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Correio da Manhã

Domingo
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Cães como nós

Tal como os donos, os animais de companhia vivem cada vez mais tempo. Tal como os donos têm doenças associadas à velhice e ao sedentarismo. Uns e outros são diferentes, mas iguais.
5 de Março de 2006 às 00:00
Cães como nós
Cães como nós FOTO: Ilustração: Ricardo Cabral
O Putchy tem 16 anos, idade avançada para um gato, mas, na sala de espera do Hospital Veterinário de São Bento, disfarça bem. Tem o pêlo lustroso e o apetite tão voraz como antes, mesmo se na boca não lhe sobra qualquer dente.
Foram apodrecendo e o veterinário resolveu extrair-lhos. Pela medida humana, o Putchy é octogenário. Esticado sobre o peito da dona, com o focinho escondido na cova do braço dela, é o exemplo de que também os animais de companhia, mercê da melhoria da alimentação e da generalização dos cuidados de saúde, vivem cada vez mais. Em consequência, sofrem também cada vez mais de doenças associadas ao envelhecimento (problemas oncológicos e neurológicos), ao sedentarismo (obesidade) e à anomia da vida moderna (depressão). Exactamente como os donos.
O veterinário Luís Montenegro observa, acerca dos seus principais clientes, os cães e os gatos: “Era normal viverem seis ou sete anos; agora duram o dobro do tempo e, como os seres humanos, na velhice são vulneráveis a doenças neurológicas e oncológicas.”
À Nina, uma gata europeia comum de 14 anos, residente em Lisboa, foi recentemente diagnosticado um tumor mamário. “Nunca tinha tido problemas de saúde. De repente sujeitou-se a duas operações, para ablação das linhas mamárias”, conta Maria do Carmo, de 28 anos, os últimos 14 passados na companhia da gata, que, em breve, será de novo operada.
Há 15 dias apareceu-lhe um nódulo um pouco abaixo da pata dianteira direita. “Nas radiografias não se vêem metáteses”, desabafa.
O Abril deixou de comer e salta das pernas do dono para as da dona e a seguir para as dele outra vez. É um daqueles cães pequeninos, cor de mel. Tem as orelhas grandes e espetadas. Os dentes do maxilar inferior são visíveis, sobrepondo-se aos do superior e isso dá-lhe um ar patusco.
O casal esclarece que o Abril veio para a sessão de quimioterapia. O cãozito é idoso e sofre de cancro. Mas não pára. Salta outra vez para as pernas da dona.
O JACOB NÃO ESTÁ para conversas. É um papagaio. O único na sala de espera da Faculdade de Medicina Veterinária, no Alto da Ajuda, onde, como a Nina e o Abril, espera vez. “O Jacob é do meu sogro, que tem oitenta anos”, conta a acompanhante. O papagaio parece assustado e em sofrimento. Tem uma asa enfaixada. “Deve ser qualquer coisa maligna. Ele arranca todas as penas e deixa a asa em carne viva. Não é a primeira vez.”
Um papagaio grande tem uma esperança média de vida entre 35 e 60 anos. O Jacob já terá passado dos 60, mas não há maneira de convencer o dono a deixá-lo fazer o voo definitivo. “O meu sogro nem quer falar disso.”
Luís Montenegro sublinha que “algumas patologias oncológicas têm tratamento médico-cirúrgico e noutros casos é possível manter o animal em boas condições.” O que em caso algum recomenda é o prolongamento da vida de um animal em sofrimento. Neste ponto separam-se definitivamente os caminhos dos bichos – aos quais é administrado o golpe de misericórdia – e dos donos deles. Não se pense, contudo, que a decisão de abater um animal é fácil para quem cresceu ou viveu na companhia dele. “Primeiro adormeceram-no e depois deram--lhe a injecção. Demorou meia hora. Eu chorei o tempo todo e nos dias seguintes também”, conta Arminda, 64 anos, que deixou partir o gato Pantufa quando este, devido à leucemia, apresentava feridas de tal gravidade na boca que era incapaz de alimentar-se.
DEIXOU DE COMER e arrancou o seu próprio pêlo. “Depressão”, diagnosticou a veterinária. “E como se trata a depressão no gato Arlequim?” perguntou o dono. “Tal e qual como num ser humano: com antidepressivos e atenção.” O Arlequim tem sempre alimento à disposição, mas, por causa da vida agitada dos donos – ambos trabalhadores-estudantes – passa tempo demais sozinho. “Falem e brinquem com ele; tragam-no para o colo”, recomendou a veterinária. Sempre “a correr de um lado para o outro”, João pondera “arranjar uma companheira ao Arlequim.”
O Óscar também é solteiro, mas o problema dele é outro e afecta 40 por cento da população portuguesa. O Óscar é um gato de sete anos que pesa 15 quilos. Já fez dieta, perdeu um quilo e... recuperou--o. Tal como as pessoas obesas, cansa-se muito facilmente, conta Vítor, o dono, adiantando que o bicho também sofre de insuficiência cardíaca e dificuldades articulares. Ele bem come ração ‘light’, mas sem resultado.
