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Correio da Manhã

Domingo
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Chá mortal

Quatro jovens pobres do Funchal procuravam uma noite de sensações fortes. E experimentaram a droga dos pobres. Mas a dose de chá-do-diabo foi fatal para um deles. Uma história com final triste e a miséria como pano de fundo.
27 de Agosto de 2006 às 00:00
Chá mortal
Chá mortal FOTO: Fotomontagem CM
Excitação cerebral, visões coloridas, sonhos agradáveis. Êxtase. Filipe, Paulo, Cristiano e Sérgio procuravam novas sensações. Outros prazeres depois de mais uma noite de divertimento no Funchal, cidade verde e iluminada, contornada por luzes que brilham como lantejoulas reflectidas no mar, contrastando com a penumbra das quatro paredes de cimento que acolhem a família na Levada dos Piornais.
Um projecto de casa que serve de tecto a mais de uma dezena de pessoas. Uma ponte improvisada de pedaços de madeira, que ameaça desabar, conduz ao terraço onde a avó Rosário estende a roupa. A casa está longe da via rápida. O sítio não tem lugar nos roteiros turísticos, apesar de se localizar na maior freguesia do Funchal, a de S. Martinho, vizinha de St.º António, que viu nascer a estrela Cristiano Ronaldo.
Mas não é fácil lá chegar. A casa da família Castro encontra-se após a descida de duas íngremes ladeiras, curva-contracurva, inclinação limite onde uma escorregadela pode ser fatal. Mais 300 metros a pé na vereda, sobre a levada que dá o nome ao sítio e que já passou por melhores lugares ao longo da ilha. Lá em cima, a vista é deslumbrante.
O sol rompe as nuvens e espelha-se no mar recortado pela escarpa. No cimo do telhado das pequenas habitações, modestas mas dignas, sobressaem invariavelmente duas bandeiras: a nacional e a da região. Mas à medida que se desce, a paisagem é mais sombria. As quatro paredes cinzentas confundem-se na vegetação alta e seca, salpicada por sacos de lixo. Nos intervalos das bananeiras descobre-se, lá em baixo, os hotéis de luxo, luzes, piscinas. Ao lado, a Praia Formosa, o local onde os dois primos e os dois irmãos colheram oito flores e iniciaram a aventura, em busca de novas sensações: abrir as portas da percepção, procurar a felicidade a prazo e esquecer a realidade por momentos.
"UM CHÁ FIXE"
Os amigos diziam que era "um chá fixe": adrenalina e alegria esfuziante garantidas. A ideia entusiasmou-os e o momento foi preparado com pinças para a madrugada de quarta-feira. Sérgio Paulo, de 15 anos, de regresso a casa há quatro dias já acompanhava os primos. A 31 de Agosto voltaria ao lar do Centro de Reabilitação Psicopedagógica da Sagrada Família, para uma viagem a Porto Santo antes do início das aulas. Apesar da idade, não passara ainda do primeiro ciclo. Era uma criança "especial", um "bom menino". Acolhido durante o ano pelas Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, as férias na casa da Levada dos Piornais eram sempre vividas com intensidade.
"Ele andava tão contente", recorda de cabeça baixa a avó Rosário. As partidas da vida eram compensadas pelo carinho dos vizinhos. "Pedi ao senhor padre de St.ª Rita para baptizá-lo", recorda D. Alcinda. Eram também os vizinhos que encorajavam a mãe nos momentos em que ameaçava sucumbir à dor de ter dois dos três filhos à distância. "É melhor assim. Lá eles estão bem e não lhes falta nada", diziam. Maria José acata. Não tem outro remédio senão sofrer de saudades a pensar no melhor para as suas crias. Sozinha, com apenas três décadas de vida e três filhos às costas, vive apoiada na mãe, nos sobrinhos e no irmão mais velho que assume o papel de chefe de família. Do pai das crianças, nem sinal. Na Levada dos Piornais fazem-se apostas sobre o seu paradeiro. Enquanto uns garantem que está já ali em Câmara de Lobos, outros acreditam que "fugiu para o continente".
PROMESSAS FALSAS
Sem pai, a figura masculina de referência, Sérgio Paulo, um dos mais novos dos 21 primos, era 'adoptado' pelos mais velhos. Já não tinha idade para brincar com carrinhos e iniciava-se, como todos os adolescentes, nas saídas nocturnas. Mas a noite de terça-feira,15, havia de ser a última. Às cinco da manhã cumpriu-se o ritual no sítio do Papagaio Verde, perto de casa, mas suficientemente longe para não acordar a família.
