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O baralhador da Casa Branca

James Comey ‘ressuscitou’ Donald Trump graças à investigação do FBI a mails de Hillary Clinton
Leonardo Ralha 6 de Novembro de 2016 às 12:26

Na noite de ter-ça-feira, meta-de dos norte-americanos irão odiar James Comey. O mais provável é que o diretor do FBI seja alvo da ira dos apoiantes de Donald Trump, incapazes de lhe perdoar a recomendação pública, feita em julho ao Departamento de Justiça, que travou a investigação criminal ao escândalo dos mails de Hillary Clinton, mas não é de todo impossível que sejam os seguidores da antiga secretária de Estado a culpá-lo pela eventual derrota que até há poucos dias seria impensável.

Foi a 28 de outubro, quando faltavam 11 dias para a eleição do 45º presidente dos EUA, que James Comey, nova-iorquino de 55 anos que Barack Obama nomeou diretor do FBI em 2013, enviou uma carta ao Congresso a dar conta de que os seus agentes tinham tomado conhecimento da existência de emails pertinentes para a investigação do servidor utilizado por Hillary Clinton – à revelia dos protocolos de segurança de Estado – quando era a responsável pela diplomacia dos EUA. Em causa está, como se descobriu entretanto, um computador portátil partilhado por Huma Abedin, a inseparável assistente da candidata presidencial, e pelo (ainda) seu marido, o ex-congressista democrata Anthony Weiner, conhecido por enviar fotos de cariz sexual a outras mulheres, o que já o levou a internar-se num programa de reabilitação.

Mesmo antes de serem conhecidos elementos concretos da investigação, o certo é que a vantagem de Hillary Clinton nas sondagens – que chegou a superar dez pontos percentuais após a divulgação de gravações de conversas sexistas do adversário – encolheu ao ponto de haver suspense quanto ao desfecho da noite eleitoral desta terça- -feira (madrugada de quarta em Portugal).

Segundo o especialista em sondagens Nate Silver, autor do site FiveThirtyEight, as hipóteses de um triunfo de Donald Trump estavam em 34,1 por cento à hora de fecho desta revista, tendo quase triplicado em dez dias. Mas como a eleição do sucessor de Barack Obama não depende da vantagem no número total de votos, e sim de um candidato alcançar 270 ou mais votos num colégio eleitoral em que cada estado (as únicas exceções são o Maine e o Nebrasca) atribui todos os votos ao candidato mais votado, existem 12,3 por cento de hipóteses de que Hillary obtenha mais votos e, ainda assim, fique à porta da Casa Branca.

Chuva de acusações

Da fama de ‘baralhador’ de umas eleições presidenciais que pareciam decididas não se livrará James Comey. Até porque o advogado, descendente de irlandeses, católico praticante e pai de cinco filhos, foi republicano praticamente toda a vida e chegou a procurador-geral-adjunto dos EUA durante a presidência de George W. Bush. Apesar de já não estar registado como eleitor do Partido Republicano, o diretor do FBI enfrenta acusações de favorecimento, e o próprio Barack Obama deixou claro que não ficou satisfeito com a intervenção nas vésperas do dia 8 de novembro.

Com a maior parte dos meios de comunicação social a declarar apoio – ainda que por vezes relutante – a Hillary Clinton, abundam as críticas a Comey. "O objetivo pode não ter sido ajudar Donald Trump, mas sim preservar as maiorias republicanas no Congresso [Senado e Câmara de Representantes], que de repente pareciam ter ficado em perigo", defendeu Andrew Rosenthal nas páginas do ‘The New York Times’.

Fosse qual fosse a intenção do diretor do FBI, Donald Trump não perdeu tempo a aproveitar o anúncio que ele fez a 28 de outubro para lançar farpas à adversária. "Isto é maior do que o Watergate", repetiu várias vezes num comício, referindo-se à investigação jornalística que conduziria à demissão, em 1974, do então presidente (republicano), Richard Nixon. Carl Bernstein, um dos dois jornalistas que investigaram o escândalo para o ‘The Washington Post’, escreveu no Twitter que os dois casos não são comparáveis, sem deixar de referir a "gestão imprudente e mentirosa" do servidor de correio eletrónico da parte de Hillary.

Nada equidistante quanto aos dois candidatos à Casa Branca, Adam Serwer deixou um apelo no site da revista ‘The Atlantic’: "Não deixem o FBI decidir a eleição." Recordando que W. Mark Felt, o famoso ‘Garganta Funda’ que revelou detalhes do caso Watergate a Carl Bernstein e Bob Woodward, agiu por vin-gança, pois fora ultrapassado na ascensão à liderança da agência federal de investigação, escreveu que as ações de James Comey "ameaçam a democracia americana tanto quanto as propostas autoritárias feitas por Trump".

Entre os apoiantes dos democratas, há quem aponte o dedo a Comey por não in-vestigar as supostas ligações da candidatura de Trump à Rússia, cujos serviços secretos teriam entrado na conta de email de Hillary e feito chegar toda a informação à Wikileaks – o que foi desmentido pelo próprio Julian Assange –, mas agentes do FBI ouvidos pelo ‘The Wall Street Journal’ também se queixaram daquilo que consideram ser a falta de vontade dos superiores hierárquicos para investigar o financiamento da Fundação Clinton.

Suspense até ao fim

Mesmo sem apoio de membros destacados do próprio partido – os ex-candidatos presidenciais John McCain e Mitt Romney declararam que não irão votar nele, o ex-presidente George H. W. Bush fez saber que será um dos eleitores de Hillary e o ex- -secretário de Estado Colin Powell deixou-o bem claro –, Donald Trump mantém hipóteses de triunfar, ainda que o favoritismo continue do lado de quem pode ser a primeira mulher eleita presidente dos EUA.

Para a decisão nacional – e em estados decisivos, como Florida, Ohio, Virgínia, Carolina do Norte, Pensilvânia e Colorado –, vão contribuir vários fatores, um dos quais a mobilização dos eleitorados--tipo dos partidos hegemónicos nos EUA. A vitória de Trump seria clara caso só votassem homens brancos, mas as mulheres brancas com frequência universitária reveem-se em Hillary. Como é habitual, praticamente todo o eleitorado negro votará no candidato do Partido Democrata. Mas mesmo aí há problemas para quem tinha até há poucos dias garantida a Casa Branca. Esses eleitores, essenciais para as duas vitórias de Obama, podem faltar-lhe. Basta verificar que a percentagem de negros entre os eleitores que optaram pelo voto antecipado desceu 16 pontos percentuais na Carolina do Norte e dez pontos na Florida.

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