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Correio da Manhã

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A freguesia que calçava o Ribatejo

Em 1950 havia 750 sapateiros na Benedita, em Alcobaça, terra de gente humilde que fazia sapatos ou trabalhava no campo.
Marta Martins Silva 3 de Julho de 2016 às 15:30
António Quitério, de 74 anos, é um dos últimos sapateiros da Benedita
António Quitério, de 74 anos, é um dos últimos sapateiros da Benedita FOTO: Vítor Neno

Luís Nicolau tinha cinco anos quando a Liga Portuguesa de Profilaxia Social, no Porto, iniciou, em 1928, uma campanha contra o pé descalço – espelho inequívoco da miséria do povo – considerado uma vergonha nacional que era urgente extinguir. Tinha nove quando Salazar instituiu uma multa de 25 tostões para quem não usasse sapatos e 13 quando começou a trabalhar na oficina de sapateiro do pai – já falecido – junto com os irmãos, ofício que lhes punha na mesa a pouca comida que forrava o estômago no final de uma jornada de solas e curtumes.


"Não havia outra profissão cá na Benedita [uma freguesia do concelho de Alcobaça]. Ou eram os sapatos ou era o campo. Como já sabia como se fazia fiquei a fazer o mesmo. Naquela altura só fazíamos sapatos para as pessoas da agricultura e a maioria deles vendíamos nas feiras do concelho. Mas no tempo do meu pai, no início de 1900, o sapateiro ia fazer a obra a casa do cliente – levava a mesa das ferramentas, o banquinho e ficava lá três ou quatro dias", conta quem já garantiu 92 anos de vida na zona do País que em 1950 tinha 750 sapateiros e 120 oficinas, como noticiava o jornal ‘O Alcoa’ de 31 de agosto do mesmo ano. Apesar da concorrência não havia inimizades. Consta até que se encontravam às segundas-feiras nas tabernas para pôr em dia a semana, eles que tinham fama de divertidos e bisbilhoteiros.

ESFORÇO E SACRIFÍCIO

"A Benedita fornecia essencialmente a zona do Ribatejo, na altura de uma agricultura mais manual, as pessoas da apanha da azeitona, das vindimas, usavam o calçado grosso, a chamada bota de elástico. Os sapatos adequavam-se às pessoas que serviam, nomeadamente na zona do Cartaxo, Santarém, depois é que houve uma grande transformação, apareceram os sapatos de borracha", explica o autor do livro ‘Os Sapateiros da Benedita e a sua História’, o professor e investigador João Maurício.


Os sapateiros, homens que viviam dobrados sobre o objeto que calçava as gentes, sentados em bancos baixos de madeira que moíam as costas e os braços, de terça a sábado, e muitas vezes pela noite fora, passaram ao longo da história por períodos de grandes dificuldades.


"No século vinte, os sapateiros lutaram com muitas adversidades: a pneumónica de 1917, o ciclone de 1941 e a trovoada de 1949. Suportavam o frio e o vento suão com a mesma força e tenacidade com que enfrentavam o calor de agosto. Durante a II Guerra Mundial (1939-1945), viveram-se tempos difíceis em todo o País e, também, na Benedita. O racionamento significava carência de bens essenciais, alimentares e os necessários para o fabrico do calçado. Havia mercadoria, apenas, para trabalhar uma semana por mês. Daí, o recurso ao contrabando, que conseguiu minimizar o problema. Além disso, na Benedita, uma terra muito religiosa, havia muita natalidade por isso algumas pessoas que eu contactei nem gostam de falar desses tempos porque foram tempos muito duros", acrescenta o investigador João Maurício, natural da terra e filho de uma casa que vendia solas e cabedais, um cheiro que ainda hoje lhe perfuma a memória e que o fez querer saber mais sobre o ofício e fazer dele um livro.

