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Correio da Manhã

Domingo
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Arnaldo Matos na clandestinidade

O secretário-geral do MRPP evadiu-se do Hospital Militar Principal, em Lisboa, onde estava internado sob prisão.
10 de Julho de 2005 às 00:00
Arnaldo Matos tinha sido preso pelo COPCON, em 28 de Maio, juntamente com cerca de 400 militantes do MRPP. Esteva encarcerado no Forte de Caxias mas foi internado sob prisão no Hospital Militar Principal, na Estrela, em Lisboa, para ser tratadado a uma úlcera no estômago.
Fugiu. O COPCON, comandado por Otelo Saraiva de Carvalho, emitiu um mandado de captura. Arnaldo Matos entrou na clandestinidade. Ainda assim, “algures no País”, foi entrevistado pelo jornalista Rui Pimenta. A longa entrevista de duas páginas foi publicada pelo semanário ‘O Jornal’, em 18 de Julho de 1975. Aqui ficam algumas das mais interessantes passagens.
O JORNAL
Poderá contar, em linhas gerais, como se processou a sua fuga do Hospital Militar de Lisboa?
Arnaldo Matos - Não é possível revelar em pormenor como fui libertado do Hospital Militar Principal. A situação política agravou-se de um momento para o outro e não era possível continuar por mais tempo naquela situação. Teria que adoptar outras medidas de libertar e ser libertado. O MRPP organizou a minha libertação, que foi levada a cabo por um certo número de elementos das massas populares, sob a direcção do nosso Partido. É a única coisa sobre esta matéria que posso dizer.
A seguir à sua fuga surgiu um comunicado do COPCON dando a conhecer a libertação de grande parte de militantes do MRPP presos em Caxias e em Pinheiro da Cruz.
O ataque de que o MRPP foi alvo, no dia 28 de Maio, (...) prenunciava o desenvolvimento da luta de classes entre o proletariado e a burguesia (...) O inimigo julgou que era fácil aniquilar, em 24 horas, o MRPP. Apesar das 430 prisões, 24 horas depois o MRPP recuperou todas as sedes. Travou combates duríssimos com forças da repressão, embora estivéssemos desarmados (...) Dentro do Conselho da Revolução e do MFA, que decidiram a operação de cerco e de aniquilamento do MRPP, existiam diversas facções (...) Algumas dessas facções não estavam tão firmemente decididas a aniquilar o MRPP como outras. Nós pensamos que isso, contudo, foi obra inspirada no partido de Barreirinhas Cunhal e executada pelos seus militantes infiltrados, a todos os níveis, nas Forças Armadas. O comunicado que o COPCON publicou recentemente só vem provar que não lhes foi possível manter por mais tempo a quantidade de elementos do MRPP que estavam detidos (...)
Que pensa da mobilização realizada ultimamente pelo Partido Comunista?
Nós temos analisado a situação dos diversos sectores da burguesia, desde o Partido Comunista, até ao Partido Popular Democrático, passando pelo CDS e pelo PDC. Mas temos visto a questão, fundamentalmente do ponto de vista da classe operária. A classe operária perdeu muito nestes 14 meses depois do 25 de Abril (...) A classe operária está à procura de uma forma de se organizar para instaurar o poder que lhes compete a ela e aos camponeses (...)
Hove agora o reconhecimento oficial, por assim dizer, das comissões de trabalhadores, das comissões de moradores e de todas as organizações de base dos trabalhadores. Qual é a sua opinião sobre esse reconhecimento?
Desde Maio do ano passado, por ocasião da I Conferência Nacional do MRPP, que o nosso partido tratou dessa questão teórica (...) Para os dogmáticos e oportunistas de todas as matizes que agitam a bandeira do marxismo-leninismo, mas não fazem ideia do que isso seja, a forma de construir o poder da classe operária e dos camponeses tem sido seguida à risca por algum modelo do passado.
Eles não compreendem que, em cada país, a classe operária e os camponeses criam a forma exacta desse conteúdo revolucionário de poder. E em vez de analisarem a nossa situação, como nós fizemos na I Conferência Nacional, eles passam a aplicar dogmaticamente os arquétipos que estudaram nalgum sítio.
Adaptaram o pé ao sapato em vez de adaptarem o sapato ao pé. E não viram nem deram nenhuma importância às comissões de trabalhadores. E a nossa missão foi mostrar, junto da classe operária, que ali estava, em embrião, o núcleo fundamental do seu poder e que é preciso dedicar áquela forma nascente, genialmente criada pela classe operária portuguesa, toda a atenção dos comunistas para que, em breve prazo, viessem a poder exprimir o poder da classe operária contra esse poder da burguesia que estava cada vez mais corrupto, decadente e esfrangalhado (...)
A atitude dos revisionistas e de todos os oportunistas foi de esmagar à nascença esses órgãos, sob argumentações diversas. Se já existem delegados sindicais, para quê comissões de trabalhadores? (...) Mas a classe operária, no seu movimento revolucionário, não tem contemplações para com os filisteus e oportunistas e continuou a desenvolver a criação de comissões de trabalhadores (...)
PARTIDO SOCIALISTA ABANDONA GOVERNO
O Secretariado Partido Socialista decidiu que os seus ministros e secretários de Estado deveriam cessar imediatamente funções no Governo - revelou um comunicado do PS distribuído na madrugada de 18 de Julho de 1975. As razões do PS prenderam-se com o caso do jornal ‘República’. “Como é do conhecimento de todos, em 19 de Maio de 1975 - lembrava o comunicado - saiu uma edição pirata do ‘República’.
Raul Rêgo, director, e os redactores foram sequestrados e defenestrados. As instalações do jornal foram ocupadas por gorilas armados. E através destes processos de carácter puramente fascista, saiu um número pirata do ‘República’ nele figurando como director o senhor Belo Marques”.
O PS atribuía a ofensiva contra o jornal ao Partido Comunista , jornal esse que acabou por ser encerrado. O PS queria que o jornal fosse entregue aos legítimos proprietários, directores e jornalistas. Isso não veio a acontecer. Os Socialistas abandonaram o Governo”.
VÍTOR ALVES
Coube-lhe um um momento único na História: anunciou, ao País e ao mundo, o Programa de Acção Política do Movimento das Forças Armadas, em 25 de Abril de 1974. Vítor Alves era major. Esteve desde a primeira hora com o grupo de oficiais que, com a bênção de Spínola, se preparavam para derrubar o regime.
Durante o PREC, opôs-se no Conselho da Revolução aos sectores militares mais destemperados: fez parte do ‘Grupo dos Nove’, que ao lado dos partidos democráticos travou a ala revolucionária e inspirou o golpe de 25 de Novembro de 1975.
REVOLUÇÃO DIA A DIA
10 de Julho -tido Socialista abandona o Governo.
11 de Julho - Encontrada uma bomba junto à Caixa Geral de Depósitos, na Baixa de Lisboa.
12 de Julho - Conselho da Revolução anuncia demissão de ministros e secretários de Estado do PS
13 de Julho - Família Mello abandona Portugal; Sede do PCP em Rio Maior é assaltada e destruída.
16 de Julho - Ministros e secretários de Estado do PPD saem do Governo; manifestações de extrema-esquerda em Lisboa e no Porto: “Governo provisório, não; governo popular, sim!”.
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