Um estudo realizado na Grã-Bretanha sugere que um em três gatos tem peso a mais. Luís Montenegro acredita que em Portugal a proporção não deve ser muito diferente. Tal como os donos, os animais de companhia comem demais, mal, e fazem pouco exercício. Passam muito tempo em casa, porventura também a olhar para a televisão. O laço entre os animais, principalmente o cão, e o Homem estreitou-se tanto, que há quem fale do aparecimento de uma nova espécie: ‘o cão humanizado’, criado como um bebé e com pouco contacto com os da sua própria espécie. “Isso faz com que o animal se torne um ser dependente, inseguro e infeliz”, nota a médica veterinária brasileira Sílvia Parisi, Recomendando: “Cuidar sim, mas sem exageros.”
DIZ-ME QUANTO LADRA O TEU CÃO...
Há cães que ladram constantemente, outros só de vez em quando e outros ainda quase nunca. O biólogo, naturalista e professor da Sorbonne, Rémy Chauvin, escreve, no livro ‘Dos Animais e dos Homens’, que “a frequência e intensidade das vocalizações e latidos dependem do comportamento do dono.”
Assim, se o dono falar pouco com o cão, este emitirá apenas duas ou três vocalizações diferentes. Se falar muito com ele, o bicho poderá emitir entre oito e doze.
Mais: o cão que pertença a alguém falador “facilmente será capaz de emitir vocalizações e latidos se for deixado sozinho.”
Um cão nem excessivamente ‘falador’ nem reservado em demasia emite, em regra, seis ou sete vocalizações diferentes. Dito fica a pergunta: Já ouviu o seu? Se não, então não perca mais tempo. E fale mais com o seu cão.
DICAS AOS DONOS
Como é sempre muito melhor prevenir do que remediar, aqui ficam alguns conselhos práticos para evitar certas doenças e lidar com animais idosos.
OBESIDADE
Há rações adequadas a quase todas as patologias caninas e felinas. O melhor mesmo é evitar que o cão ou o gato engordem. Não lhes dê comida no intervalo das refeições e sirva-lhes, pelo menos, duas refeições, às mesmas horas. Brinque com eles. Faça também com que se mexam.
VELHICE
Quando cuida ou brinca com eles, examine-lhes o pêlo e apalpe-lhe o corpo, em busca de altos, inchaços ou zonas dolorosas. Tire tempo para verificar o estado dos dentes. Quando são mais velhos, os animais ficam mais tempo no seu canto – assegure-se de que não têm frio e estão bem.
TUMORES
Esterilize o seu cão ou gato. Evitará ninhadas indesejadas e contribuirá para a diminuição do número de animais. Para mais, as fêmeas esterilizadas antes do primeiro cio têm risco reduzido de desenvolver tumores mamários. A esterilização elimina ainda a possibilidade de cancro do ovário e do útero.
DEPRESSÃO
A ideia de um gato ou de um cão deprimido pode inspirar sorrisos. Mas ver um animal arrancar todo o pêlo do corpo e recusar comida até ficar pele e osso não tem piada nenhuma. Este comportamento reflecte, em regra, falta de atenção. O seu bicho não é um objecto. Fale e brinque com ele.
OPINIÃO DA JORNALISTA DULCE GARCIA
O CÃO DE BUSH
AS PESSOAS TÊM TENDÊNCIA a escolher um cão parecido consigo. A frase encabeça um estudo da Universidade da Califórnia, e dá cabo da teoria de que é a convivência demorada entre animais e donos que os faz adquirir traços comuns. Sabe-se também que esta regra só se aplica a indivíduos que escolhem animais de raça pura, deixando de fora os que elegem rafeiros sem eira nem beira.
Nos dias que antecederam a entrada das tropas americanas em Bagdad, a imprensa mostrou George W. Bush a brincar despreocupadamente com a sua cadela, uma springer spaniel inglesa. Spot Fetcher Bush, assim se chama a criatura, tem uma história muito semelhante à do dono. É filha de Millie, a cadela que acompanhou Bush pai na governação dos Estados Unidos, entre 1989 e 1992.
Entre mãe e filha, está para se apurar qual delas deixará maior contributo na história da América. Talvez a primeira, que se tornou famosa quando Barbara Bush escreveu ‘Livro de Millie’, obra que relata o quotidiano da residência oficial aos olhos da sua cadela.Tal como o dono partilha poucas características com o seu antecessor, também Spot é diferente de Budy, o labrador que se manteve ao lado de Bill Clinton quando a mulher, a filha e a nação lhe viraram as costas por causa de uma estagiária. O springer spaniel inglês é o mais antigo exemplar da raça Spaniel, cuja origem é disputada por Inglaterra e Espanha. Dono de um faro apuradíssimo, terá sido criado para acompanhar os nobres da Idade Média na caça, servindo para localizar a presa e recolhê-la.
Apesar de ser reconhecido pelo olhar melancólico, é um cão muito ágil e activo, além de meigo. A sua lealdade sem mácula tem um lado menos bom: possui forte dependência do dono e não aceita ficar só por muito tempo. Por falar em coisas más, os problemas mais comuns à raça são as infecções crónicas dos ouvidos, os problemas oculares, a obesidade e um distúrbio comportamental apelidado de ‘Síndrome do Ódio’ – quando se manifesta, o animal deixa de reconhecer o dono e ataca indiscriminadamente. Pergunto-me se Bush saberá da teoria da Universidade da Califórnia…
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