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Correio da Manhã

Domingo

É cool estar na moda

Pessoas que fogem à regra – anónimos ou famosos – servem de inspiração a quem cria para a maioria. Depois é negócio.
25 de Abril de 2010 às 00:00
Moda é diferenciação
Moda é diferenciação FOTO: João Cortesão

Quase sempre a moda muda mais depressa do que envelhecem os trapos. Toma mil e uma formas e cores, agarra outras personagens e conceitos, num jogo de remistura em que até o clássico e o moderno andam muitas vezes de mãos dadas. Criadores, marcas, produtores e revistas fazem-nos correr para as lojas à procura das tendências, concertados no acto de nos fazer crer que aquelas calças ou aqueles sapatos nos farão mais bonitos, admirados e, em suma, felizes. Se calhar têm razão.

Este ano, em Portugal, três grandes tendências vão ditar a moda: A sustentabilidade; solidariedade e compaixão; e as redes sociais – explica Luís Rasquilha, vice-presidente da AYR Consulting, a maior empresa mundial de pesquisa de tendências. Vão usar-se padrões de fusão, o clássico com o moderno. Ou a aproximação de materiais diferentes, como a pele e a licra. Também se vão conjugar cores aparentemente distantes, como roxos com castanhos. "Diria que a pedra de toque é a diferenciação" – remata Rasquilha.

"Enquanto seres humanos, temos necessidade de novos estímulos. A moda não é estranha a esse processo, é um fenómeno de socialização pois só existe quando há imitação. Até os grupos que se dizem antimoda, com expressão visual própria, são alvo da curiosidade e vêem as suas referências transportadas para a moda mainstream", afirma Cristina Duarte, socióloga e autora do livro ‘15 Histórias de Hábitos, Criadores de Moda em Portugal’.

Afinal, o que é uma tendência? "Nós somos fundamentalistas. Se não é atractivo, inspirador, ou não tem potencial de crescimento, então não é cool" – responde Luís Rasquilha. "Não são ideias pelas ideias, mas sim algo que se possa expressar como mudança de atitude".

Sempre atentos estão os ‘cool hunters’ (em português, ‘caça-tendências’). São pessoas comuns, com variadas profissões, que sabem observar o que os rodeia. Trabalham em cima de conceitos – um Mundo melhor, recessão, redes sociais, a componente urbana, ecologia – e quando se deparam com algo com o conceito que procuram, registam-no em fotografia e tentam provar a empresas como a AYR Consulting – com 5000 observadores – que encontraram uma nova tendência. Depois, é trabalhar o conceito.

Para os mais sofisticados, a moda são passerelles; os comuns mortais vêem montras. Só 2,5% de todos estes serão criadores de tendências, os chamados ‘innovation lovers’. E, segundo o ‘cool hunter’ Luís Rasquilha, os estilistas são aqueles que pegam numa tendência e lhe vão dar depois um conceito.

O estilista portuense Miguel Vieira defende que "é preciso ter atenção ao caminho que as tendências podem tomar e aos ‘acontecimentos’ sócio-culturais, pois a moda é um reflexo da realidade". Depois há que contar também com o papel das "personalidades das artes e, em particular, da música", que cada vez mais se tornam porta-vozes das grandes griffes. "Pegam nas tendências da griffe e transformam-nas em tendências de mercado, a sua influência vai aproximar o consumidor".

Kate Moss tornou as galochas ‘chiques’ e Pete Doherty (o líder dos Libertines) pôs chapéus na cabeça dos adolescentes. Por cá, quem não se lembra da moda de Margarida Pinto Correia usar um só brinco? Ou do actor Pedro Granger e os dois relógios no pulso? Justifica José António Tenente que é por "empatia" que se associa a figuras públicas como Bárbara Guimarães.

