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'El Comandante' vende?

Especialistas analisam chances de Fidel vir a tornar-se tão icónico quanto ‘Che’
Leonardo Ralha 4 de Dezembro de 2016 às 15:00
Fidel Castro morreu a 25 de novembro. Tinha 90 anos
Fidel Castro morreu a 25 de novembro. Tinha 90 anos FOTO: Ismael Francisco/EPA

A barba, o charuto e a farda militar que vêm à memória de quem se recorda de Fidel Castro, o ditador que governou Cuba durante 47 anos e morreu a 25 de novembro, com 90 anos, formam uma imagem de marca que lhe sobrevive. "E isso é uma das coisas mais difíceis de fazer numa marca: conseguir que as pessoas saibam descrever as suas características físicas", diz Carlos Coelho, presidente da Ivity Brand Corp.

Para o especialista em criação e gestão de marcas, Fidel Castro tem uma imagem icónica que transcende as estatísticas da repressão. "Quando morremos somos todos bons. Não há más pessoas, muito menos os ícones", defende Carlos Coelho, realçando que a última década de vida do líder da revolução cubana – marcada por problemas de saúde e pela substituição na liderança do regime de Havana por Raúl Castro, seu irmão mais novo – contribuiu para que tenha atingido "um estatuto entre a vida e a morte" que deu início ao mito. "Vivemos numa sociedade de perceção, em que a imagem das coisas é mais importante do que as suas qualidades ou características intrínsecas", salienta.

Segundo Carlos Coelho, o homem cujas cinzas vão ser sepultadas hoje, no cemitério de Santa Ifigénia, em Santiago de Cuba, após percorrerem a ilha ao longo de quatro dias, ficará associado, acima de tudo, "a uma imagem de resistência antiamericana, a qual sempre lhe escondeu os defeitos". E que pode ser apetecível para muitos criativos.

No entanto, usar Fidel Castro em publicidade é algo não convence João Gomes de Almeida, diretor criativo executivo da agência 004. "Enquanto existem outros símbolos revolucionários que, por não terem governado ou por terem governado durante pouco tempo, são símbolos de rebeldia, ele tem um selo de ditador que afastará as marcas", afirma, assinalando que "há tendência para as marcas fugirem de tudo o que é político ou ideológico".

E se estivessem em causa produtos facilmente associáveis à imagem de Fidel Castro, como charutos? "Aconselharia o cliente a usar uma personagem histórica menos controversa, que é o Churchill", responde o publicitário, que ao longo da carreira trabalhou com marcas como a Audi, EDP, Nike, Sagres e Super Bock.

Conotações políticas, em sua opinião, nada dizem aos ‘millennials’ [as pessoas que iniciaram a vida adulta por volta de 2000]. "O símbolo político, como existia uma ou duas gerações atrás, já não se vê. Há uma descrença tão grande que não existe identificação", diz João Gomes de Almeida, crente de que Donald Trump "é mais ‘marquetável’" do que Fidel.

SEM AJUDA DE KORDA
Notoriamente comparável com Fidel Castro é Ernesto ‘Che’ Guevara, que ajudou os irmãos Castro a derrubarem a ditadura de Fulgencio Batista e a instaurarem um novo regime totalitário. Executado em 1967, quanto tinha apenas 39 anos, por tropas bolivianas, o revolucionário argentino tornou-se um ícone contestatário há meio século, e o seu rosto tanto aparece em t-shirts como ajuda a vender produtos da sociedade capitalista, ainda que o fotógrafo cubano Alexander Korda, autor de ‘Guerreiro Heróico’, um dos retratos mais famosos do século XX, tenha chegado a processar uma agência de publicidade quando recorreu a ‘Che’ para um anúncio à vodka Smirnoff.

"Acho que o ‘Che’ vai ganhar essa guerra, porque tem a fotografia que foi transformada em ícone. Não conheço nada do Fidel que seja comparável", sustenta o professor universitário Eduardo Cintra Torres, convencido de que Fidel Castro será gradualmente esquecido com o passar do tempo. "Não deixa grande obra escrita e no seu país deixou uma ditadura. Se o embargo dos EUA acabar e o regime cubano for evoluindo, acontece-lhe o mesmo que tem sucedido a Mao Tsé-Tung na China", acrescenta o também colunista do CM.

"Nem tem a carga de símbolo de rebeldia, como ‘Che’ Guevara", concorda João Gomes de Almeida, que aponta o maior distanciamento histórico como uma vantagem para um guerrilheiro cujo papel no século XX será desconhecido por grande parte daqueles que conhecem e utilizam a sua imagem.

Mesmo admitindo que raros jovens de 18 anos sabem quem foi Fidel Castro, e também que "as grandes marcas tendem a afastar-se das polémicas", Carlos Coelho contrapõe que o recém-falecido continuará a ter impacto nos "rapazes que já não são assim tão jovens mas mantém espírito jovem", podendo ser usado em publicidade e marketing: "Este tipo de figura tem sempre valores intemporais de resistência e de espírito revolucionário capazes de apelar a marcas mais jovens e que têm espaço para brincar com a sua imagem."

MISTÉRIO ADIDAS
Nos últimos anos de vida houve uma marca muito conhecida que passou a ser relacionada com Fidel Castro, ainda que de forma involuntária. A Adidas, empresa alemã de roupa desportiva, fabricou os fatos de treino com que o ex-presidente de Cuba era fotografado quando recebia convidados ilustres na sua casa em Havana.

Depois de um primeiro momento em que aparecia com fatos de treino da Fila ou da Nike, Castro passou os últimos anos de vida com o símbolo da Adidas bem visível. E tudo porque a marca alemã equipou até 2012 o Comité Olímpico de Cuba, que terá cedido alguns equipamentos.

Tudo isso integra as memórias que o Mundo tem de Fidel Castro, figura pública desde os anos 50, cuja imagem poderá vir a ser utilizada para promover produtos cubanos, como o rum ou os charutos. "Irá depender da evolução do regime", diz João Gomes de Almeida, enquanto Carlos Coelho é bastante mais entusiástico, pois "o marketing, a publicidade e os consumidores em geral têm tendência para esquecer a História".

Mas a figura de Fidel Castro pode, na opinião do criador e gestor de marcas, trazer muitas receitas para a ilha que governou durante décadas. "Os países precisam de coisas muito relevantes e diferenciadoras para estarem no mapa. Com a morte, Fidel deu um passo para a eternização e é nisso que consiste uma marca, que é ‘eternizável’ no sentido em que vive para lá da sua existência física", conclui Carlos Coelho.
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