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Como se chega a manequim

Há mais jovens a tentar a moda para ganhar dinheiro extra. Festivais e redes sociais são os novos passaportes
30 de Setembro de 2012 às 15:01
Na ‘incubadora’ da Central Models há rostos para todos os gostos
Na ‘incubadora’ da Central Models há rostos para todos os gostos FOTO: Sérgio Lemos

Diogo, futuro médico, curtia a música no festival Rock in Rio quando foi abordado por um scouter – os olheiros do mundo da moda. Francisca, aluna de Turismo, usou o Facebook para se fazer notar à agência. Jack, estudante de Performing Arts em Londres, passeava-se pelo Chiado no dia em que foi convidado para uma entrevista. Laura faz o secundário na área de economia e segue os conselhos de um amigo do pai, que desde cedo insiste para que entre no meio. Ricardo, nadador federado e estudante de Nutrição e Dietética, foi descoberto no Sudoeste. Vanessa, ainda no 9º ano, é o ‘achado’ de um fotógrafo amigo da família. Por ter pais na moda, Gustavo, estudante de Multimédia na Faculdade de Belas Artes, sabe que a fama é efémera e vê nessa actividade uma forma de fazer crescer a mesada e pagar os concertos de Verão. E Bárbara, 20 anos, aluna de Medicina Dentária, foi tentada pela própria organização do evento Miss Madeira, que venceu entre várias candidatas.

São portugueses, têm entre 15 e 20 anos e por serem giros e saudáveis integram a lista de vários rostos da ‘incubadora’ da Central Models, agência que todos os anos lança caras novas. Alguns, bafejados pela beleza e talento, conseguem a internacionalização. Aconteceu aos gémeos Kevin e Jonathan, Luís Borges e Sara Sampaio, para falar nos mais mediáticos, e a Mi e Tó Romano nos anos 1980. Hoje o mercado é mais concorrido, a crise fez baixar os cachets e a vida de modelo pode durar apenas seis meses. Ainda assim, são cada vez mais os candidatos e entre centenas há sempre uma pérola a descobrir.

Na empresa fundada por estes dois antigos manequins, a tarefa de ‘caça-talentos’ é exercida de diversas maneiras. A experiência de 23 anos leva-os a privilegiar a iniciativa de quem se apresenta à agência, pois "muitos dos que são contactadas na rua nem sempre são pro-activos. Por vezes ficam eternamente à espera que tudo aconteça sem que façam esforço".

BELEZA É FUNDAMENTAL

O ‘olho’ para descobrir modelos exige treino, perspicácia, intuição e obediência a regras próprias. Cantava Vinicius de Moraes que ‘beleza é fundamental’ e no meio da moda "são mesmo necessários atributos físicos. Ou se tem ou não", diz Mi.

Tó Romano privilegia uma cara bonita, estruturada, bons dentes, bons cabelos, boa pele, "inteligência emocional e atitude". Actualmente, vende bem "o bom ar, a felicidade" e num mundo que vive a correr, onde a carreira foi substituída pelo trabalho ocasional, ser modelo exige também captar a atenção do cliente em apenas 17 segundos. "Quem quer ter sucesso precisa de destacar-se no grupo, convencer, ter segurança e é isso que trabalhamos muito com estes jovens", explica Mi.

A Central Models organiza os books – álbum fotográfico – dos modelos, sem custos para estes, ensina a cuidar da imagem e "também a suportar a rejeição, a ser resiliente e a gerir o tempo". Nesse aspecto, destaca a perseverança dos estudantes universitários e desportistas, pois, "muitas vezes, os que aparentam ter maior disponibilidade podem não ser os mais empenhados. Os mais ocupados sabem gerir muito bem o tempo, têm noção da responsabilidade e isso é fundamental para este tipo de trabalho". Conta a sua experiência de quando, ainda estudante de Psicologia, começou a desfilar por influência de uma amiga que já estava no meio.


Tó Romano tinha 20 anos, estudava Arquitectura, e ao receber a proposta das empregadas de uma loja de roupa da avenida de Roma, em Lisboa, encontrou ali uma boa oportunidade "para ganhar dinheiro e comprar o que queria, uma Vespa". O casal singrou na moda, "quando os modelos nacionais não eram mais de 60 e todos faziam o curso do Brian", lembra Mi. Ao sucesso em Portugal seguiu-se a internacionalização, o glamour dos grandes contratos e uma temporada no Japão, finda a qual decidiram voltar e criar a Central Models.

Desde então, vêem a moda evoluir a um ritmo acelerado. "Hoje exige-se naturalidade, a personalidade é um contributo poderoso", mas, alertam, "para os portugueses é muito difícil a internacionalização". Mesmo que tenha a altura exigida para passerelle, 1,77 metros, a mulher portuguesa tem anca larga, corpo de violino, quando o pedido é ‘corpo de ‘cabide’. Nos homens, o maior defeito é a perna curta.

