Barra Cofina

Correio da Manhã

Domingo
4

Crime, disseram eles

Histórias de antigos inspectores da PJ no combate aos homicídios
23 de Maio de 2010 às 00:00
Ao jantar partilharam-se histórias dos casos resolvidos e dos que ficaram por resolver
Ao jantar partilharam-se histórias dos casos resolvidos e dos que ficaram por resolver FOTO: Vasco Neves

O encontro não é secreto: esconde-se à espreita do Cristo-Rei e debruçado sobre Lisboa. Às 19h30 chegam os primeiros carros de inspectores de Homicídios da Judiciária à tenda ao lado do monumento. Não para deslindar um crime. É o dia em que convivem num jantar, à volta das histórias contadas pelos antigos. Nada se ouve das que hoje correm na Gomes Freire (é secreto, isso sim).

Há nomes que não se revelam. Um dos homens é perito em lógica. Na lógica das palavras. Foi ele que ajudou a travar as FP-25, uma organização terrorista dos anos 80 responsável por homicídios, ataques bombistas e assaltos a bancos. "O tribunal entendeu indicar que o Otelo [Saraiva de Carvalho] era o líder. E claro que eu acredito: ele era um dos líderes. Foram encontrados vários documentos dele a comprovar que foi líder de conclaves que ia fazendo por vários sítios. Foram escritos pela mão dele" – garante um dos antigos elementos da DCCB (Direcção Central de Combate ao Banditismo). Os documentos descreviam o estado da organização e os seus objectivos: "de subverter o estado de direito", conta a mesma fonte.

A forma como as FP-25 foram desmanteladas ninguém se arrisca a contar. Certo é que o objectivo das autoridades passava por atingir o núcleo desta organização. E uma das formas de o conseguir é controlando os ‘correios’ de informação e ir progredindo na hierarquia do grupo.

"Numa das rusgas feitas à sede da Força de Unidade Popular, na rua da Madalena (Lisboa) – e 90 por cento dos militantes da FUP desconheciam que esta era o suporte às FP-25 – revistámos livros e até caixotes do lixo na rua", recorda o ex-inspector. "Eu tive 6 meses a ler papel!" Era no meio daquela literatura que se escondia um mapa, em tudo igual ao dos tesouros. Tinha um percurso a seguir até ao ‘X’, onde estaria escondido algo precioso.

"Fomos para os lados de Aiana (Sesimbra), uma zona de areia, e descobrimos um poste de electricidade com um dos números do mapa. Passos para a direita, passos para a esquerda, arranjámos uma buldozer e encontrámos uns seis latões carregados de G3". Outras pistas como um papel rasgado em mil pedaços e jogado no contentor do lixo denunciou a forma de "divisão dos 108 mil contos" roubados num assalto a uma carrinha de valores, na Baixa de Lisboa.

Por seu lado, Otelo já negou diversas vezes muitos destes factos que, segundo a mesma fonte fidedigna ligada ao caso, constam do processo já julgado e que condenou o capitão de Abril.

O PERIGOSO BANDIDO

A história de Delfim dos Santos Sousa, que cumpre uma segunda pena consecutiva de 20 anos de prisão, é contada por Rui Silva, o ex-inspector que prendeu duas vezes o perigoso bandido.

No final da década de 70, Delfim assaltou um guarda-nocturno da Damaia para lhe roubar a pistola. Acontece que também o matou. "Identificámos o autor mas não o conseguimos prender. Tivemos depois uma informação – bandidos amigos dele trocaram informações por algumas facilidades que a polícia lhes concedia em crimes menores – que a mulher ia dar à luz um filho na Maternidade Alfredo da Costa". E foi para lá que a secção de Homicídios da PJ foi, numa autêntica caça ao homem. "Eu fiquei à porta principal da Maternidade, ele saiu e, quando se dirigia para um táxi, apontei-lhe a pistola à cabeça. Com ele tinha a arma roubada ao guarda".

Tempos depois, já Delfim andava na rua. Começou a ser investigado por assaltos aos comboios na linha de Sintra e até por disparar, "só por brincadeira", a sua G3 no bairro da Boavista, em Lisboa, fazendo pontaria a automóveis. Nasceu o mito que Delfim era um terror.

Mais uma vez com informações ‘cantadas’ por alguém, a PJ foi atrás dele a um bairro da Pontinha, onde morava um dos elementos do seu gang. Juntamente com Rui Santos estava o estagiário Almeida Rodrigues – que hoje dirige a PJ. "Eu estava a lanchar numa barraca quando chegou o Delfim. Fui direito a ele e mandei uma rajada de metralhadora a um metro da cabeça dele. Deitou-se logo no chão. Lá prendi o ‘perigoso’ Delfim. Nesse dia fiquei-lhe com o chapéu, um boné preto de veludo, e escrevi lá a data ".

O ESTRIPADOR

Com menos ligeireza fala João de Sousa do caso do estripador. "Ali houve uma falha de investigação" – admite. Em 1992, foi encontrada morta e esventrada uma mulher num barracão, na Póvoa de Santo Adrião. No ano seguinte ocorreram mais duas mortes em Lisboa com contornos semelhantes. Sabe-se que todas eram prostitutas e morreram por asfixia, com golpes lisos e irregulares que não podiam ser de faca. Foram-lhes retirados órgãos humanos. Durante muito tempo a PJ investigou os casos separadamente até que se renderam às evidências. Nascia o caso do estripador de Lisboa.

"Só no terceiro caso é que encontrámos uma impressão palmar que não tinha valor identificativo, porque o vestígio encontrado só é comparável se rodar a mão", explica João de Sousa, então coordenador superior da secção de Homicídios da PJ. "Havia suspeitos mas eu entendi não falar com eles. Foram ouvidos alguns mas não como arguidos. Quando o crime atinge este impacto, o arguido nunca confessa. Ou a gente tem alguma coisa para lhe dar a volta e ele confessa, ou não vale a pena falar com ele, vai negar sempre".

O caso falhou porque não foram recolhidas provas. E João de Sousa foi afastado das investigações na altura em que se criou uma brigada especial, primeiro liderada pelo subdirector Ferreira Leite e depois por Pedro Amaral. O caso prescreveu passados 15 anos. Daí se fale baixinho sobre isto, não pelo secretismo, mas por ter sido arquivado, sem um homicida atrás das grades.

JANTAR PARA RECORDAR HISTÓRIAS DE HOMICÍDIOS

Reúnem-se todos os anos em data incerta. Este ano, os inspectores da secção de Homicídios da PJ de Lisboa e alguns ‘históricos’ já reformados encontraram-se para jantar junto ao Cristo-Rei (Almada), numa tenda da empresa Dia a Dia, Catering. Cerca de meia centena de homens e duas mulheres recordaram histórias de homicídios.

NOTAS

FP-25

Falou-se pela primeira vez em terrorismo em Portugal com as FP-25. Os presos foram amnistiados.

DELFIM

Delfim dos Santos Sousa foi preso várias vezes. Já foi condenado a duas penas consecutivas de 20 anos.

ESTRIPADOR

Três prostitutas foram mortas e retiraram-lhes os órgãos, entre 1992 e 93. O caso foi arquivado.

Ver comentários