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Correio da Manhã

Domingo

A camioneta-fantasma da I República

A I República é um dos períodos mais fascinantes e mais violentos da história de Portugal no século XX. ‘Nobre Povo’ conta tudo.
26 de Setembro de 2010 às 00:00
Enterro de António Granjo, uma das vítimas da ‘camioneta-fantasma’
Enterro de António Granjo, uma das vítimas da ‘camioneta-fantasma’ FOTO: Direitos reservados

Abel Olímpio, o ‘Dente de Ouro’, é uma das personagens mais brutais da I República – e, provavelmente, da História de Portugal do séc. XX. O cabo da Guarda Republicana é protagonista de um dos episódios preferidos de Jaime Nogueira Pinto. O ‘Dente de Ouro’ aparece com a história da ‘camioneta-fantasma’ no 12º capítulo do livro ‘Nobre Povo – Os Anos da República’ [ed. Esfera dos Livros].

A ‘CAMIONETA-FANTASMA’

Como Nogueira Pinto diz à Domingo, "é uma história de grande violência em que foram mortas algumas das figuras emblemáticas da República, causando um enorme trauma no País". Faz parte ainda das recordações do passado: o pai do autor "tinha sido contemporâneo destas coisas" e falava-lhe "muito deste episódio, daquela enorme violência".

A ‘camioneta-fantasma’ é a história de uma das revoluções durante a I República. Existia então um governo da direita republicana chefiado por António Granjo que cai perante um movimento revolucionário conjunto da Guarda Republicana e de marinheiros.

O Presidente da República António José de Almeida recusa-se a empossar o Comité Revolucionário e o País fica sem governo. A 19 de Outubro de 1921, Granjo vai para casa e, durante esse dia, começa a ver-se a Guarda Republicana descomandada e descontrolada.

Guardas e marinheiros vagueiam pelas ruas de Lisboa e, à tarde, dirigem-se a casa de António Granjo para o prender. Mas um vizinho de Granjo avisa-o e o ex-chefe de governo refugia-se em casa de um adversário político, Cunha Leal.

O FUNDADOR ASSASSINADO

Nas palavras de Nogueira Pinto, que trata todas estas personagens com alguma familiaridade, "o Cunha Leal recebe-o, acolhe-o, tenta protegê-lo – mas, à noite, os tais marinheiros vão numa camioneta que sai do Arsenal da Marinha, onde estavam reunidos, com os guardas".

A ‘camioneta-fantasma’ começa por ir buscar António Granjo. Ao ver Granjo, um dos revolucionários grita para os camaradas: "ó rapaziada! Fura-se o gajo já aqui…?". Não furaram.

Cunha Leal vem com ele para o tentar proteger – e são levados até ao Arsenal da Marinha, onde Granjo é violentamente assassinado. Depois de insultado e agredido, é morto a tiro e à baioneta. A mesma camioneta, onde vai o cabo ‘Dente de Ouro’, persegue e assassina alguns dos políticos republicanos conotadas com o sidonismo.

Como é o caso de Machado dos Santos, ex-ministro de Sidónio Pais e fundador da República – mas também de José Carlos da Maia, um dos revolucionários do 5 de Outubro, entre outros. Machado dos Santos, o herói da Rotunda, o líder do 5 de Outubro, acaba por ser morto a tiro, ainda a caminho do Arsenal, no Intendente.

"Foi um episódio de terror, parecido com aquele terror vermelho que estava a começar a acontecer na Europa", conclui Jaime Nogueira Pinto.

"A I REPÚBLICA TEM REVOLUÇÕES E GRANDES PAIXÕES POLÍTICAS. HAVIA GRANDES CONVICÇÕES" (Jaime Nogueira Pinto)

- O livro ‘Nobre Povo’ retrata uma I República cheia de episódios muito violentos...

- O livro ‘Nobre Povo’ retrata uma I República cheia de episódios muito violentos...

