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Correio da Manhã

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A realização do sonho europeu (COM VÍDEO)

Há 50 anos o Benfica ergueu a primeira Taça dos Campeões. Histórias da final com o Barcelona
29 de Maio de 2011 às 22:00
Na foto, da esq. para a dir., José augusto, Mário João, Ângelo Martins, Fernando cruz e Artur Santos (que não jogou a final)
Na foto, da esq. para a dir., José augusto, Mário João, Ângelo Martins, Fernando cruz e Artur Santos (que não jogou a final) FOTO: Jorge Paula

Em Spiez, depois do almoço, seguia-se o passeio ao lago Thun. "Até ali, ninguém conhecia o Benfica. Perguntavam-nos se éramos espanhóis ou brasileiros. Éramos uma equipa provinciana" - recorda Mário João, um dos jogadores escolhidos para o ‘onze' que iria defrontar em Berna, uma semana depois, o Barcelona, na primeira final portuguesa da Taça dos Campeões Europeus, a 31 de Maio de 1961. "A caminho do lago, estavam umas velhotas a vender chocolates e rebuçados. A rapaziada começou a roubar uns aqui e ali. Nos dias a seguir, sempre que saíamos do hotel, as velhotas fechavam logo os quiosques. Era uma paródia" - conta o médio Fernando Cruz.

A dois dias da grande final, o Benfica treinava no Estádio Wankdorf, em Berna, onde iria defrontar o Barcelona - a equipa favorita ao título e uma das melhores europeias. "Quando o Barça entrou em campo vi jogadores como o Kubala, o Kocsis, o brasileiro Evaristo, o Suarez. Olhei para eles e não houve um que olhasse para nós" - relata o lateral-esquerdo Ângelo Martins. "Eles não passavam cartão aos jogadores do Benfica". O médio António Saraiva, que falhou a final mas integrou o ‘onze' em cinco jogos da campanha, conta: "O [treinador] Bela Guttman ralhou connosco como se eles fossem os nossos ídolos e nós uns palhacitos a olhar para eles".

No derradeiro dia "entrámos com garra", garante Cruz. "O Guttman incutia-nos uma mentalidade de ataque: se sofrermos um golo, temos que marcar dois; se sofrermos dois, temos que marcar três".

O ‘onze' entrou em campo quarta-feira, 31 de Maio de 61. "Assisti ao jogo na bancada. Naquela altura não havia substituições, nem sequer ao guarda-redes", recorda o central Artur Santos, que, nesta campanha, só alinhou pelo Benfica no jogo da primeira-mão da segunda eliminatória, em que os húngaros do Ujpest perderam na Luz por 6-2. Na bancada, ao lado de Artur e de António Saraiva, "que estava lesionado num joelho", era para se ter sentado o pai de Ângelo Martins. "Por motivos de saúde, desistiu. Ainda bem. Ele não teria resistido... porque a alegria de um pai ter um filho campeão europeu é impensável..." E o jogo era impróprio para cardíacos.

A CAMPANHA

Ao longo de toda a campanha, o Benfica marcou 25 golos - 11 deles de José Águas, o melhor marcador - (e ainda beneficiavam do autogolo do Barcelona). Para trás ficavam jogos difíceis na senda da final da Taça dos Campeões Europeus. "Com o Hearts [na primeira eliminatória] ganhámos o primeiro jogo lá [no Tinecasle Park, em Edimburgo, a 29 de Setembro de 1960] e ganhámos aqui [no Estádio da Luz, a 5 de Outubro]. Agora, as grandes vitórias nessa primeira Taça foram, sem dúvida, contra o campeão húngaro [o Ujpest, na segunda eliminatória, em Novembro do mesmo ano] e a exibição que eu acabo por fazer, de seguida, na Dinamarca, em que eliminámos o Aarhus [já na segunda-mão dos quartos-de-final, em Março de 1961]. Fui passeado em ombros pela juventude dinamarquesa" - recorda José Augusto, que foi na mesma altura considerado pelo jornalista francês Gabriel Hanot, do ‘L'Equipe', o melhor extremo direito da Europa.

