Barra Cofina

Correio da Manhã

Domingo
1

ALTERNE: O LADO ERRADO DA GALIZA

Os homens do Minho atravessam a fronteira para irem ‘às meninas’ longe da porta da casa. Evitam desaguisados caseiros e movimentos femininos do tipo ‘Mães de Bragança’, que tanto atormentaram a virilidade transmontana.
17 de Agosto de 2003 às 00:00
“Já nem me lembro de passar na ponte velha de Valença”, diz-nos o homem de 45 anos que conduz o carro ao passar a fronteira para Espanha. “Ainda me lembro das filas históricas na fronteira, quando se ia a Espanha comprar bacalhau, azeite e chocolate”, recua ao tempo em que as famílias se deslocavam em romarias à Galiza. Agora a romaria é diferente. Em vez das famílias vão apenas os homens, sozinhos ou em grupo. A viagem que se fazia de dia faz-se agora à noite. O objectivo deixou de ser as compras, mas sim o prazer pago da prostituição. São às centenas os homens minhotos e alto-minhotos que cada vez mais passam a fronteira em busca de uma noite diferente, ou da satisfação de uma fantasia.
Não seria preciso que o nosso companheiro de viagem se assumisse um habitual frequentador das casas de prostituição galegas, pois tal seria bem constatado, logo na primeira paragem que efectuamos na zona industrial de A Granxa. À sua entrada, uma mulher, com cerca de 25 anos, falando espanhol com sotaque colombiano, atira-se para os seus braços, alertando o grupo de outras mulheres sentadas: “o meu amor português veio visitar-me”. Percorremos a sala procurando um sofá onde nos sentar, enquanto o homem se dirige ao balcão para pedir bebidas. É este momento que registamos como a primeira surpresa. No balcão é uma mulher que serve. Esperamos um pouco para ver se surge um homem a servir as bebidas pagas pelos clientes às mulheres que fazem da sedução a sua maior virtude. Na ideia temos as casas de alterne do Alto-Minho, onde são normalmente homens os empregados de bar. Não surge nenhum. Dirigimos então o olhar para a porta em busca dos seguranças corpulentos e com ar ameaçador, tão comuns nestas casas em Portugal. Não existe ninguém. A porta está aberta como se de um bar ou café se tratasse.
VIVA À LIBERDADE
Quando o nosso companheiro de viagem se senta na mesa onde nos encontramos com dois uiísques na mão, trazendo agarrado a si a colombiana e mais uma brasileira, supostamente para nos fazer companhia. Ele ri e responde: «já vi que perceberam quais são as razões que me fazem vir a Espanha e a não frequentar as casas em Portugal». Aqui “há muita mais liberdade” e não “és pressionado”. Continuando a sua explicação diz ainda que “é possível entrar nestas casas apenas para beber um copo e falar com as ‘meninas’”. Claro que elas tentam sempre convencer o cliente para pagar copos ou mesmo para subir ao quarto, mas “há muitas que ficam a falar contigo mesmo que não pagues nada”. Elas é que “gerem o seu tempo”, ao contrário de Portugal “onde os gerentes deitam olhares severos às miúdas se elas entram em diálogo sem que o cliente mostre sinais de ir gastar dinheiro com ela”.
Perguntamos se a porta aberta, sem porteiros ou campainha é habitual ou se aquele é um caso excepcional. A resposta é conclusiva: “Todas as casas funcionam assim”. Um facto que confirmamos ao longo das “visitas” efectuadas a mais de uma dezena de casas num raio inferior a 30 quilómetros. São fáceis de identificar as casas do prazer. Normalmente, as luzes exteriores são em neón, com nomes apelativos ou cores que não deixam dúvidas à mais pura das almas. Os locais escolhidos normalmente são bem visíveis sendo que várias ficam mesmo à face da estrada. É o caso de Porrinõ, onde percorrendo com o carro o “circuito”, se avistam vários carros de matrículas portuguesas nos parques de estacionamento que quase todas as casas têm. O nosso companheiro de viagem leva-nos a passar por algumas de maior fama em Portugal: El Cisne, Vitiza, El Condor. Refere ainda mais uma casa, onde o fluxo de portugueses é “avassalador”. Fica já na cidade de Vigo: Barbarella. Em Monção, Alto Minho, existe uma casa com o mesmo nome. Não é coincidência, diz-nos o homem, enquanto entra numa bomba de gasolina para reabastecer “a um preço bem mais barato que em Portugal”. O Barbarella é um dos maiores clubes brasileiros e estas casas “são apenas geminações, estilo multinacional estão a ver”. Pergunta-nos onde queremos ir, quase sem resposta deixamos ao critério do próprio. A partir de então sentimo-nos entrar numa espécie de ‘rally paper’.
