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Correio da Manhã

Domingo
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Não há beijos digitais

‘The Polar Express’ traz ao grande ecrã um Tom Hanks digital. O actor conta como aceitou o desafio de Robert Zemeckis para interpretar cinco personagens distintas. E recorda os seus Natais em criança.
19 de Dezembro de 2004 às 00:00
Divertido, Tom Hanks estava no apropriado estado mental quando nos recebeu para falar sobre o filme ‘O Expresso Polar’, de Robert Zemeckis, onde o actor interpreta cinco personagens diferentes.
O que já não era assim tão apropriado era a linguagem, mais maliciosa do que colorida, usada pelo actor para descrever o que se passou do outro lado das filmagens de algumas cenas. Com um particular humor negro, neste encontro no Essex House Hotel em Nova Iorque, Tom revelou a sua preferência por um Pai Natal de corpo suficientemente atlético para carregar um enorme saco de prendas do Pólo Norte. Falou também do seu truque para conseguir interpretar nada mais nada menos do que cinco personagens (o rapaz herói, e seu pai, o condutor do comboio, o revisor, o Pai Natal e o operário) em simultâneo. Esse incrível feito tem que ver com calçar diferentes pares de sapatos.
Que papel tem o Pai Natal na sua vida?
Actualmente subscrevo a tradição russa do Pai Natal. Penso que ele vem e deixa-nos uma pêra se nos portarmos bem. No caso de nos portarmos mal deixa-nos um botão. Eu tenho a minha parte de pêras!
Que memória guarda do Natal quando era criança?
Apanhava sempre o autocarro de Oakland para Red Bluff, na Califórnia, para ir ter com a minha mãe. Era o dia em que saíamos da escola antes do Natal. Íamos para a estação de autocarros de Greyhound e entrávamos no autocarro para uma viagem que podia durar até cinco horas.
Levava comigo uma grande quantidade de livros de banda desenhada. E tentava a todo o custo manter-me acordado até sentir a aragem gelada de Red Bluff. Rezava também para ficar sentado ao lado de uma velha simpática que me oferecesse pão com banana. Isso acontecia muitas vezes.
Qual é o seu filme de Natal favorito?
‘A Oeste Nada De Novo’ de Lewis Milestone (um conhecido filme de guerra).
A sério!?
O mês de Dezembro na minha casa não é o mesmo sem ‘A Oeste Nada De Novo’.
Se pudesse ser um rapaz que apanha o Polar Express que mensagem julga que o condutor colocaria no seu bilhete?
Hmm…Provavelmente diria: ‘Calma!’
Como é que escolheu que tipo de Pai Natal deveria aparecer neste filme?
O Pai Natal para o rapaz do filme não era o homem rechonchudo que desce pela chaminé. Era um homem grande, musculado e com força para carregar um grande saco de prendas. Portanto ele teve de ser grande e forte.
Como é que surgiu a oportunidade de interpretar tantas personagens?
O realizador, Robert Zemeckis, queria que eu interpretasse todos os papéis neste filme. Eu disse: “Espera aí um minuto. Mas afinal este filme também tem raparigas, e até gnomos… vou ter de interpretar todas essas personagens?” Ele respondeu: “Sim, vai ser bestial!.”
Era tanta coisa, que eu não sabia se as conseguiria absorver como actor. Então respondi: “Robert, não vou dar conta do recado”. Mas fazer apenas as cinco personagens que faço no filme, isso já seria possível. Tenho orgulho no meu poder de memorização.
Para mim, isto foi o mesmo que fazer ‘Forest Gump’. Não sabia o que é que se ia passar. Ou quando fiz ‘O Náufrago’ (também de Robert Zemeckis); a única coisa que sabia era que mais cedo ou tarde, estaria numa jangada, arrastado pelo oceano. E o Robert estaria algures num barco, a filmar. E foi exactamente o que aconteceu. Estive cerca de 45 minutos, à espera que filmassem. E à espera que alguém me vi-esse buscar. Ali estava eu naquele filme, apenas a tentar ser um bom rapaz. E o Robert, com um poder de imaginação que nem consigo abarcar com palavras, conseguiu transformar aquilo num grande filme. E acabou por ser mais complicado, sofisticado e deslumbrante do que eu alguma vez pudesse pensar.
Como é que conseguiu interpretar todas as personagens sem as confundir?