A televisão também ajuda a ditar tendências. Vestir à ‘Morangos com Açúcar’ é moda que a série da TVI propagou pelos adolescentes. Catarina Pedro é a figurinista de serviço. E onde se inspira? "As pessoas na rua são um incentivo. Leio e vejo o que se faz lá fora, em Londres, Nova Iorque, Barcelona – cidades inspiradoras". A vantagem dos ‘Morangos’ é a diversidade de personagens e de géneros. "É fácil um jovem poder colar-se". A responsabilidade de Catarina é lançar ideias usando um guarda-roupa com peças oferecidas pelas marcas ou confeccionadas pela sua equipa de onze pessoas na Plural Entertainment.

Noutro campeonato, o estilista Felipe Oliveira Baptista deixou os franceses rendidos à sua última colecção, nascida da "vontade de contar uma história". Cada colecção é uma narrativa. "Passo muito tempo à procura de elementos e até uso uma parede do meu ateliê para juntar peças: Fotografias de lugares ou construções e até pessoas que fotografo na rua pelas cores que vestem", conta o estilista, há dez anos sediado em Paris.

PESSOAS COM ESTILO

Falar de tendências não é consensual. "Não gosto sequer dessa palavra. O que interessa é o discurso e a autenticidade do criador", afirma o estilista Luís Buchinho. "As minhas colecções partem sempre da análise da última colecção. Para mim funciona também procurar texturas e formas na Natureza, pois a vida orgânica pode ser muito surpreendente". Já Ana Salazar [com mais de 30 anos de carreira] garante inspirar-se "em sinais do tempo". À semelhança de Buchinho, também não gosta de usar a palavra ‘tendências’ – lembra-lhe "uniformização".

Tenente considera que as tendências são mais significativas para o consumidor. "Não me preocupa saber se o que crio se enquadra nelas". O estilista explica que a informação de moda é uma fonte, entre muitas outras: "Reflexos de experiências, filmes, livros, detalhes de costura, épocas históricas". Para Tenente, "a imprensa especializada, ao trabalhar as colecções, vai ‘arrumá-las’ por temas.

O director de moda da revista ‘Vogue’, Paulo Macedo, explica o seu trabalho na senda das tendências. "Somos um bocado vampirescos. Faz parte estarmos atentos a pessoas que têm um estilo próprio – aquela rapariga que em Amsterdão usava as meias de uma determinada maneira ou a forma como o rapaz punha o lenço em Londres. É preciso olhar sobretudo às novas gerações, onde a novidade está mais presente".

O PESO DO NEGÓCIO

Não são apenas as griffes que dizem o que é actual.A internet, onde tudo se partilha rapidamente, também a dita. E com seguidores bem fiéis, como os blogues ‘Mini-saia’ (em mini-saia.blogs.sapo.pt), ‘Tanta Roupa e Nada para Vestir" (em mariaguedeslisboa.blogspot.com) ou ‘O Alfaiate Lisboeta’ (em oalfaiatelisboeta.blogspot.com). Um dos muitos sites que, pela observação dos nómadas urbanos, difunde moda.

A par com a internet, as marcas. Com um volume de vendas de dez milhões de euros anuais, o grupo Inditex – dono de lojas como a Zara, Bershka, Pull and Bear e Massimo Dutti – é sinónimo de preços imbatíveis, à medida do cidadão comum. "A base dos nossos designers são os clientes, que nas lojas dão conta das suas preferências", enfatiza Raul Estradera, responsável pela comunicação do grupo. Para ilustrar as suas palavras, mostra um vídeo com vários designers a criar. Um deles ressalta a influência da "rua, das viagens e da música" nos caminhos que o seu lápis escolhe. Outro não dispensa o cinema.

Sabendo disto, Alfonso Segóvia, actual criativo da C&A e ex-designer da Zara, já desenhou "peças inspiradas em séries como ‘Donas de Casa Desesperadas’ ou ‘Gossip Girl’. Tudo com os devidos limites, porque em tempo de crise o segredo da moda está muitas vezes no preço. "O cliente C&A tem de satisfazer uma necessidade básica, portanto as coordenadas dos criadores têm de ser traduzidas por peças baratas e actuais. Na Zara, o ‘sonho’ está mais presente, há espaço para o arrojo".

