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Correio da Manhã

Domingo
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“Demos início àquela que viria a ser uma grande metrópole”

Servi com lealdade a pátria que me fez enfrentar o inimigo. Hoje, sobram as mazelas desse tempo
Miguel Balança 4 de Novembro de 2018 às 00:30
Escrevo para despertar consciências. Escrevo para que se recorde sempre aqueles que em combate nas colónias serviram o País a contragosto, coagidos por um regime ditatorial. Servimos a pátria em auxílio aos nossos conterrâneos - que nunca se esqueça.

Assentei praça no Regimento de Infantaria 7 em Leiria, corria o dia 13 de abril de 1958. Um par de anos depois passei à disponibilidade, a 12 de agosto de 1960. Desse tempo recordo a dupla participação nas manobras militares no Campo de Santa Margarida, na vila ribatejana de Constância. A 22 de junho de 1961 era convocado para Leiria - fui aí adido ao Batalhão de Caçadores de Castelo Branco em que acabei mobilizado para Angola como elemento do Batalhão 186. De Lisboa, seguimos embarcados no navio ‘Niassa’ a 18 de julho - a 28, dez dias depois, aportávamos a Luanda. O caminho marítimo foi uma desgraça: éramos mais de mil homens depositados num porão. Quando a proa do navio mergulhava nas ondas os enjoos eram muitos - vinha tudo fora. No regresso, o mar parecia já mais certinho.

Correio em voo rasante

Na capital da província ultramarina encontrámos alojamento numa escola desativada. Dias depois havíamos de seguir para o Campo Militar do Grafanil, onde permanecemos cerca de 12 meses. Desbravámos mato, construímos ruas e demos início àquela que viria a ser uma grande metrópole. Entretanto, fazíamos rondas, vigiávamos o acampamento e a cidade. Dormíamos vestidos e calçados, com a arma ao lado.

Do Grafanil partimos para Vista Alegre onde, alojados na Roça Bom Destino - uma exploração de café e algodão -, era nossa responsabilidade guardar a cidade, mantendo os guerrilheiros o mais distante possível. Seis meses depois seguimos para o acampamento do Zemba. Aí tudo se tornou mais difícil: os guerrilheiros eram mais ativos e tinham nas matas densas e morros altos um maior campo de manobra.

Em voos rasantes, recebíamos do ar os aerogramas da família, borla do Movimento Nacional Feminino. A resposta demorava meses a chegar ao destino - já lá vão 57 anos. Guardo desse tempo a memória feliz da troca de correspondência com a madrinha de guerra, com quem casei um par de anos depois. Quer antes quer depois do meu regresso, foi dela o cuidado extremo que ajudou a minha mãe a lidar com nervos de uma guerra que também foi sua. Temia como tantas que os soldados de partida para Angola não mais regressassem. Quando me viu de volta, deu-me um abraço. Nunca mais teve saúde: morreu dois ou três meses depois daquele gesto. Noto com tristeza que, agora num regime democrático, não temos merecido um tratamento com lealdade sequer semelhante àquela com que servimos a nação.

Aos excelentíssimos senhores Comandante Supremo das Forças Armadas, chefe do Estado-Maior-General e demais classe política, lembro a responsabilidade que têm de não deixarem esquecer as gerações que, como a minha, ainda hoje pagam pela desdita que lhes coube. Pacificámos e auxiliámos naturais e concidadãos. Os que regressaram trouxeram a honra do dever cumprido, sem curriculum nem ordenado. Muitos chegaram com mazelas físicas e psíquicas - que se estenderam às suas famílias -, insanáveis para o resto da vida, como no meu caso. À Liga dos Combatentes peço, em particular ao seu presidente, que cumprimento respeitosamente, que insista junto dos órgãos de Estado pelo cumprimento da Lei do Reconhecimento e da Solidariedade. Ainda há combatentes com idade avançada a necessitarem de apoio médico e social. A todos, em especial aos do Aço, meus colegas: não receiem.

Cumprimenta-vos o Bolinhas.

Realto de  José Faustino Lorvão
Comissão Angola 1961/1963
Força 1º cabo 324/58 RI 7 Leiria adido ao BC 6 Castelo Branco
Info 81 anos, reformado da Função pública
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