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Correio da Manhã

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'British Trump' ao serviço de Sua Majestade

A vida e a carreira atribuladas do excêntrico, carismático, trapalhão e mentiroso Boris Johnson
Fernando Madaíl 4 de Agosto de 2019 às 06:00
James Bond, a criação literária de Ian Fleming para a saga ‘007’, afinal era um espião verdadeiro que nasceu no Estoril? Os contribuintes ingleses pagam as touradas espanholas? Bruxelas estudou uma diretiva para se treinarem cães para fiscalizar se o cheiro do estrume estava uniformizado em toda a UE? As mulheres têm uma "irracionalidade pré-menstrual"? Uma vez que os gays se podem casar também deve ser legalizado o direito à união de três homens? Disparates e invenções que não seriam importantes se não tivessem sido ditos pelo 14º primeiro-ministro ao serviço de Sua Majestade, a Rainha Isabel II de Inglaterra.

Muitas publicações de referência internacionais reagiram com despeito à inevitável nomeação do novo líder dos conservadores como ocupante da porta nº 10 de Downing Street, ao ponto da revista alemã ‘Der Spiegel’ ter concebido uma capa em que Boris Jonhson é representado com o rosto do famoso boneco do satírico magazine americano ‘Mad’. Mas os jornais ingleses não foram meigos: o ‘Metro’ publicou a manchete "Não entre em pânico!"; o ‘The Times’ escreveu que ele é uma "criança" (isto é, um irresponsável); o ‘The Guardian’ previu um "caos inútil"; o escocês ‘The National’ titulou "Este país não precisa de você", agitando assim, novamente, a bandeira independentista; o ‘The Mirror’ ilustrou a primeira página, em que se lia "Boris Johnson, primeiro-ministro. Não é engraçado", com algumas das fotos mais insólitas.

Distraído e desmazelado, uma das suas imagens de marca é o cabelo louro despenteado, a fralda da camisa fora das calças, os atacadores desapertados – um excêntrico, com nada de gentleman. Apontam-lhe uma coleção de defeitos: megalómano e egoísta, fanfarrão e trapalhão, narcisista e idiota, traidor e preguiçoso, elitista e desonesto, sexista e racista. Mas, sobretudo, mentiroso: "As minhas probabilidades de ser primeiro-ministro", proclamou em 2004, "são as mesmas de encontrar Elvis [Presley] em Marte ou de reencarnar como uma azeitona".

No livro ‘Just Boris: Boris Johnson: The Irresistible Rise of a Political Celebrity’, Sonia Purnell descreveu-o como "um original – o oposto do estereótipo, a exceção à regra", mas sublinhou que, em Inglaterra, era "amado por milhões e reconheci-do por todos". Também Andrew Gimson, autor de ‘The Rise of Boris Johnson’, entende que "as pessoas adoram-no porque ele as faz rir". E ‘The New Yorker’ repetiu novamente que o seu "principal talento" é criar "mentiras divertidas".

Quatro ou cinco filhos
Um tom de cabelo parecido e o facto de serem ambos conhecidos por ‘gaffes’ graves, permite estabelecer afinidades entre BoJo (como também é tratado) e o presidente dos EUA – e o próprio inquilino da Casa Branca já manifestou orgulho por essa comparação. O ‘british Trump’ até nasceu, a 19 de junho de 1964, em Nova Iorque, quando os progenitores moravam em Manhattan, pois o pai, Stanley Johnson (de quem herdaria o humor), estava a estudar Economia na Universidade de Columbia, acompanhado pela mulher, Charlote Fawcett (filha de "socialistas ricos" e que apoiou, recentemente, o trabalhista Jeremy Corbyn). Nessa época, em que homenagearam um amigo russo ao escolherem Boris para segundo nome do filho – Alexander Boris de Pfeffel Johnson –, o casal vivia numa casa em frente do célebre Chelsea Hotel – residência de gerações de poetas e de artistas e que foi cantado, entre outros, por Leonard Cohen e John Bon Jovi, Nico e Lana Del Rey.