"A meia-final foi contra o Rapid Viena. Ganhámos na Luz por 3-0 e, na Áustria [no Wiener Stadion, em Viena, onde o Benfica empatou 1-1 a 4 de Maio de 61] havia mosquitos por cordas. Porque a um minuto do final o árbitro inglês não acedeu à marcação de uma grande penalidade que os jogadores austríacos exigiam. Houve uma debandada de jogadores, o árbitro deu o jogo por terminado e recolheu às cabinas. Houve balbúrdias do arco da velha. Saímos para o hotel em carros da polícia" - conta José Augusto.

No último quarto de hora do jogo em Berna, com o Benfica a ganhar por 3-2, Bela Guttman apercebeu-se de que a equipa já não podia dar mais. "Era defender até ao fim. Eu penso que nós merecíamos ser campeões europeus nesse jogo, por esse último quarto de hora fantástico", diz Ângelo. "O Benfica tinha uma cultura de operário e devaneios de fidalgo. Quando tinha de lutar, lutávamos até à exaustão".

O apito final do árbitro levou à invasão de campo. Ângelo Martins dirigia-se para o balneário, no meio da confusão, sem se aperceber da existência do fosso. Caiu. "Se tenho dado a minha camisola a um sócio do Benfica, tinha morrido nesse dia. Não conseguia sair. O esforço de 90 minutos, a emoção, perdi as forças e pensei: ‘Seja o que Deus quiser'. E foi o polícia que conseguiu sacar-me de lá. Fui semidesmaiado para a cabina" - recorda.

Passado o incidente, o capitão José Águas ergueu a taça. E a festa prosseguiu no hotel. Champanhe para toda a comitiva. E há quem diga que Cavém terá bebido uma taça a mais. A festa era merecida. E seria recompensada: além do ordenado mensal (que era de 3500 escudos em média, o equivalente a 17,50 euros), os jogadores iriam receber 15 contos (75 euros) pela vitória na final, mais os 28 contos (140 euros) pelas quatro eliminatórias anteriores. Só Guttman tinha feito um acordo com a direcção do Benfica em que receberia 300 contos (1500 euros) caso os encarnados se sagrassem campeões europeus.

O jornal ‘A Bola' noticiava no dia a seguir ao jogo: "Os campeões chegam hoje às 19h30 ao aeroporto". A TAP enfeitou o avião todo de encarnado por dentro. "Lembrar-me-ei até ao fim da minha vida da recepção que tivemos. Eu nunca vi tanta gente junta desde o aeroporto até à antiga secretaria do Benfica, na rua do Regedor [na Baixa]. Eram milhares de pessoas, inclusive deitavam-se à frente do autocarro. Levámos uma eternidade a fazer esse percurso", conta Ângelo Martins. "Igual só aconteceu depois, no 25 de Abril", compara Mário João. As pessoas agitavam bandeiras de Portugal, do Benfica e de outros clubes. "Hoje, quando recordo essas imagens, choro. Naquela altura não. A alegria era profunda. Estávamos felizes" - recorda Ângelo. Salazar condecorou este Benfica vitorioso.

Em 1960/61, os encarnados ganharam também o título nacional. Eusébio estreou-se oficialmente uma semana após o jogo de Berna, contra o Belenenses, na última jornada do campeonato. Na época seguinte haveria de ser fundamental, tal como Simões, que entretanto foi contratado.

À Lusa, Mário Coluna considera que a equipa se tornou temível a partir da vitória de 1961. "Houve mais respeito porque ganhámos logo a seguir a outra taça, contra o Real Madrid, uma das grandes equipas da Europa".

SAUDADES DOS MORTOS

"Tenho saudades dos meus colegas que morreram, porque com os outros continuo a dar-me", confessa Mário João, 75 anos. Quando saiu do Benfica, após sete anos, regressou à CUF para jogar e trabalhar como empregado de escritório. José Augusto, 74, foi treinar depois o Benfica e recebeu um convite para ser seleccionador nacional. Acabou a carreira há dois anos, passando por todas as categorias do futebol, além de ter estado ligado ao mundo empresarial. Fernando Cruz, 70 anos, rumou em 68 para o Paris Saint-Germain, depois jogou na Venezuela e, mais tarde, emigrou para os EUA, onde foi treinador e trabalhava numa fábrica de resistências para fornos. Ângelo Martins, 81, acabou a carreira de futebolista e iniciou uma de treinador dos juniores encarnados, onde ficou 30 anos.

