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Correio da Manhã

Domingo
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O risco de pensar

Em ‘Nova Teoria do Mal’, Miguel Real faz a defesa da classe média – a que pode assegurar um equilíbrio entre o desenvolvimento e o humanismo
Francisco José Viegas 1 de Julho de 2012 às 15:00
Contra o tempo
Contra o tempo

Miguel Real é um dos pensadores portugueses mais originais e um dos que saboreia com mais alegria os caminhos estreitos junto dos abismos. Esse risco levou-o a escrever romances "interpretativos" da história de Portugal, como ‘A Voz da Terra’ (2005) ou ‘O Último Negreiro’ (2007) ou a curta e indignadíssima novela ‘O Último Minuto na Vida de S.’ (2007), uma abordagem mental, sociológica e cultural de uma das últimas grandes histórias de amor da vida pública portuguesa, a relação entre Snu Abecassis e Francisco Sá Carneiro.

A TESE

A esse ‘prazer do risco de pensar’ não são alheios, certamente, os seus motivadores estudos sobre Eduardo Lourenço e Agostinho da Silva – nem um trajecto literário onde encontramos um título tão fundamental e emblemático como quase marginal na sua bibliografia, como ‘A Verdadeira Apologia de Sócrates’.

O ‘mal’ tem suscitado a diferentes autores reflexões morais, políticas, estéticas e leituras sobre a sua passagem na história da humanidade. Miguel Real encara um mal quase exclusivamente português no seu prefácio ("a revolta pelo estado ético de Portugal") o que, levando-o a cometer uma injustiça de análise (o caso dos transplantes, citado através de uma interpretação errónea), o transporta também para o terreno do concreto, alertando, como Hannah Arendt, para a "banalidade do mal", um mal sustentado pelo próprio sistema social e político, num país cujas classes dominantes se reproduzem a si mesmas nos últimos dois séculos, na indústria, na Banca, na cultura, na universidade, no exercício real do poder e no controle da administração.

As perguntas deixadas são lancinantes: "Como foi possível que deputados, primeiros-ministros, presidentes da república, ministros da economia, do trabalho, das finanças, da agricultura, tivessem feito tanto mal a um país desde finais da década de 90, continuando a ter uma vida pública com um sorriso na cara como se a sua obra tivesse sido boa (…)?"

A tese de Miguel Real é equilibrada, sensata, moderada, liberal: "Apenas a classe média pode assegurar um equilíbrio entre o desenvolvimento e o humanismo." O que lhe falta, aqui e ali, em realismo ou contextualização na análise económica (política de preços e intervenção do Estado na economia, por exemplo), assalta-nos de seguida com uma leitura do "apodrecimento" de uma sociedade desertificada, sacrificada aos altares do Estado, e das grandes corporações.

Mas há também uma ideia radical a sobrevoar estas páginas (tal como no recente livro de José Mattoso): a de que é necessária – e urgente – uma alteração no modo de vida português, um regresso a certas formas de espiritualidade e de cultura. É nesse lugar que Miguel Real, situando-se para lá do confronto esquerda-direita (em moldes clássicos, parlamentares, europeus), chama a atenção para a necessidade de cultura, para a necessidade de paisagem, de humanidade – bem como para a tríade que acompanha a vida política desde a década de oitenta: oportunismo, espertismo, indiferentismo. 

Editora: D. Quixote

190 páginas


MÚSICA: FESTIVAL AO LARGO

Esta semana, para contrariar, música clássica quando os decibéis se preparam para rock de norte a sul. Comecemos pelo Largo de São Carlos em Lisboa, o início do Festival ao Largo: a Sinfónica Portuguesa com Rimsky-Korsakov (‘A Noiva do Tsar’), Tcheikovsky e George Ghershwin (António Rosado ao piano). Direcção de António Vassalo Lourenço.

Data: Quinta-feira (21h30)

MÚSICA: ‘HOMMAGE À SUGGIA’

Relembrar Guilhermina Suggia (e ler o romance homónimo de Mário Cláudio) com Michael Petrov, o violoncelista vencedor do Prémio Suggia/Casa da Música, que vem interpretar, com a Sinfónica do Porto, o Concerto para violoncelo e orquestra de Dvorak. Há ainda a ‘Eroica’, deBeethoven, a 3.ª, e a ‘Marcha para o ImperadorFranz Joseph I’.

Data: Sexta-feira (21h00)

MÚSICA: FESTIVAL DE SINTRA

Imaginemos um passeio pela serra de Sintra, como pede a literatura – freixos, carvalhos, pinhais, carreiros rente às escarpas. Um lanche de queijadas. E o piano de Artur Pizarro ao princípio da noite, no belíssimo Palácio Nacional de Queluz, para encerrar o Festival de Sintra: Joseph Haydn, Mozart, Schubert e Johann Nepomuk Hummel. Coisas que se merecem.

Data: Dia 8 (21h30)

FUGIR DE...

CASA

O Verão promete labaredas descomunais e calores perpétuos; com ele, os grandes apetites da estação: esplanadas, festivais aqui e ali merecem atenção (não todos, porque há limites), figueiras no quintal, vinhos leves, praias que têm saudades de nós, jardins que recuperam a frescura da tarde, livros folheados com preguiça, passeios nocturnos pelas ruas do bairro. Fuja de casa. Sucumba à tentação, fuja de casa.

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