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Correio da Manhã

Domingo
7

História a preto e branco

Está muito calor – tenho pressa – é uma constante – mas o tema da conversa ventila a temperatura e amorna um crónico horário a abater. “Ainda há quem seja racista.” Alguém duvida? Há, sim, caro senhor, manadas de retardados que não pagam multa e não são presos por militarem e aplaudirem a bestialidade do racismo.
21 de Maio de 2006 às 00:00
Moisés Ismael, taxista
Moisés Ismael, taxista FOTO: Miriam Assor
E não são assim tão poucos os labregos patológicos que adoram separar com réguas e máscaras as cores da pele de cada um. “Pois não.” Gente com lepra mental que deve sentar o tronco neste carro e sujá-lo com tenebrosidade. Há, sim, caro senhor, energúmenos à solta, aqui e acolá, no Norte, no Sul, a Este, a Oeste, que demonstram de goela cheia o bárbaro ácaro que sentem por pessoas cuja epiderme é dissemelhante da sua. Infelizmente, é esse o quadro pintado com o óleo da estupidez.
O racismo é, incontestavelmente, um facto repugnante que representa a absoluta ausência de inteligência. Uma realidade que não combina com a humanidade. Mas, nem todos os vermes exteriorizam o doido gáudio. Ainda há quem faça cerimónia: “querem esconder... mas na primeira oportunidade...”, na primeira aberta aproveitam para vomitar o estrume que têm em trânsito nas tripas: “Chamam preto aos pretos”, com tom e intuito de inferioridade. E “dizem outras coisas.”
Fiquemos pelas coisas. Pergunto pela vice-versa – pretos que não morrem de amores por brancos, “claro que também existem.” Vira o disco e toca a mesma chinfrineira: chamar branco a um branco pode ser considerada a maior ofensa. Depende do sentido. Do escopo. “E outras coisas.” Outras coisas. Entendido. Na verdade, caro senhor, a existência de seres claros, escuros, lívidos, negros, albinos, amarelos só aperfeiçoam e estimulam a igualdade.
Não sei se me ouviu. As janelas escancaradas para que a brisa refresque o táxi, e até o assunto, acabam por entupir a frase. Os ouvidos não ouviram, mas o segmento da conversação está desperto
e em linha: “Há seres humanos normais.” Valha-nos isso, caro motorista. Indivíduos que se destacam da asnice. Ele, eu, nós e alguns, estamos de acordo: “Nem toda a gente é racista.” Mil vezes ainda bem. Os países, as pessoas, os animais e inclusive os objectos não aguentariam tanto nojo.
Ele sabe do que fala, quando afirma que nem todos sofrem da doença. Saiu de Angola faz 7 anos. O amor por uma portuguesa nasceu a turbo e deu fruto com rapidez: a criança tem seis anos. “O meu filho é mulato.” Fica percebida a maravilha do encontro das cores. Depois de largar uma gargalhada tão intensa como os 27 graus que batem lá fora, diz que o resultado da mistura do “preto” com o “branco” devia ser uma raça. Boa ideia.
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