Mário Coluna, 75, criou a Academia de Futebol na vila da Namaacha, para jovens moçambicanos, e foi presidente da Federação Moçambicana de Futebol. Artur Santos, 80, é hoje o presidente do Sport Saudade e Benfica. António Saraiva, 79, foi formar o futebol da União de Leiria e mais tarde foi treinar o Torralta, em Alvor, onde aceitou o emprego de chefe das praias e das piscinas. Em 1999 ficou desempregado. Tem uma reforma de 330 euros. São estes os primeiros campeões europeus vivos.

BELA GUTTMAN ERA O MOURINHO DO SEU TEMPO. TEVE UMA VIDA EXTRAORDINÁRIA, LEVOU O BENFICA À GLÓRIA E NO FIM AMALDIÇOOU-O

Janeiro de 2007. José Mourinho cumpre o terceiro ano de contrato com o Chelsea, mas os rumores sobre a possibilidade de abandonar o clube que levou ao título da Liga inglesa nas duas épocas anteriores sobem de tom. O defeso ainda está longe, mas alguns ‘opinion makers' garantem que o português não sobreviverá à terceira época.

Jonathan Wilson, renomado jornalista inglês e autoridade em matéria da história das tácticas e estratégias do futebol, assina por esses dias no ‘The Guardian' um artigo onde relembra uma frase lapidar de Bela Guttman, um dos mais peculiares treinadores da história do futebol: "A terceira época quase sempre é fatal".

A profecia cumpriu-se. Mourinho não ganhou a liga nessa época e logo a seguir abandonou o clube. No ‘Guardian', Wilson chama a atenção para o facto de ser muito difícil encontrar ‘Guttmans' no mundo do futebol, estabelecendo um paralelo entre os dois treinadores, que diz terem sido feitos da mesma massa temperamental.

A comparação é boa e justa. Na forma e no conteúdo. Tal como José Mourinho, Bela Guttman, o treinador húngaro que deu dois títulos de campeão europeu ao Benfica em 1961 e 1962 e depois abandonou a Luz - a terceira época... - tinha um maneira de ser muito ‘especial'. Era controverso, arrogante, ultraconfiante, genial e extremamente competitivo. Tinha o vício das vitórias e quando pressentia que as condições para chegar ao sucesso não se alinhavam segundo a ordem por si estabelecida, fazia as malas e partia para um novo destino. Isso fez dele o maior ‘trota-mundos' da história do futebol e o protagonista de uma vida extraordinária.

DANÇA E FUTEBOL

Bela Guttman nasceu em Budapeste, capital da Hungria, no dia 13 de Março de 1900, embora a data não seja consensual. Os pais, Abraham e Ester, eram ambos professores de dança clássica. Judeus da classe média, passaram ao filho as raízes religiosas e o gosto pelo bailado.

Aos 16 anos o jovem Bela também já ensinava dança mas os passos preferidos eram dados nos campos de futebol e não nos salões. Fez-se jogador - era médio defensivo - no modesto Torekves, mas rapidamente se transferiu para o MTK de Budapeste, onde se sagrou campeão da Hungria no Verão de 1921, o mesmo ano em que chegou à selecção do seu país.

No começo da nova época, contudo, um facto mudou-lhe o destino: perdeu a titularidade no clube e, insatisfeito com a nova condição de suplente, decidiu mudar de ares. Foi também o pretexto que faltava para virar as costas ao regime anti-semita do almirante Miklós Horthy, governante que haveria de passar os últimos anos de vida no exílio de uma casa no Estoril, em Portugal.

Guttman atravessou a fronteira com a Áustria e radicou-se em Viena, que haveria de adoptar como a sua cidade do coração. Ingressou no Hakoah e com o emblema deste clube judeu participou numa digressão aos Estados Unidos, nos anos 20. Por lá ficou, a jogar futebol e a ganhar dinheiro. Duas paixões para a vida. Tinha um especial jeito para negociar e nos ‘States' terá feito uma pequena fortuna - que, todavia perdeu devido ao ‘crash' da bolsa de Nova Iorque em 1929. "Perdi 55 mil dólares", escreveu na sua autobiografia publicada em 1964, na Alemanha.

