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Crime, fez ela

‘Millennium I: Os Homens que Odeiam as Mulheres’ na adaptação de David Fincher é, sobretudo, o estudo de uma personagem: ‘Lisbeth Salander’
Joana Amaral Dias 5 de Fevereiro de 2012 às 00:00
Requiem vivace
Requiem vivace

O sucesso de ‘Millennium 1: Os Homens que Odeiam as Mulheres’ (bem como o do livro de Stieg Larsson em que se inspira ou o do filme original sueco) sugerem a sede de anti-heroínas. Mas anti-heroínas mesmo, não umas estampas que também manejam armas e velocidades. Aliás, este filme de David Fincher parece, acima de tudo, o estudo de uma personagem, ‘Lisbeth Salander’.

Ela é rápida, inteligente, talentosa, bruta, violenta, excêntrica. Tudo nela é excessivo. Tudo menos o que mais costumeiramente é hiperbólico nas protagonistas femininas: a beleza. ‘Salander’, magra, meia encurvada, meio corvo, gótico-punk, hacker, motard, tatuada, cabelo curto assimétrico, cara pálida e cheia de piercings faz do corpo um manifesto. Um panfleto de vingança. Mas matar é só um bónus, um extra. Ela é a retaliação de todos os estereótipos femininos, da excisão genital à excisão cerebral, da imagem à cognição.

‘SALANDER’

Claro que a vendetta é também feita. ‘Salander’ assassina os homens que odeiam as mulheres, desde violadores a homicidas sádicos. E fá-lo com mestria e monstruosidade. Por isso é uma anti-heroína e não apenas uma justiceira ou punidora. ‘Salander’ é uma criminosa e o público gosta.

As mulheres perigosas fazem parte da história do cinema. Nos filmes mudos já existiam as vamps, no film noir pairavam as femmes fatales. Mas desde os anos 90 que a hediondez e a violência feminina, que repugna e atrai, passou a ter outra dimensão na tela. Lembram-se de ‘Atracção Fatal’ (Adrian Lyne, 1987), ‘Misery’ (Rob Reiner, 1990) ou ‘Assédio Fatal’ (Yves Simoneau, 1993)? O cinema começou a representar o feminino de uma outra forma, mais agressiva, mais psicopata, mais sanguinária. Para muitos tratou-se de (mais) uma caracterização reaccionária da emancipação da mulher, frequentemente associada à invasão do espaço doméstico, como nas películas citadas.

A verdade é que correspondeu a uma mudança que, de certa forma, parecia ter culminado com ‘Kill Bill’, de Quentin Tarantino. Nada que se compare a ‘Salander’, sem filhos, menos atraente, com mais competências e artes. Nesse sentido, ela significa a transgressão de todas as fronteiras reservadas às mulheres que, não obstante, mantêm fantasias sobre a fuga ao seu lugar no simbólico. A sociopata de ‘Millennium’ consiste, por isso, na condensação de um conflito, de um dilema de papéis e comportamentos, indo muito além dos habituais reflexos das angústias, medos ou fantasias masculinas.


Outras opiniões dirão que ‘Salander’ não é "feminista suficiente" porque está sempre disponível para ter sexo, porque não é gorda, porque é frágil ou o seu passado está partido, porque está incompleta insinuando a necessidade de parceria, ou porque oferece aos homens imaginação sem culpa. A discussão já ganhou. Pode ser que mais nada seja especialmente interessante em ‘Millennium’, em livro ou em filme. Mas pela má da fita já vale a pena. O crime compensa. 

Realizador: David Fincher

Intérpretes: Daniel Craig e Rooney Mara

Em exibição nos cinemas

LIVRO: ‘O LAGO’

Eis uma autora que se imagina na sua ilha natal a escrever e, generosamente, a enviar livros depois distribuídos por todo o país. Ponto. É a única altura em que se ouve falar dela – lá sai uma crítica. Se quer mais, leia ‘O Lago’. Se gostar, vai ter muito para resgatar deste singular baú da Madeira.

Resumo: Livro de uma autora, nascida em 1958, no Funchal, que se iniciou na escrita em 1989 com um policial que acabou por ser premiado.

Autor: Ana Teresa Pereira

Editora: Relógio D’água Editores

CINEMA: ‘OS DESCENDENTES’

Não é tão vivo como ‘Sideways’, mas este último trabalho de Payne, honesto e discreto, capta o heroísmo que uma vida banal pode encerrar. A cena da corrida desenfreada de Clooney é o melhor momento. Pena morar no princípio.

Resumo: Após a mulher ter sofrido um acidente, um pai de família tenta pegar nas rédeas da família e são as suas duas filhas a ajudá-lo a trilhar esse caminho.

Realizador: Alexander Payne

Intérpretes: George Clooney, Shailene Woodley, Alexandra King e Amara Miller

Em exibição nos cinemas


LIVRO: ‘COMO SE DESENHA UMA CASA’

Já vai longa a agora coroada obra deste autor. Foi com este livro que Manuel António Pina ganhou o Prémio Camões. E como se desenha uma casa? Para o poeta, desenhe-a "como quem embala um remorso". Mas desenhe-a até porque precisamos sempre de uma casa que nos "guarde do mundo".

Resumo: Livro de poesia do escritor que em 2011 foi galardoado com o Prémio Camões.

Autor: Manuel António Pina

Editora: Assírio & Alvim

FUGIR DE...

‘MARTHA MARCY MAY MARLENE’

Ela tem muitos nomes porque não tem uma identidade. Perdeu-a com lutos, drogas e seitas. Este é o resumo da parte interessante do filme. De resto, esta longa-metragem está cheia de tiques. Cheira a pretensiosismo, da montagem à estrutura. O espectador vê a edificação de uma série de efeitos. Enfim, a moça pode ter sido manipulada por um guru manhoso. Mas o público não tem de sofrer o mesmo destino.

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