Outra das tendências que a C&A agarrou foi a responsabilidade ambiental e social, pela "utilização de materiais recicláveis, tecidos amigos do ambiente e políticas de emprego melhoradas", explica António Mendes, porta-voz da marca em Portugal. "As pessoas preocupam-se com estas questões e oferecer um produto que vá ao encontro disto é valorizado ".

Da roupa para o calçado, Miguel Abreu, responsável pela Goldmud, de Felgueiras, vencedora do Prémio Inovação na Fileira do Calçado, em Milão, revela a fórmula. "A identidade própria resulta da combinação entre as tendências do mercado e o espírito da marca. Tendência, para mim, é quando a proposta começa a ser aceite".

Mas o segredo para novas tendências revela-o Luís Rasquilha, da AYR Consulting: "Se observarmos o Mundo, conseguimos algo inovador. Não são as tendências que custam dinheiro, custa é a capacidade de transformá-las num negócio". Segundo diz, o trabalho de análise e de recomendação estratégica custa entre 10 mil a 20 mil euros. "Tempos de crise são oportunidade para encontrar negócios. A nossa tendência na crise é: Recessão saudável".

"ACHO PIADA A NÃO ESTAR NA MODA"

- É fácil para si ir atrás das novas tendências da moda de calçado?

- Gosto de peças que condigam com algum pormenor da minha personalidade. E, talvez, o que me atraia mais é ver alguma peça ou sapato que me transporte para um determinado ambiente e me faça sentir de uma maneira específica – mais séria ou mais descontraída, ou mais humorada.

- Na colecção que criou para a Hush Puppies em que é que se inspirou?

- Em quatro conceitos do meu imaginário. Um deles é o do meu fascínio pelo arco-íris, daí o nome ‘Rainbow’. Outro é o meu gosto pelo instrumento onde mais canções compus, o piano. Daí as riscas pretas e brancas alusivas às teclas. No modelo ‘Mercúrio’ foi a ideia de liberdade e de velocidade nos pés, daí a asa lateral. E, como não podia deixar de ser, um modelo ‘Red Shoe’ com a particularidade de poder ser alterado, mudando o laço, à luz da ideia do sapato mágico, capaz de se transformar ou de ser transformado.

- Sente que criou uma tendência?

- Acho que não.

- O que é essencial para si na roupa que veste e no calçado?

- O conforto e sentir-me eu mesma em consonância com o meu humor de cada dia.

- Preocupa-se com a moda?

- Não. Compro aquilo de que gosto e não sigo nenhuma tendência específica. Na verdade, acho piada a não estar de acordo com a moda.

TOP 5 DOS ESTILOS QUE ESTÃO AGORA NA MODA EM TODO O MUNDO

‘ORGÂNICO CHIC’

São materiais naturais que compõem o ‘orgânico chic’. É tendência porque todos queremos o melhor para o ambiente e a roupa exprime este desejo com classe.

ESTRELAS DE ROCK

Às estrelas de rock associa-se a rebeldia além da fama. Este estilo é tendência porque a liberdade é uma tendência. Transmite o quebrar de barreiras.

SIMPLESMENTE SURF

Fiel aos anos 50 e 60, com t-shirts de gola em "V" e chinos, tudo o resto é desnecessário. É tendência porque transmite uma forma de viver masculina e relaxada.

‘CURADORES’

É uma tendência fundamentalmente masculina. Para um ‘curador’, todos os detalhes contam. Representa a perfeição estilística e o conhecimento da roupa.

ROUPA DE TRABALHO

Regressam as jardineiras e as botas de trabalho. É tendência pela celebração da sua função: de ir trabalhar. E também pela sua masculinidade. Tem força.

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