GENE DA MAGREZA

Foi precisamente a estrutura óssea de Belisa, esguia e magríssima, que captou a atenção de Paulo Barata, scouter da Elite Models. A menina que "durante anos sentia ser demasiado alta e nunca encontrava calças que ficassem justas na cintura e tapassem o calcanhar" chegou à agência através das fotos enviadas por um dos muitos amigos que lhe elogiava o "jeito de modelo". Fez comerciais e saltou à vista do olheiro, que a incentivou a inscrever-se no concurso de Lisboa. O resultado foi o primeiro lugar no desfile e um passaporte para a próxima edição do concurso internacional Elite Model Look.

Aos 18 anos, a estudante de Leiria equilibra-se nos estudos como nos saltos altos. "Quero acabar o 12º ano, mas se começar a ter muito trabalho terei de me mudar para Lisboa. Estou disposta a isso, pois ser modelo é o meu sonho. Sempre me disseram que tinha jeito e, apesar do treino que recebi, tenho boa postura e sou naturalmente magra", diz Belisa, que tem por inspiração Freja Beha – a dinamarquesa descoberta por um scouter que, ao passar de táxi, a viu numa rua de Copenhaga.

É também a olhar para quem passa que Paulo Barata vai descobrindo talentos. No festival de música Optimus Alive encontrou o vencedor de uma outra edição do Elite Model Look. Nas ruas de Lisboa vê caras novas, "nórdicos que agora enchem a cidade e são bastante requisitados. Temos muitos belgas, holandeses, alemães e ingleses a viver em Lisboa, muitos vêm para fazer Erasmus e acham graça a este trabalho". A abordagem é quase sempre bem recebida. "Por vezes estranham, mas depois os amigos dão sempre um empurrão."

Hélio Bernardino, director da Elite Lisboa, não tem ‘lata’ para abordar talentos na rua e admite já ter perdido duas ou três oportunidades. Portugal tem caras muito bonitas, com garra, e já lhe aconteceu estar num evento e, de repente, "ter uma mancha de pessoas à frente só para serem vistas". Outras há que "nem sabem ter esse alento, como a Jani Gabriel, que estava no Algarve, venceu o Elite em 2005 e hoje é internacional".


PESSOAS REAIS

Diz Tó Romano que "a política e o contexto social" influenciam o mundo da moda. E com o 11 de Setembro tudo mudou. Depois da era das ‘top Models’, em que Elle MacPherson, Naomi Campbell, Claudia Schiffer, Gisele Bündchen, Linda Evangelista e outras eleitas pela natureza vendiam o sonho de uma beleza inatingível, o mundo virou--se para "as pessoas reais".

"As marcas e as agências de publicidade perceberam que era importantíssimo colocar pessoas normais com as quais o consumidor se pode e quer identificar", nota Valter Carvalho, scouter da Glam. E o profissional, que representa em Lisboa a agência sediada em Vila Nova de Gaia, garante que a moda já não é a área onde se investe. "Os cachets baixaram e devido à crise as marcas não fazem desfiles, nem catálogos. O que dá é a publicidade."

Também nessa área, a tendência leva a que o consumidor queira identificar-se com o protagonista dos anúncios e, a verdade, "é que não somos todos altos e de olhos azuis. Por isso, actualmente mais de metade dos castings são para pessoas dos 30 a 40 anos".

Essa aproximação ao real banalizou a oferta e, consequentemente, os preços. "Para fazer de figurante na plateia de um programa de TV, pessoas de mais idade recebiam 60 a 70 euros por programa, actualmente são 25 euros."

Contudo, mesmo nesse mercado há que "ter olho". Como scouter, Valter Carvalho vai a "escolas, associações de estudantes, eventos e discotecas". No Verão privilegia as praias, não locais turísticos mas aquelas onde as pessoas normais passam férias. "E a procura para encontrar um novo modelo depende das épocas. Temos alguns scouters que são nossos modelos, procuram perfis nas faculdades que frequentam e recebem comissão sobre quem ‘descobrem’ e sobre o trabalho que esse novo perfil fizer."

Essas pessoas reais, diz Valter Carvalho, uma vez encontradas, também têm de ser "trabalhadas e tratadas como os outros modelos. Cuidamos da imagem, porque pode acontecer um desgaste se trabalha para determinada marca ou produtos e ser, por isso, rejeitada para outros trabalhos. Se essa pessoa ganha dinheiro, eu também ganho. As duas partes têm a ganhar com um trabalho sério, cuidado e empenhado", diz.


CAÇA-TALENTOS

Na L’Agence, agência gerida por Elsa Gervásio, pele, dentes, personalidade e "sobretudo uma boa atitude" são atributos incutidos nos scouters, que fazem castings pontuais "em vários pontos do País e com diversas parcerias, como os ginásios Holmes Place, entre outros", onde tentam encontrar gente nova e saudável.