Embalados por promessas de felicidade fácil, Sérgio, Filipe, Cristiano e Bruno ferveram as oito trombeteiras apanhadas nas imediações da Praia Formosa. A flor bonita, em forma de sino e de cores fortes, não denuncia o perigo das substâncias que contém, ocultadas por nomes delicados como trombeta de anjo, copo de leite ou sete saias. Foram servidas quatro chávenas. Filipe bebeu outra meia, mas Sérgio dobrou a dose. Meia chávena que fez a diferença entre a vida e a morte. Acabavam de engolir um vulcão que demoraria pouco tempo a entrar em erupção.
Os primeiros minutos de sossego ainda alimentaram a esperança de atingir os tão falados efeitos alucinogénicos. Um dos primos cansou-se da experiência e sentindo-se bem regressou a casa, mas por pouco tempo. Ao amargo de boca seguiram-se as dores abdominais. O alarme soou logo de manhã. Os quatro rapazes deram entrada no Hospital da Cruz de Carvalho. Três tiveram alta após uma lavagem ao estômago, mas Sérgio Paulo não resistiu ao chá-do-diabo. Não regressou à Levada dos Piornais nem voltará à Sagrada Família.
O DIA A SEGUIR
A notícia caíu que nem uma bomba na quinta-feira de manhã. Correu ao sabor do vento pela ilha. A Polícia Judiciária esclareceu de imediato que não havia indícios de crime, mas sim de uma experiência de quatro jovens que não pode ser repetida. Os alertas multiplicaram-se. Nomes de flores venenosas foram revelados em catadupa. Os sobreviventes começaram por aceder a contar as sensações, que afinal não passaram de tonturas, falta de ar e indisposição, mas depressa se recolheram no interior da casa da Levada dos Piornais. As pessoas não demoraram a cobrar-lhes a responsabilidade da morte de Sérgio. "Com 17 anos já deviam ter juízo", sentenciavam nos cafés e caminhos da ilha. Na Sagrada Família, a notícia foi recebida com muita tristeza. "Para nós foi uma situação chocante. Oxalá sirva pelo menos de exemplo para os outros jovens", desabafou à Domingo a superiora do centro, a irmã Lúcia Reduto. A estupefacção tomou conta da população quando a tão falada ‘erva-do-diabo’ apareceu na televisão. Afinal, trata-se de uma planta que habita na maioria das casas.
UM PESADELO REAL
O sítio do Papagaio Verde deu-se a conhecer, malogradamente. Enquanto os olhos dos três rapazes pareciam querer saltar das órbitas, devido a uma substância contida na flor, no número 263 da Levada dos Piornais o olhar de Maria José perdia-se no horizonte, assistindo estagnada ao corropio. Na casa da família Castro não se percebe muito bem o que esteve na origem da morte de Sérgio. Nunca ouviram falar em erva-do-diabo e nem sabem bem o que são os tais efeitos alucinogéneos. Não há lágrimas. Ainda esperam que tudo não passe de um pesadelo. Afinal, o que é isso de beber um chá de flor e morrer?
De olhos rasgados e cabelo escuro, a mãe de Sérgio permanece no terraço, observando de longe. Às perguntas responde somente com um vago encolher de ombros. Calças e blusa negras coçadas pelo sol, obedece quando o filho mais velho lhe ordena que não fale. Resignada, anda para trás, desliza sobre a ponte de madeira prestes a desabar, de mãos entrelaçadas junto ao ventre, e recolhe às quatro paredes de cimento, não sem antes esboçar um sorriso desdentado, mas sincero.
"CUIDADO COM A VIDA"
Sérgio Paulo foi sepultado no sábado, 19 de Agosto, dia em completava um ano de internamento no Centro da Sagrada Família. A urna branca foi sepultada ao lado da capela de Nossa Senhora das Angústias, no cemitério de S. Martinho.
Entre sussurros, vários curiosos manifestavam indignação perante as circunstâncias da morte do jovem. Mas o padre acabou por verbalizar o que todos pensavam e não conseguiam dizer: "Jovens, cuidado com a vida. Olhem o exemplo do Sérgio. Não se metam em experiências que ponham em perigo a vida." Quinta-feira, 31 de Agosto, o barco Lobo Marinho vai ter menos um passageiro.
CRENÇAS E CURAS
CHÁS, MEZINHAS E CURANDEIROS
O 'mau olhado' é uma das crenças que vai sobrevivendo no século XXI. Na Madeira, tal como em muitos locais da província, é por muitos avançado como a razão de muitos males. Estas crenças deram origem, há poucos anos, ao chamado ‘fenómeno Romilda’. Romilda Costa, curandeira brasileira, arrastava verdadeiras multidões em busca de curas milagrosas. Além da medicação natural, as massagens e aplicações com argila eram alguns dos métodos utilizados.
O fenómeno esbateu-se, mas ainda hoje os madeirenses são adeptos dos remédios naturais e chás de plantas para curar os seus males, como admitia um ervanário após a morte de Sérgio Paulo. O chá do diabo veio acordar a realidade para o facto de os jovens procurarem sensações agradáveis através de novas substâncias, mas também alertar as pessoas para o facto de os produtos naturais, tal como os remédios, não poderem ser tomados indiscriminadamente e sem aconselhamento.
