotografias, acho que não estava nada mal", recorda Simone, que era cortejada com ramos de flores. Por seu lado, Florbela Queiroz, loira de olhos pintados com eyeliner preto, era a imagem do estilo yé-yé.

"Era, o que se chamava entre nós, uma flausina, raparigas que riam aos guinchinhos, davam gritinhos, usavam ganchos coloridos e penteados como a ‘Pipi das Meias Altas'. Tinha uma inocência picante, que fazia furor na época", lembra Américo Guerreiro. "Era a nossa Brigitte Bardot", diz António-Pedro Vasconcelos.

AS PORTUGUESAS MAIS BELAS DOS ÚLTIMOS 50 ANOS

1990

CATARINA FURTADO

Estreou-se na RTP e ganhou fama com ‘Chuva de Estrelas', SIC.

ALEXANDRA LENCASTRE

O programa ‘Na Cama com...', SIC, catapultou a actriz.

BÁRBARA GUIMARÃES

Trocou a TVI pelo entretenimento da SIC, onde fez carreira.

1980

ANAMAR 

Descoberta na movida do Bairro Alto, marcou um estilo diferente na música nacional.

DOCE

Imagem ousada e letras picantes foram segredo do sucesso da girls band.

SOFIA APARÍCIO

A mais camaleónica das modelos portuguesas deu brado como actriz.

1970

ANA ZANATTI

A beleza serena e voz tranquila eram imagens de marca da locutora da RTP.

MARIA CABRAL

A modernidade da actriz de ‘O Cerco' fez capa na ‘Elle' francesa.

ANA MARIA LUCAS

Foi a primeira Miss Portugal e representou Portugal no estrangeiro em 1970.

1960

MADALENA IGLÉSIAS

A cantora, elegante, distinguia-se pelas minissaias.

SIMONE DE OLIVEIRA

Alta para os padrões da época, brilhou com ‘A Desfolhada'.

VERA LAGOA (M.ª Armanda Falcão)

Foi ‘o primeiro sorriso da RTP' e criou os concursos de misses.

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