HÁBIL NEGOCIADOR

Com os Estados Unidos em recessão, o ‘sonho americano' esfumou-se. Em 1932 volta à Europa e dá início a uma longa carreira de treinador de futebol.

Estreia-se no Twente, da Holanda. Assina um contrato de três meses, que o clube decide prorrogar. Mas impõe uma cláusula com uma verba altíssima, contemplado a possibilidade de ser campeão. O Twente era um clube modesto, lutava para não descer de divisão. Fizeram-lhe a vontade. Acabou por ganhar o título. Jamais perderia a veia de bom negociador nos clubes por onde passou.

No Benfica, muitos anos mais tarde, haveria de fazer algo semelhante, no momento de assinar um contrato de 400 contos anuais (cerca de dois mil euros), em 1959: impôs um bónus de 200 contos para o caso de se sagrar campeão europeu. Os dirigentes riram-se e atiraram: "Ó homem, acrescente-lhe aí mais cem". Nem pestanejou e os 300 contos ficaram mesmo escriturados.

No início da década de 30 deu despacho à vocação de nómada. Percorreu a Europa a treinar clubes e foi detido pela fúria anti-semita de Hitler. Numa Europa paralisada entre 1939 e 1945 pelos horrores da Segunda Guerra Mundial, encontrou refúgio num campo de acolhimento de judeus na Suíça, onde conheceu a mulher, Emma. Um irmão perdeu a vida num campo de concentração nazi, mas Guttman sai ileso desse período que praticamente omite na sua autobiografia. Quando um dia lhe perguntam como sobreviveu na fase em que não tinha equipas de futebol para treinar e ganhar dinheiro, respondeu apenas: "Deus ajudou-me".

Assente a poeira levantada pela pólvora da guerra, prossegue a carreira na Roménia, depois Hungria, Itália e ruma ao continente sul-americano pela primeira vez para treinar na Argentina. Volta depois ao Chipre. Surge finalmente o primeiro grande clube europeu, o AC Milan, em 1952. Sempre competente no ofício, lidera a classificação em Itália, na 19ª jornada, quando recebe ordem de despedimento, após entrar em choque com dirigentes sobre questões de competências. Reage ao seu estilo: "Despediram-me apesar de eu não ser nem criminoso nem homossexual".

Regressa à América do Sul e no São Paulo ajuda a popularizar a táctica do 4x2x4 que haveria de inspirar (e formatar) o Brasil para a conquista do Mundial de Futebol de 1958.

FC PORTO E BENFICA

O ano de 1958 marcou também a chegada a Portugal. Desembarcou em Lisboa no dia 1 de Novembro de 1958 mas o destino era o FC Porto, onde pegou na equipa à 8ª jornada, substituindo o brasileiro Otto Bumbel. Apesar de ser uma época de intenso domínio do Benfica, o FC Porto sagrou-se campeão nesse mesmo ano.

Os dirigentes do clube encarnado não perderam tempo: chamam Guttman a Lisboa e oferecem-lhe o irrecusável contrato de 400 contos anos anuais mais prémios (150 contos pelo campeonato mais 50 pela Taça), a que o húngaro acrescenta os ditos 300 contos pela conquista da Taça dos Campeões. Guttman despede-se dos dirigentes do FC Porto por carta, onde alega incompatibilidade... com o clima frio e húmido da cidade.

No Benfica imprime o seu estilo. Regras muito rígidas num tempo em que o profissionalismo no futebol português dava os primeiros passos, impostos pela chegada a Portugal (ao Benfica) de Otto Glória em 1958. Guttman proibia determinantemente a prática de sexo pelos seus jogadores antes dos jogos. Chegava a impor uma semana de abstinência e ‘inventava' estágios para separar os atletas das mulheres e namoradas. Tinha mesmo uma fixação com este assunto e a mulher, Emma, revelou um dia, quando já era viúva, que o marido chegava a acordar sobressaltado, a suar, com pesadelos relacionados com os excessos sexuais dos seus jogadores.