É essa a missão de Nathalie Azevedo, que, aos 27 anos, passa os dias em "zonas de grande fluxo, centros comerciais, escolas e pastelarias", à procura de gente gira. O mestrado em Comunicação Social e a personalidade "comunicativa" valeram-lhe uma proposta da Act In. "Sou scouter há seis meses e recebo consoante o trabalho das pessoas que angario. Neste momento não nos pedem pré-requisitos. Há mercado para todos, temos meninas desde 1,60 metros a outras com 1,80 que desfilam em passerelle. Mais do que ‘uma cara laroca’, os clientes querem pessoas com boa atitude, que vendam um estilo próprio". Nathalie garante que nunca foi mal-sucedida na abordagem inicial, "a situação torna-se mais difícil quando percebem que é mesmo a sério".

Cláudia Monteiro, relações-públicas da GO MODELS , explica que na agência todos fazem trabalho de scouter, todos "sabem olhar e isso acontece casualmente, durante o nosso dia-a-dia, quando estamos a beber café ou nas compras". No portefólio da agência há modelos XL, para passerelle e produção fotográfica, manequins só para passerelle e as tais ‘pessoas normais’ para publicidade.

Sendo que o maior número de candidatos inscreve-se no site da empresa, "tudo depende do que está a passar na televisão. Normalmente são mais raparigas, mas ultimamente têm aparecido mais rapazes. Estes estão mais vaidosos, cuidam-se mais e interessam-se mais por moda", explica Cláudia Monteiro. "O que nos é pedido é cada vez mais o ‘real people’. Só às vezes é que pedem actores."

A tendência é confirmada por Rui Colaço, um dos responsáveis pela Blu Model. "O consumidor tende, cada vez mais, a querer identificar-se nos anúncios. Quer rever-se nos protagonistas. Por isso há uma grande procura de ‘real people’ e, assim, há trabalho para todos, desde os mais novos aos mais velhos", ainda que sejam trabalhos pontuais pagos a recibo verde. A Blu Model só aceita inscrições feitas no seu site na net, uma ferramenta poderosa para recrutar caras novas.

O PODER DAS REDES

A par dos sites, as redes sociais como Twitter e Facebook tornaram-se os melhores caça-talentos da actualidade. As agências valorizam a sua imagem na rede e os candidatos, por seu lado, também investem no seu perfil pessoal. O acesso fácil a roupa de bom corte, a maquilhagem e a maior estatura dos jovens deste século faz com que muitos se produzam para entrar num mundo que pensam ser cor-de-rosa. Quem ‘espia’ o Facebook facilmente encontra meninas deslumbrantes, jovens atléticos, à distância de um clique. Só a página Jovens Modelos, onde os interessados se podem inscrever e são anunciados vários castings, tem 3409 seguidores.

Tó e Mi Romano alertam para a necessidade de estar atento a angariador e angariado. "Devem desconfiar de quem pede dinheiro à cabeça para fazer um book." E, nesta nova era do digital, é preciso ter noção de que a exposição da imagem é imediata e efémera. "São poucos os minutos de fama e já ninguém fala em carreira."

 


DE PESSOAS NORMAIS A MODELOS INTERNACIONAIS

PEDRO E RICARDO GUEDES ESPERAVAM O AUTOCARRO

Tinham 16 anos e estavam na paragem do autocarro quando foram descobertos por uma produtora de moda. Da Central à internacionalização foi um passo. Os gémeos representaram marcas como a Armani, Versace ou Tommy Hilfiger.

CLAUDIA SCHIFFER FOI DESCOBERTA A DANÇAR NA DISCOTECA

Considerada a reincarnação de Brigitte Bardot, a alemã queria ser advogada quando foi descoberta numa discoteca de Düsseldorf pelo director da Metropolitan. Desfilou para todos os designers de topo e hoje é dona de uma marca de roupa.

SARA SAMPAIO GANHOU FAMA APÓS ANÚNCIO A CHAMPÔ

Aos 16 anos, venceu o concurso Cabelos Pantene e entrou na Central Models. Trocou a Matemática Aplicada e o violino pela moda. Foi capa de revistas internacionais, fotografada ao lado de Kate Moss, e a cara da recente campanha da H&M.

COMO ELES CHEGARAM ÀS AGÊNCIAS DE MANEQUINS

DALI MOS

O sonho de ser modelo levou a holandesa a um concurso e à L’Agence. "As pernas longas são o meu ponto forte, já fui comentada por isso."

DIOGO CEREJEIRA

Contactado num festival, o jovem do Porto acabou por ficar na Central. No 4º ano de Medicina, quer "tentar Milão". "Médico serei sempre."

BÁRBARA FRANCO

Um convite da organização levou a estudante de Medicina Dentária a vencer o Miss Madeira. Modelo da Central, prefere desfiles de passerelle.

RAFAEL MARQUES

Recrutado no metro, inscreveu-se na L’Agence por "curiosidade e para ganhar dinheiro". Tem na expressão do rosto o ponto forte.

JACK PAULO

Filho de pai português e mãe angolana, estuda em Londres e posa em Lisboa. Foi contactado no Chiado pela scouter da Central.

Modelo Manequim Moda Sara Sampaio
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