O MEU AMOR É DE OURO
Entrámos no El Cisne, onde três carros portugueses estão estacionados na zona mais escura do parque. Ao contrário do anterior bar, este não tem mesas, nem sofás. Os clientes espalham--se pelo balcão, na sua maioria de pé, pois os bancos altos estão na sua maioria ocupados pelas mulheres de pernas cruzadas. Como os outros, encostamo-nos ao balcão. Uma mulher negra senta-se ao nosso lado. Apresenta-se e pergunta-nos se queremos companhia. Dizemos que sim mas que lhe pagaremos um copo. Queríamos ver se o que nos tinham dito era de facto verdade. A rapariga volta à carga: “então queres fazer coisas boas comigo lá em cima”. Esquivamo-nos: “acabei de chegar e por agora queria apenas falar um pouco”, disse-lhe o nosso companheiro de viagem. Pensamos que nesse momento iríamos perder a companhia. Puro engano. Ela sorriu e deixou-se ficar. Na conversa que tivemos, ficamos a saber que era jamaicana. Com um sorriso bonito e um olhar profundo vai dizendo que tem 22 anos e que está em Espanha há dois meses. Veio para ganhar dinheiro e para ajudar a sua família. Um argumento que ouvimos repetido várias vezes naquela noite. Tenciona voltar, mas um percalço está a complicar-lhe a vida. Tem um namorado espanhol e agora não sabe o que fazer. “Conheceu-te aqui?”, pergunta. “Sim e não se importa do meu trabalho”. “Vem ao fim da noite buscar-me e vamos para casa”. “Então podes sair daqui? Não és obrigada a viver na casa.” “Não”, afirmou a mulher. Desde que “faça o meu trabalho o patrão não nos impede”.
De repente fomos surpreendidos pelo “amor”, num local onde supostamente não deveria existir, ou no máximo, teria de ser pago. Um dos clientes, um empresário de 33 anos, que mantém uma relação amorosa com uma cubana, afirma, quando já está sentado numa das poltronas do “Vitiza”, que “na grande maioria das vezes a relação faz-se por interesse monetários ou mesmo para a obtenção da legalização no nosso país”, mas “também é certo que as mulheres são humanas e possuem sentimentos”. E “por vezes surge alguém que lhes dá o carinho de que sentem falta e elas assumem o relacionamento”. Sabem que “não têm garantia de nada e que é preciso algum estômago para aguentar”. Interrompe o seu pensamento e aponta-nos com o olhar uma mulher que aparenta ainda não ter passado dos trinta anos. “Vêem as mãos e o pescoço dela?”, pergunta-nos. Constatamos, que os dedos estão repletos de anéis de ouro e que o pescoço ostenta um magnífico colar. “Sabem como ela tem aquilo tudo?”, questiona sabendo de antemão que não saberíamos a resposta. Por isso, nem sequer espera pelo não. É um “ourives de Valença que lhe dá”. Vem cá várias vezes por semana e, quase sempre, traz-lhe “um mimo”. Só que ele “é casado e com filhos, o que é bem complicado”.