Mudava os sapatos! Dependia da personagem que estava a interpretar. Baseava-me em…‘quem sou eu desta vez, Robert?’ Então, era este género de coisas. Cada personagem, o rapaz e o condutor, tinha pares de sapatos muito específicos.
Há alguma mensagem no ‘Polar Express’ sobre a perda de inocência?
Não serão todos os filmes sobre a perda da inocência? Parece que todas as vezes que se faz um filme sobre pessoas inocentes, é…. irritante! Hey, é sobre fé. Todos se preocupam sobre a sua crença em si mesmos. É uma coisa muito pessoal, não pode ser descrito.
A maneira como os filmes normalmente são feitos é apenas uma maneira foleira de empurrar a história ou introduzir-lhe o factor perigo.
Penso que as pessoas conseguem topar à distância uma narrativa estereotipada. Estão cansadas disso, é muito previsível. A razão por que as pessoas vão ao cinema é para serem surpreendidas por uma narrativa cujo desfecho não podem prever. Portanto, de diferentes maneiras, o que o Robert e eu fazemos é pensar não tanto na maneira de fazer um filme, mas antes nas maneiras de não o fazer.
Qual é a sensação de trabalhar num filme animado como este?
Penso que é um regresso a outro tipo de representação; do género em que se fazem uma data de ensaios ou uma data de pequenas peças.
Pensa que uma personagem animada como neste filme poderá significar que os actores como Tom Hanks estão obsoletos?
Não. Esta técnica só vai resultar nalguns filmes. Por isso não vai pôr nenhum outro tipo de filme fora de cena. O que isto poderá provocar no actor, muito francamente, é libertar-nos em alto grau.
De quê?
Bem, usei esta analogia muitas vezes. E peço desculpa a Meryl Streep, mas o nome dela é o que me vem à cabeça. Se ela representasse o notável Genghis Khan na história, melhor do que ninguém representa Genghis Khan, então Meryl Streep pode representar Genghis Khan. E se James Earl Jones pode representar o grande Mickey Rooney na História de Mickey Rooney, então James Earl Jones pode representar melhor Mickey Rooney na História de Mickey Rooney!
Existe uma oportunidade extraordinária para os actores não estarem limitados pelo tamanho, peso, cor do cabelo ou raça.
São notícias muito boas. Mas a verdade é que ainda é muito caro. E é muito, muito difícil, por enquanto, um computador captar a essência de um homem a beijar uma mulher.
Como assim?
Os pontos que usava na cabeça poderiam colidir com os da actriz e o computador entraria em parafuso.
Mas no que diz respeito a um actor, agora é possível representar qualquer personagem em qualquer circunstância. E de certa maneira essa simplicidade não é tão praticável como antes.
O que é que há no livro original de Chris Van Allsburg que lhe despertou o interesse em participar deste filme?
O livro em si mesmo, as suas 29 páginas, são um assombro – é muito difícil apontar-lhe defeitos. Tenho vindo a ler o livro aos meus filhos desde que foi publicado. E de cada vez que nos aproximamos do Natal temos tendência para lê-lo mais.
E, muito francamente, há algo de impressionante nas pinturas de Chris Van Allsburg. Não são apenas desenhos; são versões quase impressionistas da casa dos filhos dele. E como é estar num comboio, com toda a aventura que isso acarreta. É sempre este sentimento que tenho de cada vez que leio o livro. Bem como uma elegante, simples, mas complicada e sofisticada história sobre o que significa o Natal para todos nós.
Qual era o seu livro favorito em criança?
Adorei ler ‘Crime e Castigo’ de Fiodor Dostoievski.
Como é que lida com os seus filhos no que diz respeito à crença no Pai Natal.
Confundo-os com semântica! Os meus filhos questionam: existe realmente um Pai Natal? É mesmo ele que nos traz as prendas? Eu digo, vamos lá esclarecer esta questão: vais para a cama na véspera de Natal? Sim. Nesse dia esquecem-se do leite e das bolachas? Sim. Voltam de na manhã seguinte? Bem, sim. E há presentes nessa manhã que antes não estavam lá? Sim. Então, aí tens o ponto. O Pai Natal não se importa se acreditas nele ou não. Ele só quer saber se tu vais para a cama quando digo para o fazeres.
É muito ‘cool’ que o Tom Hanks seja da família de Abraham Lincoln (antigo Presidente americano)…
Bem… não costumamos falar muito sobre isso. Mas é absolutamente verdade.
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