No campo, Guttman dizia-se um técnico de ataque. "Não me desgosta que o adversário marque três golos ou quatro golos, desde que a minha equipa marque quatro ou cinco". Ganhou a primeira final da Taça dos Campeões Europeus ao Barcelona, em 1961, por 3-2 e a segunda ao Real Madrid, um ano depois, por 5-3. Neste jogo o Benfica perdia por 3-2 ao intervalo. No descanso, Guttman faz uso de estratégias psicológicas - em devido tempo cursou Psicologia, na Áustria - que espantam os jogadores, em desânimo perante a desvantagem. Diz-lhes: "Eles estão de rastos. Não baixem agora os braços, pois eles estão de rastos". José Augusto, uma das figuras principais da equipa, assevera que essas palavras tiveram o efeito de um choque eléctrico.

UMA PERENE MALDIÇÃO

Após esta dupla conquista - ponto mais alto da carreira - impõe novas e exorbitantes condições para renovar. O clube não aceita, mas antes mesmo de a época terminar - já não se sentou no banco na final da Taça de Portugal ganha por 3-0 frente ao V. Setúbal - apresenta a demissão. Cumpria assim a advertência feita logo após a atribuição de comendas feita pelo governo de Salazar ao então presidente Maurício Vieira de Brito: "Vou-me embora. Como posso eu ficar a dirigir uma equipa de 14 comendadores?"

Regressa mais uma vez à América do Sul. Antes de partir, contudo, deixa uma terrível execração que haveria, com o desenrolar da história, de virar uma maldição. "Nem daqui a cem anos uma equipa portuguesa volta a ganhar duas Taças dos Campeões seguidas, jamais sem mim o Benfica voltará a ser campeão da Europa".

Em 1963, as águias voltam a chegar à final da Taça dos Campeões, mas perdem-na. O mesmo sucede em 1965.

FEITIÇOS E ‘CHAZINHOS'

Para superar a maldição, os responsáveis do Benfica decidem, após a segunda final europeia perdida, voltar a contratar Guttman. Mas o poder do ‘feiticeiro', como então já lhe chamavam, era tal que até contra o próprio se virou: não teve sucesso na segunda passagem pelo clube.

Anos mais tarde, em 1973, Guttman - sempre em deambulações pelo Mundo, a sua ostra - volta ao futebol português e ao FC Porto. A última aventura do húngaro em solo luso ficaria tragicamente marcada pela morte do jogador Pavão, no dia 16 de Dezembro desse ano, ao 13º minuto da 13ª jornada, no decorrer de um jogo contra o Vitória de Setúbal. Após fazer um passe ao colega Oliveira, o jogador do FC Porto tomba inanimado. Quando o retiram do relvado já vai sem vida. Uma morte envolta em mistério nunca desvendado.

Sabe-se apenas que houve uma descarga invulgar e anormal de adrenalina. Porquê? Na altura, os olhos de muita gente levantam-se para enfrentar Guttman, tudo por causa de uns famosos ‘chazinhos' preparados pelo técnico, que dava a ingerir aos atletas antes dos jogos. Levantam-se suspeitas de doping, nunca confirmadas. O treinador defende-se e encontra em Eusébio um aliado para a vida.

"Era apenas água aquecida com limão e muito açúcar", garante ainda hoje o ‘Pantera Negra'. O certo é que quem lá estava não esquece o dia em que a mulher de Costa Pereira, guarda-redes dos bicampeões da Europa, irrompe pelo balneário da Luz a vociferar contra o treinador, por este teimar em dar ao marido uns ‘comprimidos' que, segundo ela, "lhe infernizavam a noite com pesadelos e estranhas euforias".

Guttman ainda terminou a época nas Antas, em quarto lugar. Mas desgostoso com os últimos acontecimentos, retira-se logo a seguir do futebol e passa os derradeiros anos de vida na sua Viena adorada, recolhido num apartamento situado junto à Ópera.

Morre a 28 de Agosto de 1981, depois de uma vida extraordinária e cheia. Como poucas.

O TEMPO EM QUE UM JOGO DE FUTEBOL SE VIA NAS MONTRAS E A PAGAR NOS CAFÉS 

O ano de 1961 marcou o início da Guerra Colonial, os massacres sangrentos, as colónias a ferro e fogo. Também nessa época as minissaias entraram no armário e Johnny Hallyday era banda sonora para muitos ouvidos. Mas naquele final de Maio não foi a guerra nem tão pouco as modas que as letras gordas dos jornais da época gritaram no papel: "Confiamos nesses onze rapazes de camisola encarnada (...) e acreditamos que a data de 31 de Maio de 1961 (...) pode bem ficar gravada a letras de oiro no livro do Benfica e do futebol português" escrevia Artur Agostinho no ‘Record', no dia anterior ao jogo onde os encarnados se sagraram campeões europeus pela primeira vez na história portuguesa.