Um amigo do empresário que estava a escolher uma música na ‘juke-box’ regressa, junta-se a nós e, ao verificar do que falávamos, decide intervir. “Pois é, essas histórias são bonitas, mas às vezes acabam mal”. Relata então um caso que conhece de um amigo seu que se envolveu com uma brasileira. “Foi uma paixão avassaladora, e ela também gostava dele”. Chegaram a casar, mas não durou dois anos. Ela tinha dois filhos no Brasil, tinham que enviar dinheiro todos os meses e, claro, “como ela deixou de trabalhar na vida, era ele que metia o dinheiro”. Só que “a fonte secou, ele ficou sem nada e a menina habituada aos luxos decidiu deixá-lo”. A história interrompe a boa disposição e é uma colombiana que volta a animar as hostes: “isto parece um funeral meninos”.
A CONQUISTA AOS 74
No bar onde nos encontramos agora constata-se que é bem maior que o anterior. Um longo balcão percorre a sala, onde as máquinas de jogos e a ‘juke-box’ se misturam com as mulheres que aqui estão em maior número. Rosi, uma brasileira de 32 anos senta-se também à nossa mesa. E o cenário do El Cisne repete-se. Não pagamos copos, nem vamos subir. Se calhar porque àquela hora o movimento ainda não apertava, deixou-se ficar ajeitando o pequeno top. Explica porque é que veio para Espanha e foge ao cliché. Rosi era casada, estava a tirar o curso de Direito e ela e o marido estavam construir uma casa. Só que subitamente o marido morre e “a derrocada económica acontece”. Apesar disso, a brasileira prometeu a si mesma que iria concluir as obras da casa iniciadas pelo casal, “e esta foi a forma que encontrei para o conseguir de uma forma mais rápida”.
Depois do desabafo, Rosi, diz ainda que gosta dos clientes portugueses, pois assim pode falar a sua língua e não “um espanhol arranhado”. “Aqui vem imensos portugueses e são cada vez mais”. Na moda parecem estar os grupos que ali se deslocam para despedidas de solteiros. Uma altura boa para as meninas que aproveitam o “espírito” para sacar mais bebidas pagas.
A noite já vai longa, mas apesar disso, pedimos ao nosso companheiro de viagem para nos levar ao Barbarella, o famoso bar de Vigo. Quando lá chegamos foi fácil perceber o porquê da fama. É a casa com mais mulheres a trabalhar. “Trinta e seis por noite.” Ou seja, existe mulheres para todos os gostos. Quem não se importa com o tipo da mulher é um septuagenário que ali se encontra, para quem “tudo o que vem à rede é peixe”. Não resistimos a meter conversa. Vem da zona de Viana do Castelo, tem a mulher acamada e apesar dos 74 anos não deixa de frequentar aqueles locais. Pela sua idade, é um dos portugueses mais queridos das meninas do bar. “Elas acham piada por eu ter esta idade e ficam surpreendidas quando eu lhes digo que quero subir com elas.”
“ENTÃO POR AQUI?!”
É no muito movimentado Barbarella, em Vigo, que confirmamos aquilo que seria fácil de suspeitar – gente com cargos na vida pública também vai a bares do outro lado da fronteira. Enquanto lá estávamos entrou um membro de um executivo camarário de um dos municípios minhoto. A princípio não nos vê. Pedimos então ao empregado do bar que lhe ofereça uma bebida. Quando constata a nossa presença, rapidamente se nos dirige, com um sorriso para tapar o constrangimento. Jornalistas naquele local não serão as pessoas que mais gostaria de ver. “Então por aqui?”, desafia-nos. A conversa segue fiada por momentos, se sem saber o que dizer na circunstância. Pouco tempo depois, sente-se mais à vontade, pelo menos o suficiente para subir com uma loira de 1,70m. Não é o único. Garante-me o meu guia pelo lado errado da noite Galega. Também aqui vêem “dirigentes desportivos e outras pessoas ligadas à política”. Isto, “toca a todos”. No final da noite, mais de uma dezena de portugueses estão espalhados pelo bar. Começamos a ter a certeza que estes “todos” a que se refere o guia são realmente muitos. A romaria de portugueses à Galiza em busca de prostitutas não é um mito. Uma das razões mais fortes é o medo de serem reconhecidos em Portugal, perto de casa.
Ver comentários