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Correio da Manhã

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'O Nosso Reino' não é para esses miúdos

Plano Nacional de Leitura reclassifica livro que o autor nega ser um “chorrilho de perversões”
Leonardo Ralha 5 de Fevereiro de 2017 às 15:00
‘O Nosso  Reino’, de Valter Hugo  Mãe, estava recomendado para o 3º ciclo até ter chocado pais de uma escola lisboeta. Responsáveis do Plano Nacional de Leitura garantem que foi só um erro
‘O Nosso Reino’, de Valter Hugo Mãe, estava recomendado para o 3º ciclo até ter chocado pais de uma escola lisboeta. Responsáveis do Plano Nacional de Leitura garantem que foi só um erro FOTO: Pedro Catarino

Foi publicado pela primeira vez em 2004, reeditado em 2011, já depois de o autor receber o Prémio José Saramago, e nas livrarias encontra-se uma edição de 2015, mas nunca se falou tanto de ‘O Nosso Reino’, primeiro romance de Valter Hugo Mãe. A revolta de pais da Escola Secundária Pedro Nunes, em Lisboa, com a linguagem de cariz sexual no livro recomendado a alunos do 3º ciclo do Ensino Básico (entre 12 e 15 anos) levou os responsáveis do Plano Nacional de Leitura (PNL) a deixarem a garantia de que tudo não passou de um erro e que a obra foi sempre recomendada ao Ensino Secundário.

Não é a primeira polémica. ‘O Que Dói às Aves’, de Alice Vieira, teve de ser retirado do PNL em 2012, pois o livro de poemas de amor para adultos era sugerido a alunos do 2º ano do Ensino Básico. Na altura, a escritora disse que "a ideia que passa é que nem sequer olharam para o livro", mas foi negado que o erro, cometido em 2009, se devesse à conotação da autora com livros infantis.

Contactado pela ‘Domingo’, o comissário do PNL, Fernando Pinto do Amaral, defendeu que dois casos "em centenas de livros e dezenas de listas não é muito grave". Mas sublinhou, referindo-se aos dois critérios principais para a inclusão, que em ambos não esteve em causa a qualidade literária das obras e sim a adequação à faixa etária de alunos para que apareciam recomendadas.

Entre os princípios definidos para os livros recomendados para leitura autónoma (em casa) e para sugestões de leitura, é aconselhado aos adultos responsáveis pela escolha das obras que as leiam, "para verificar se o assunto é adequado ao nível do desenvolvimento do leitor", "apreciar a linguagem presente no livro, recusando o que é infantilizante ou o que vai exigir uma capacidade de interpretação desfasada das competências" e "avaliar em que medida o livro escolhido vai ao encontro dos valores que desejamos para as crianças ou jovens leitores".

Não foi o que alguns pais de alunos do 8º ano da Escola Secundária Pedro Nunes acharam quando leram passagens de ‘O Nosso Reino’, nomeadamente aquela em que um personagem se refere à tia de outro como "uma mulher tão porca que f*** com todos os homens e mesmo que tenha racha para f**** deixa que lhe ponham a pila no cu". Admitindo que "não tinha noção de que o livro estava recomendado para aquela faixa etária", Valter Hugo Mãe disse à ‘Domingo’ que "é legítimo que os pais se aflijam, como é legítimo que os alunos queiram ler e que os professores aconselhem a leitura". Mas acrescentou que "as pessoas já nem se lembram do que é ter 14 anos e não perceberam o que é o PNL".

ONZE A ESCOLHER
A lista de livros recomendados para leitura orientada na sala de aula (do 1º ao 9º ano) e para leitura autónoma é alterada todos os anos e a iniciativa parte das editoras, que enviam as novidades. "Não são leituras obrigatórias. Os professores fazem contratos de leitura com os alunos, mas esses livros não fazem parte do programa e não há perguntas nos exames", ressalva Fernando Pinto do Amaral, comissário do organismo dependente do Ministério da Educação que conta com 11 especialistas para avaliar a qualidade literária das obras propostas e apontar a faixa etária a que se destinam.

Os 11 titulares, que recebem cerca de 100 euros mensais, são Alexandra de Nagy, especialista em educação para adultos; Amélia Bárrios, ex-coordenadora da Escola Superior de Educação de Lisboa; António Carlos Cortez, poeta e crítico; Eugénia Vasques, crítica e coordenadora da Escola Superior de Teatro e Cinema; Fernando Azevedo, professor universitário especialista em literatura infantil; José Mário Silva, jornalista e crítico literário; Leonor Riscado, professora da Escola Superior de Educação de Coimbra, especialista em literatura infantil; Marta Torres, professora de História; Miguel Monteiro de Barros, presidente da Associação de Professores de História; Rui Marques Veloso e Violante Magalhães, ambos especialistas em literatura infantil.