Na pequena loja de candeeiros e electrodomésticos onde praticamente nasceu, um António Coelho, então com oito anos, observava o ajuntamento de homens, "de radiozinho a pilhas nos ouvidos", que se acotovelavam para conseguir espreitar a montra da Lourenço A. Coelho, na rua de Buenos Aires, em Lisboa, e assim assistir ao jogo. "O último que tinha dado na televisão tinha sido um Barcelona-Real Madrid, uns cinco meses antes" - lembra Rui Tovar, histórico jornalista desportivo - ajudando a perceber a avidez de bola sentida pelos adeptos e, por isso, a corrida à montra.

Nessa altura a televisão era bem mais nova no país do que a internet nos dias de hoje (tinha apenas quatro anos), daí que os aparelhos fossem miragem para muitos e realidade na casa de muito poucos. Os aparelhos eram "caríssimos. Não posso dizer com certeza, mas um aparelho de 61 centímetros, que foram os primeiros a ser comercializadas por nós, custavam à volta de quinze contos".

Ora, se cada jogador do Benfica recebeu no fim deste histórico jogo em Berna um prémio de igual valor pela vitória e a média de ordenados do plantel rondava os três contos e quinhentos ao mês, é fácil perceber a exorbitância. "As pessoas vinham cedo, para guardar lugar. Para as nossas montras não traziam banquinhos, porque os passeios eram muito estreitos, mas cheguei a ver noutras lojas". Era uma romaria à moda antiga.

"Traziam amendoins e tremoços para acompanhar o jogo, ficava o passeio todo sujo, cheio de casquinhas". Nessa altura ainda "havia poucos cafés que tinham televisão e os que tinham era a pagar, por isso as pessoas preferiam as montras".

Jacinto Amieira, hoje com 69 anos, lembra-se bem de "pagar dois tostões para poder assistir aos jogos na Leitaria Jardim, no Alto de Santo Amaro", espaço que ainda hoje existe, junto da fábrica onde trabalhava então. Como lembra de cor o nome, as posições e as particularidades de cada um dos jogadores da equipa: "Mário Coluna, o monstro sagrado, Mário João e Cruz, os caceteiros, Neto, um pequenino do Montijo".

Jacinto tinha 19 anos em 1961 e ganhava os dias na Progresso e Mecânica, conhecida como a fábrica dos alfinetes, e todos os tostões contavam. "Pouco consumi ao ver ao jogo, talvez uma cervejita, não mais, porque o mais importante era pagar para poder ver televisão, que na altura era novidade e não tínhamos em casa. Íamos bem cedo para marcar lugar, porque a leitaria só dava para umas dez pessoas".

MUDANÇA DE RUMO

"Até à meia hora o duelo estava favorável a Espanha. A igualdade com um golo de José Águas veio ditar a mudança de rumo", escreveu dias depois o ‘Diário de Lisboa'. Jacinto "não tinha grande esperança que o Benfica ganhasse, porque o Barcelona daquela altura tinha três grandes estrelas, que faziam sempre diferença". Pena é que ninguém tenha visto a melhor parte, a segunda.

"A RTP ainda não era membro da Union Européene de Rádio et Television, então a transmissão era péssima". Tovar passou a primeira parte do jogo "a correr de casa para o café do bairro" para perceber se o problema era do seu televisor. "Estava sempre a aparecer aquela indicação que depois se tornou um cliché: ‘pedimos desculpa pela interrupção mas a emissão segue dentro de momentos' - quando isso aparecia sabíamos que era uma anomalia geral, mas quando era apenas a imagem a desaparecer não sabíamos se o problema era do nosso aparelho".

Rapidamente percebeu que o mal era geral e a confirmação veio minutos mais tarde da boca de Fialho Gouveia, "sentado numa secretária sem pinta nenhuma, no estúdio, a dizer: ‘O Benfica acaba de marcar o terceiro golo', boa nova que a rádio já tinha adiantado, sem deixar ficar mal os milhões de adeptos apesar da escuridão nos ecrãs.