- A I República é, de facto, uma época de grande violência política. Tinha grandes paixões políticas e a violência também seria uma consequência das paixões. Havia grandes convicções que hoje desapareceram da política portuguesa e da Europa.

- Portugal como o país dos brandos costumes, é apenas um mito histórico?

- Os brandos costumes portugueses são muito discutíveis. O país dos brandos costumes foi o Salazar que introduziu, ao monopolizar a força pelo lado do Estado. É preciso ver que o 28 de Maio não parou com a violência. Até 1936, há praticamente dez anos de violências. Salazar usava os brandos costumes com uma certa ambiguidade e uma certa ironia. As pessoas é que levavam à letra...

- O livro lê-se como um romance, um thriller político...

- A República presta-se a isso, porque tem muito movimento. Tem revoluções, violência, paixões políticas, personagens únicas, como o Machado dos Santos, o Paiva Couceiro, o Afonso Costa...

- A I República é o resultado dessas paixões?

- A República é um acto de vontade. Faz-se nos dias 3, 4 e 5 de Outubro porque um homem chamado Machado dos Santos, abandonado praticamente por toda a gente, quase sem um directório republicano, vai para a Rotunda e tem uma concepção interessantíssima: agarra na artilharia que estava disponível e aguenta ali 36 horas. A monarquia cai porque não havia muita vontade de aguentar.

- Quem era Afonso Costa?

- O Afonso Costa é um homem que tem uma paixão racional, é um homem determinado, um cerebral, tem estratégia e não tem limites. Por exemplo, a uma dada altura vê que o corpo eleitoral herdado da monarquia, os 800 mil eleitores, dá a maioria aos partidos conservadores. E faz uma coisa muito simples: tira o voto aos analfabetos. Como havia muitos analfabetos entre os proprietários da província, retira-lhes o direito ao voto e com isso reduz o corpo eleitoral para menos de metade. É uma lei de 1913, que não seria muito democrática. E passa a ganhar as eleições sempre.

- Outra personagem que admira é Sidónio Pais?

- Sidónio é uma figura interessantíssima, talvez a figura mais carismática da História portuguesa do século XX, e passa como um meteoro, aliás Fernando Pessoa teve essa noção. É um tipo extraordinário, que me impressionou imenso: a primeira vez que o Sidónio comanda tropa é na própria revolução de 5 de Dezembro, em que ele dirige os fogos de artilharia. Era um professor de matemática, não tinha essa experiência...

- Era um político popular?

- O povo gostava de Sidónio, porque Sidónio gostava do povo. Havia uma ligação, isso vê-se, nas mulheres, todo o País tinha um fanatismo em relação a Sidónio, uma admiração...

- O sidonismo...

- Mais a figura dele. Porque o sidonismo acaba como todos os movimentos feitos à sombra de grandes figuras, aquilo nunca resulta. É uma espécie de clientela, que desaparece com a morte de Sidónio. Deixa uma marca importante que foram aquelas centenas de militares cadetes da Escola de Guerra que formam depois a base do exército português do século XX.

- Trata os autores da morte do rei D. Carlos como "os assassinos". É uma opinião ou uma constatação de facto?

- O assassinato é político, há alguma nobreza, mas são assassinos. Podia chamar-lhes executores, era uma linguagem que o jornalismo usava. Há assassinos na direita e há assassinos na esquerda. Eles tinham uma certa carga de idealismo, são suicidas, sabem que vão morrer e estão dispostos a isso. Enfim, o panteão da história dá uma certa nobreza, mas são assassinos.

- Hoje seriam vistos como os bombistas-suicidas?

- Sim, mas para serem bombistas-suicidas é preciso coragem. São diferentes destes tipos que fazem agora estes bombismos de massas. Há ali uma determinação: o João Franco era o grande obstáculo e enquanto houvesse rei havia João Franco e, portanto, mataram o rei. 

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