As novas entradas, que andam à volta de meia centena, são definidas até junho ou julho, integrando a lista válida no ano letivo seguinte. Para as editoras, além do potencial de venda decorrente da indicação por pais e professores, o selo do PNL na capa é um sinal de prestígio que leva a abusos. "Tem havido casos, mais no passado, de editoras que põem selos em livros que não estão nas listas", admite Pinto do Amaral.

As retiradas de livros são raras, podendo dever-se à descoberta de erros que lhes retiram qualidade. No caso das obras de autores de língua estrangeira o rigor da tradução é um critério que se alia ao mérito literário, qualidade estética e revisão. Mas Pinto do Amaral avança outra possível razão para a saída de um título. "Se estiver esgotado há muito tempo, fazemos essa menção ou retiramos. Mas é algo que fazemos com relutância, porque às vezes pode ser encontrado em algumas livrarias ou encomendado à editora, que ainda o tem no armazém."

CRITÉRIO DIFÍCIL
Quanto às razões que levam uma ou outra obra a ser considerada inapropriada para certas idades, os critérios são discutíveis. As menções sexuais no universo da infância de ‘O Nosso Reino’ não serão muito diferentes da crueza de Jorge Amado a descrever a sexualidade dos jovens da Bahia em ‘Capitães da Areia’, o que não impede o clássico da literatura brasileira de ser leitura autónoma para alunos do 3º Ciclo do Ensino Básico. "Está lá e faz sentido estar", diz o comissário do PNL.

Também Valter Hugo Mãe recorda que "‘Os Maias’ contam a história de um incesto e o Gil Vicente não escreveu menos palavrões do que eu", lembrando que muitos livros hoje unânimes "demoraram muito tempo a entrar nas escolas". Para o autor de ‘O Nosso Reino’, "se deixarmos ao critério dos pudores dos pais, não estudamos absolutamente nada", e embora seja legítimo que eduquem os filhos como entenderem em casa, "os jovens não se formam a ler histórias de gnomos e de unicórnios".

A única consequência positiva que encontra na polémica é a atenção dada a um dos seus livros menos lidos, ao ponto de a edição de 2015 não ter vendido 1500 exemplares. "Muita gente diz que ainda não leu e que agora é o momento", diz Valter Hugo Mãe, garantindo que quem o fizer não se escandalizará. Convicto de que as passagens que chocaram alguns pais "são um extremo a que se opõe o narrador e a energia do livro" e de que "não é legítimo que as pessoas criem juízos sem estarem informadas", lamenta que se esteja "a generalizar a ideia de que o livro é um chorrilho de perversões".


DESCUBRA AS DIFERENÇAS

‘O Nosso Reino’ Valter Hugo Mãe

Sugestão leitura para alunos do Ensino Secundário

"É maricas, sabes, maricas não é de ter medo, esses são os medricas, maricas é querer meter coisas no cu. Estávamos sentado na margem do rio, num lugar seco e pedregoso que permitia que não nos sujássemos, e eu sorri nervoso, a espanar as calças como um rapaz bem comportado, e disse, estás a gozar, estás a inventar isso, és um parvo, mas a sua impiedade era tremenda, afastou-se um pouco de nós e preparou o seu veneno, e a tua tia sabes de que tem cara, de p***, sabes o que é, uma mulher tão porca que f*** com todos os homens e mesmo que tenha racha para f**** deixa que lhe ponham a pila no cu. Sem precisar, sabes, só porque é porca deixa que lhe ponham a pila no cu e até na boca."

‘Capitães da Areia’ Jorge Amado

Leitura autónoma para o 3º Ciclo do Ensino Básico

"Pedro Bala tinha pena, mas o desejo estava solto dentro dele. Então propôs ao ouvido da negra (e fazia cócegas a língua dele):

- Só boto atrás.

- Não. Não.

- Tu fica virgem igual. Não tem nada.

- Não. Não, que dói.

Mas ele a acarinhava, uma cócega subiu pelo corpo dela. Começou a compreender que se não o satisfizesse como ele queria, sua virgindade ficaria ali. E quando ele prometeu (novamente sua língua a excitava no ouvido) se doer eu tiro... ela consentiu.

- Tu jura que não vai na frente?

- Juro.

Mas depois que tinha-se satisfeito pela primeira vez (e ela gritara e mordera as mãos), vendo que ela ainda estava possuída pelo desejo, tentou desvirginá-la. Mas ela sentiu e saltou como uma louca." 

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