ALEGRIA CONTIDA

A televisão na casa de família de Bagão Félix, em Ílhavo, "era uma daquelas pequeninas a preto-e-branco com interferências próprias da época", mas nem isso retirou ao jogo dos campeões uma magia ainda hoje recordada. "Lembro-me perfeitamente que quando o Barcelona marcou o primeiro golo eu, que era um miúdo de 13 anos, fiquei destroçado. O futebol naquela altura era menos táctico, mais ingénuo e puro. Não havia as conferência de imprensa chatas antes, durante e depois; o jogo era a única coisa que interessava".

E o jogo, naquele dia, não estava a correr de feição ao Benfica na primeira parte. "Foi um jogo de sofrimento e alegria, até ao último minuto, até a vitória estar concretizada. É engraçado que apesar da televisão ser a preto-e-branco, ainda hoje me lembro do jogo como se ele tivesse cores". Nesse dia, recostado no sofá junto do pai e dos irmãos, Bagão Félix viu a invasão final do campo com "uma vontade imensa de lá estar, mas nessa época ir ao estrangeiro era como hoje ir à Lua".

Nestes 50 anos muito mudou. "Também não se ia para a rua apitar, a vitória e o futebol eram vividos de uma forma mais contida, mais espiritual, mas ao mesmo tempo mais vivida. Depois do jogo fui para a cama - era uma quarta-feira e no dia seguinte tinha escola - sonhar com aquilo que tinha visto, era uma emoção bacteriologicamente mais pura".

O realizador António-Pedro Vasconcelos, na altura em Paris, com 22 anos, não assistiu ao jogo num tempo "em que não havia telemóveis, os televisores eram poucos" mas a (boa) notícia foi circulando aos poucos, entre os amigos e no dia seguinte nas manchetes dos jornais".

Fernando Seara, presidente da Câmara de Sintra, era bem mais novo mas lembra-se de ouvir contar. Tinha cinco anos mas enumera os cafés, em Viseu, que se "enchiam para os jogos televisionados". E recorda que, "em minha casa, ou em casa dos meus avós maternos, os jogos de futebol eram vistos em silêncio. E com as mulheres a espreitarem de vez em quando a sala que só explodia, e muito, nos momentos dos golos. Este jogo foi um dos mais marcantes".

Depois disso, a festa. "Somos campeões! Uma vitória memorável" - concordaram os jornais e o povo. "Porque meia Lisboa foi esperar o Benfica" ao aeroporto e "Uma orgia de cor e som a fazer lembrar o Carnaval brasileiro" foi o que se viu e leu em toda a imprensa. Não foram as modas nem a guerra a fazer parar o País há 50 anos num fim de Maio como qualquer outro. Foi a bola. Há coisas que nunca mudam.

O PESO DOS ADEPTOS FEZ CAIR O TELHADO

Nos dias seguintes ao histórico jogo Benfica-Barcelona os jornais não pouparam os caracteres - nem tão pouco os elogios à equipa portuguesa. A euforia, como não é difícil de imaginar, era comum nas gentes que correram para o aeroporto para esperar a equipa e demonstrar o orgulho no feito. "Delírio é a palavra justa para sublinhar o momento em que a multidão viu, na escada do avião, a taça" - lia-se nos jornais da época.

Certo é que o delírio deu para o torto para "meia centena de adeptos que subiram ao telhado de um barracão que servia para guardar máquinas no aeroporto. O excessivo peso fez o telhado abater, arrastando para a queda todos aqueles que nele se encontravam" A maioria sofreu apenas "ferimentos ligeiros, mas menos sorte teve José Pardal Laranjeira, jornaleiro de 24 anos da Póvoa de Santa Iria que fracturou a bacia".

De resto, e incidentes à parte, "Lisboa veio para a rua saudar os campeões da Europa", uma "união de gente de todas as categorias" (e diferentes preferências clubísticas, deixaram claro os jornais) a clamar bem alto o nome dos campeões. Tanto que "quando a multidão envolveu o autocarro ali ao pé da porta número 9, da rua Jardim do Regador, não ficou nem mesquinha fenda por onde se passar".

A CRÓNICA DO JOGO

ESTÁDIO

Wankdorf, em Berna, na Suíça.