Luís Nicolau tinha 16 anos quando estalou o conflito que opôs os Aliados aos Países do Eixo e já trabalhava na oficina de sapateiro há três anos, depois de terminar o Ensino Primário. "Foram tempos muito difíceis, a gente tinha de ir para o monte trabalhar, tinha que haver fundos para pagar os ordenados ao pessoal", recorda hoje numa das duas sapatarias da família onde todos os dias trabalha. "Deixei de fazer sapatos há mais de 30 anos, deixou de compensar. Agora compro e vendo. As coisas mudaram muito. Dantes um par de sapatos durava dois anos, agora toda a gente parece ter sapatarias em casa", diz com alguma graça sobre a forma como o objeto se tornou um bem menos ‘valioso’ e mais acessível à carteira. Em 1949, os preços foram tabelados em algumas categorias. O preço deveria ser afixado à porta do fabricante. Os botins de homem custavam então 175 escudos; os sapatos de homem tipo rural 92 escudos (se fossem comprados à porta da fábrica pelo cliente final) e 102,5 escudos se vendidos ao público (margem de lucro para o comerciante).

PASSADO E FUTURO

Reza a história que, um dia, um rei, caminhando descalço no seu jardim, pisou um espinho. Enfurecido, ordenou ao ministro que cobrisse todo o reino com couro, de maneira a que nunca mais voltasse a ferir os pés. O ministro, apavorado pela extensão do projeto, sugeriu: – Majestade, porque não cobre antes os pés com couro em vez de cobrir todo o reino? A história foi contada pelo investigador João Maurício no livro sobre o ofício, no qual diz também que os sapatos foram inventados na Mesopotâmia (hoje Iraque) há mais de três mil anos e que em Portugal a profissão de sapateiro era uma das mais representadas nos séculos XIV e XV nos Coutos de Alcobaça, nomeadamente na região da Benedita – onde nas matas abundavam os carvalhos (principal matéria-prima para preparar os curtumes, sendo que o calçado era confecionado a partir dos couros dos animais abatidos).


Sabe-se ainda que o mosteiro tinha ao seu serviço um mestre de sapateiro e que tinha a obrigação de pagar ao rei o foro anual de um par de botas ou sapatos em reconhecimento do padroado real.


Terá sido assim o início de uma profissão que se colou inevitavelmente à história da terra onde António Quitério – conhecido por ‘Lebre’ – nasceu no início dos anos quarenta do século XX, a mesma altura em que a freguesia da Benedita ganhou o epíteto de ‘terra de sapateiros’.


"Nasci praticamente dentro de um sapato", conta este neto, filho, sobrinho e irmão de sapateiros. De volta das peles e dos moldes, lembra-se com uma emoção que o tempo não atenuou das dificuldades de então. "Recordo uma vez que fomos à feira de Alcoentre e eu sabia que nem dinheiro tínhamos para pagar o frete da camioneta onde íamos. Se não vendêssemos nada não havia dinheiro nenhum. Naquele dia estava a chover torrencialmente, por isso as pessoas não saíram de casa, e chega-se à noitinha e o meu pai diz para eu pôr os sapatos nas caixas que já não vinha mais ninguém. Mas o tempo abrandou um bocadinho de repente e olhe! Meteram-se dois homens debaixo da barracazinha que a gente lá tinha e cada um comprou um par de botas, eram 140 escudos cada par, eu até chorei de alegria", conta António Quitério, hoje com 74 anos.


Este sapateiro continua a fazer manualmente todos os pares de sapatos que saem da sua oficina. Uma bota de homem custa 120 euros, um sapato de senhora, 80. "Já não faço à sorte, faço só aquilo que me pedem para fazer, mas há uns dez anos por causa da crise o negócio começou a piorar. A melhor altura foi há uns 30 anos, recebia dinheiro a rodos, tiravam as coisas da mão à gente. Tudo queria aquela bota caneleira, também chamada de alentejana, que eu vendia a 25 contos" conta o sapateiro, um dos poucos (senão o último) da freguesia que ainda faz sapatos manualmente. "Tenho um filho que também seguiu este ofício e o meu neto de cinco anos também já mostra gosto. Vem todos os dias para a oficina depois da escola e pede a pele, mexe nas formas e diz que vai fazer um sapato".

 

INFÂNCIA DO AUTOR ENTRE SOLAS E CABEDAIS

 

João Pereira Maurício, o autor da obra ‘Os Sapateiros da Benedita e a sua História’, é professor aposentado e investigador da história local. Viveu, indiretamente, ligado à atividade. A avó, o avô e o pai vendiam artigos para os sapateiros, como solas, graxas e cabedais."Conheci o fervilhar de uma casa de solas e cabedais, comércio fundamental para o dia a dia do mundo dos sapateiros", justifica o autor – que ficou espantado com a escassez de material bibliográfico sobre os sapateiros quando começou a investigar a história deste ofício.

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