"Felizmente é muito raro acontecer casos destes", disse à Domingo António Caldeira, director do Hospital Cruz de Carvalho, no Funchal, a propósito da morte do jovem de 15 anos, admitindo, porém, que "há uns anos houve umas situações sem consequências graves". O médico recorda que até 2002 não havia registo de situações semelhantes.
ERVA-DO-DIABO E TROMBETEIRA
A RAÍZ DO NOME
Erva-do-diabo, erva-dos-bruxos ou erva-dos-mágicos. As designações são atribuídas à atropa belladona, da família das Datura, a mesma espécie a que pertence a trombeteira que causou a morte a Sérgio Paulo. "As pessoas têm por hábito dar um nome comum a várias espécies de plantas da mesma família, por isso é muito importante a utilização de um nome científico para as distinguir", esclareceu à Domingo Roberto Jardim, director do Jardim Botânico do Funchal, sublinhando que a planta colhida pelos jovens não é a belladona, que não existe na Madeira, mas sim uma brugmansia suaveolens.
A trombeteira, porém, também já não se livra do baptismo erva-do-diabo. Utilizada para fins medicinais, designadamente pelas propriedades antiasmáticas e dilatadoras, entre outras, a trombeteira contém substâncias que servem de base a diversos fármacos e que ingeridas em excesso são fatais. "Há muitas plantas tóxicas. As pessoas não devem ingerir plantas nem chás de plantas que não conhecem", alerta o responsável do Jardim Botânico.
No caso da trombeteira, cuja ingestão tem grande acção no sistema nervoso central provocando as supostas alucinações, os efeitos colaterais são náuseas, vómitos, pele quente e avermelhada. Com a divulgação do ritual do 'chá-do-diabo', Roberto Jardim teme que, apesar da morte do jovem de 15 anos, a situação não tenha servido de lição. Por isso mesmo deixa o seguinte aviso à navegação: "Cuidado com os adolescentes na internet. Numa pesquisa conseguem saber quais as plantas que provocam efeitos alucinogéneos e querem experimentar os efeitos das mesmas."
BIBLIOGRAFIA
PODER ATRAVÉS DAS PLANTAS
Carlos Castañeda acreditava alcançar a sabedoria e prever o futuro após a comunhão com as plantas. Para o antropólogo brasileiro as plantas eram "divinatórias". Nos anos 60, refugiou-se durante cinco anos na fronteira entre os Estados Unidos e o México onde assimilou os ensinamentos de Dom Juan, um índio da tribo Yaqui. O resultado das experiências extra-sensoriais foi relatado em livro.
‘A Erva-do-Diabo’, lançado em 1968, conta o tempo que os dois homens passaram juntos como mestre e aluno. Em 264 páginas, Castañeda descreve as sensações do uso de plantas alucinogéneas, de uso medicinal pelos índios locais. Acreditava que daí surgia poder e sabedoria, uma visão de domínio do mundo. O antropólogo experimentou a erva-do-diabo e, segundo a sua descrição, sentiu muito calor, viu um ponto vermelho, cor associada ao efeito de prazer, e de seguida uma grande vontade de dormir.
PLANTAS
CURAR E MATAR
Belladona - Conhecida como erva-do-diabo, a Atropa Belladona L. é originária da zona da Cordilheira do Himalaia, e existe em vários jardins portugueses. É utilizada com fins ornamentais e cultivada em larga escala para fins medicinais, apesar de a ingestão de algumas bagas poder ser fatal.
Trombeteira -Também conhecida por erva-do-diabo. De alguns compostos da flor fabrica-se remédios para a doença de Parkinson, problemas cardíacos e asmáticos. Porém, a sua ingestão pode causar aumento do ritmo cardíaco, vómitos, náuseas e até a morte.
Dedaleira - Flor arroxeada em forma de dedal, em cachos. Cresce de Norte a Sul do País na Primavera e permanece durante o Verão. Muito venenosa, contém numerosos cardiotónicos como a digitalina, digoxina e digitoxina. O seu chá é tão calmante que pode parar o coração.
Acónito - É uma das espécies mais tóxicas. De cor azul-violeta, é relativamente frequente em Portugal, a partir de Julho, sobretudo em zonas com uma altitude superior a 500 metros. Numa dose superior à recomendada, o veneno mata por paralisia respiratória.
Glicínia - Originária da Ásia e da América, o nome científico é wisteria. Trata-se de uma planta trepadeira habitualmente cultivada nos jardins e parques. Os cachos de flores azuis, lilazes ou brancas transformam-se em vagens semelhantes às do feijão que ingeridas dão origem a perturbações digestivas.
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