EQUIPA DE ARBITRAGEM

Árbitro: Dienst (suíço); fiscais de linha: Schicker; e Guinard (suíços)

EQUIPAS

BENFICA - Costa Pereira; Mário João e Ângelo; Neto, Germano e Cruz; José Augusto, Santana, José Águas, Coluna e Cavém.

BARCELONA - Ramallets; Foncho e Garay; Vergés, Gensana e Gracia; Kubala, Suarez, Evaristo, Kocsis e Czibor.

O Benfica entra mal no jogo. A equipa - de acordo com Aurélio Márcio, repórter de ‘A Bola' - "começou o pior possível, evidenciando nervosismo por parte de alguns jogadores verdadeiramente alarmante". A meio campo, Neto e Cruz não seguram a bola nem marcam os adversários. O Barcelona consegue impor o seu "ritmo lento, de futebol pensado".

2' - Mário João evita sobre a linha o golo do Barcelona, a remate de Evaristo, desferido de costas, em bicicleta. Coluna, lesionado, abandona o campo: é assistido durante 5m. Na ausência de Coluna, Cavém descai para o meio-campo. Nesse período, o Barcelona não tem mais lances de perigo - salvo um remate de Garay, de longe: o guarda-redes do Benfica, Costa Pereira, deixa escapar a bola das mãos e só a agarra à segunda.

15' - O Benfica equilibra o jogo. Cruz, no meio campo, passa a jogar ao seu nível e o defesa Germano põe a casa em ordem. Costa Pereira parece mais seguro.

20' - Golo do Barcelona. Vergés corre pelo seu flanco direito, ultrapassa a defesa, e centra da linha de fundo. A bola, batida a meia altura, passa pelos jogadores benfiquistas: Kocsis mergulha na área e, de cabeça, bate Costa Pereira.

28' - Remate de Czibor desviado para canto.

30' - Golo do Benfica. Coluna recupera uma bola a meio campo, passa por Vergés e lança para Cavém - que flecte para a grande área. Ramallets hesita, sai mal. Cavém remata rasteiro: pontapé fraco, mas colocado. O defesa Gensana ainda tenta interceptar a bola. Em vão. José Águas surge sozinho à boca da baliza e empata o jogo.

31' - Benfica adianta-se no marcador. Auto-golo de Vergés. Neto cruza para a grande área. Vergés salta com Santana e, de cabeça, desvia para a baliza. Ramallets é incapaz de agarrar a bola. O esférico salta das mãos do guarda-redes, bate no poste e ressalta para a relva. O árbitro assinala golo.

O Barcelona acusa o peso da derrota.

45' - O Benfica entra na segunda parte em bom ritmo. Os jogadores do Barcelonaparecem esgotados. O avançado Suarez refugia-se na retaguarda da sua equipa.

55' - Terceiro golo do Benfica. Coluna lança Cavém, que centra por alto para a grande área. Um defesa do Barcelona afasta a bola de cabeça. Coluna aparece em corrida à entrada da área - e, de frente para a baliza, sem deixar a bola bater na relva desfere um remate com o pé direito. Ramallets ainda se estira - mas a bola entra rasteira junto ao poste. Ao ganhar por uma diferença de dois golos, o Benfica abranda o ritmo e é isto mesmo que convém ao Barcelona.

69' - Kocsis remata ao poste.

71' - Kubala recebe a bola à entrada da grande área. Remata com o pé esquerdo. A bola vai ao poste direito, ressalta para a poste esquerdo, sobre a linha, e morre nas mãos de Costa Pereira. O público e os jogadores do Barcelona reclamam golo. O árbitro manda seguir.

75' - Golo do Barcelona. Canto marcado contra o Benfica. A bola, afastada de cabeça por um jogador encarnado, encontra Czibor à entrada da área. O pontapé de Czibor leva a bola a embater na trave e a ressaltar para a baliza. Até ao final da partida, os encarnados lutam mais do que jogam.

84' - Czibor atira ao poste.

88' - Czibor, sozinho na área, permite magnífica defesa a Costa Pereira. O jogo termina com três cantos seguidos contra o Benfica. Mas o Barcelona não consegue empatar . Coluna, Costa Pereira e Germano - como deixou escrito Aurélio Márcio - "foram os heróis da resistência".

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