A família regressou a Inglaterra para Charlotte concluir a licenciatura em Inglês em Oxford (mas foi na pintura que desenvolveu a carreira); voltou aos EUA quando Stanley foi contratado pelo Banco Mundial; mais tarde, mudou-se para Bruxelas, onde o economista trabalhou para a então CEE (hoje, UE). E, apesar de Boris ter começado a estudar na capital belga, foi educado nos estabelecimentos de elite ingleses: o Eton College – frequentado pela Família Real e por futuros Nobel, dali saíram 19 primeiros-ministros (incluindo Churchill, sobre quem BoJo escreveu a biografia ‘O Factor Churchill’); e o Balliol College – o "colégio dos inteligentes" de Oxford, onde se formaram o economista Adam Smith, o ensaísta George Steiner ou o romancista Graham Greene. E o louro jogador de râguebi licenciou-se em Estudos Clássicos (Grego e Latim) – derivando daí o seu dom da oratória e as suas irónicas réplicas.

Uma atribulada vida privada atrai as revistas cor-de-rosa, mas não se sabe, por exemplo, se ele só tem os quatro filhos do segundo casamento ou terá mais dois das várias relações extraconjugais, algumas das quais lhe causaram revezes na política. A mais recente discussão com a atual companheira, Carrie Symonds, provocou tal berraria que foi gravada pelos vizinhos – e quem divulgou esse desacato doméstico não foi nenhum tabloide sensacionalista, mas o sóbrio ‘The Guardian’.

Falso 'Plano Dellors'
A estreia jornalística de Boris Jonhson aconteceu no ‘The Times’, em que rapidamente foi desmentido por um prestigiado historiador que citou – e, apesar de Collin Lucas ser o seu padrinho, tal era a incorreção que o visado não hesitou em reclamar ao diretor Charlie Wilson, que, como consequência, despediu o afilhado.

Contratado pelo ‘The Daily Telegraph’, foi destacado para ser o correspondente em Bruxelas, cidade que conhecia bem. Mas a burocracia comunitária não fornecia matéria para artigos que empolgassem os leitores. Apelando à sua veia de ficcionista – o seu romance policial ‘Seventy Two Virgins’ (‘Setenta e Duas Virgens’), publicado em 2004, não convenceu os críticos do ‘The Observer’ ou do ‘The Guardian’ – e ao talento para mentir, torneou o problema, inventando notícias, desde um fictício "Plano Delors para Governar a Europa" às inexistentes propostas para uniformizar o tamanho dos preservativos ou para proibir um tipo de batata frita com sabor a camarão. Textos que espalharam, entre os ingleses, um sentimento eurocético.

Mais tarde, foi convidado para diretor da revista conservadora ‘The Spectator’, com a condição de não se envolver na política. O seu "estilo" aumentou a tiragem, mas o seu compromisso foi rapidamente esquecido – em 2001, era eleito deputado pelo círculo de Henley. Percebendo o poder dos media, nunca abandonaria a Comunicação Social, chegando a participar em programas televisivos e mantendo uma coluna de opinião no ‘The Daily Telegraph’.

Uma ‘piada’ no poder
A sua ambição política é potenciada pelo seu carisma. Na capital inglesa, que vota tradicionalmente à esquerda, nas eleições para a câmara municipal, enfrentou o prestigiado trabalhista Ken Livingstone, que se recandidatava ao cargo de presidente, e venceu. Nesse período como autarca (de 2008 a 2016), além de beneficiar da projeção dos Jogos Olímpicos de Londres de 2012, ficou conhecido pela campanha para circular de bicicleta – sendo fotografado a pedalar ao lado do ex-ator e governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger –, mas, igualmente, pelos projetos extravagantes que não passaram do papel.

E é então que um dos artífices do Brexit, foi nomeado, por Theresa May, secretário de Estado para os Assuntos Externos e da Commonwealth (mas sem o dossiê sobre a saída da UE), cargo que ocupou entre 2016 e 2018. Mas, de acordo com um artigo de Rachel Sylvester, publicado no ‘The Times’, em agosto de 2017, os líderes europeus e os políticos americanos consideravam-no "uma piada". Resta ver se, na liderança nacional, se confirma a justificação com que a revista ‘The Economist’ o elegeu, em dezembro, como "o político mais irresponsável que o país conheceu em muitos anos".

Neste momento, muitos vaticinam que provavelmente irá ultrapassar, na realidade, o que foi sendo dito pelos atores Will Barton e Richard Goulding, que representaram a sua personagem nos filmes televisivos ‘Theresa vs. Boris: How May Became PM’ (produzido pela BBC, em 2017) e ‘Brexit: The Uncivil War’ (difundido, em janeiro, pelo Channel 4, no Reino Unido, e pela HBO, nos EUA). Tal como escreveu o crítico de televisão do ‘The Guardian’, Sam Wollaston, o programa ‘Theresa vs. Boris’ era "muito divertido – até você se lembrar que estas são as pessoas que dirigem o país".
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