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Correio da Manhã

Domingo
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O sol nasceu mas a noite não acabou

As discotecas que abrem de manhã estão na moda. Os chamados after hours provam que as noitadas já não são o que eram.
15 de Abril de 2012 às 00:00
Europa, Oslo e Copenhaga são os after hours da moda
Europa, Oslo e Copenhaga são os after hours da moda FOTO: Diogo Pinto

A aurora fura o céu com migalhas de sol. Os resistentes da noite defendem-se da minúscula luminosidade com óculos de lentes escuras. Os derradeiros cartuchos podem ser queimados, mesmo quando o final da madrugada é quase dia. Para felicidade da boémia, existem discotecas no Cais do Sodré , em Lisboa, que não se limitam ao horário tradicional; fecham às quatro da matina e reabrem duas horas a seguir para ficarem abertas até, pelo menos, às dez da manhã.

O vocábulo inglês ‘after’ [‘depois’], a girar em letras garridas nas paredes das velhas boîtes a precisarem de Robbialac, já traduzira a continuação da festança daqueles que não se ralam com as horas para castigar as solas a dançar, beberem de copo, cheirarem e mastigarem tudo, tudo, menos flores e chicletes.

A fila no Europa não é igual à das Finanças. Todos desejam lá entrar. Enquanto as portas não escancaram, um ‘mitra’ leva dez dedos aos bolsos e atira de olhos vermelhos: "Queres pastilhas?" Não, obrigadinha. Só as inocentes da marca Gorila, de vez em quando. O negócio não ficou por fazer; uma moça a cambalear atina o passo, compra o produto e esbarra com um rapaz a precisar de um gole de cerveja para amparar o vómito. O fígado acaba por resmungar numa cantoria gregoriana. Não há azar; o antebraço serve de guardanapo. O tempo não deve ser perdido com higiene; o Europa acabara de abrir e o mundo endoudece.

O INÍCIO ÀS 05H57

A porteira dá os bons-dias e recebe seis euros pela entrada. Sorte; estar sóbrio oferta uma, duas borlas. Passam três minutos das seis da manhã, mas o ambiente lembra o auge da meia-noite bem-disposta. As quatro mãos dos barmen não são suficientes para satisfazer a gula da clientela. Água resolve os pastilhados disciplinados, trintões sorvem gins e uísques como se as bocas fossem aspiradores e a juventude oferece o cóccix e cinco tostões por litros de cevada fermentada.

A cerveja é quem mais ordena num espaço apinhado de gente que mexe o corpo à cadência confusa e contagiante de música do tipo do martelo. Pum, pum, pum, e de novo, pum.

 


Braços desconcertados oscilam para cima e para os lados, inclusive vão a baixo. Ninguém olha para ninguém com a régua da censura e os códigos do engate nascem com atrevimento.

Não existem avaliações e tudo está sempre ok, cool e acelerado, sobretudo com a ajuda da cocaína ou de aditivos. Às criaturas que não foram providentes sobra-lhes a possibilidade de negociar com um sujeito de cotovelo encostado no bico da mesa alta, magro de físico e forte a convencer nos preços. O alemão, que regressaria a Hamburgo ao meio-dia, preveniu-se. Trouxe a mala de viagem nas costas, brinda ao cabeleireiro da chanceler Merkel e o pó veio nas calças.

Uma namorada enciumada chega de narinas dilatadas, talvez necessitasse de dose extra. Procura o parceiro no meio da pista, onde uma agulha faria mossa. Funga, funga. Não o encontra. Um substituto larga os lábios da calmeirona da ocasião, consola os ciúmes com um beijo francês, depois derrapa na descida das mamas e entorna uma imperial no fato de treino da obesa que passa.

O elegante e conhecido humorista não soube disfarçar a dificuldade em manter a pestana acesa, muito embora tivesse razões para não as apagar: duas mulheres de vestidos da medida da garganta insinuavam-se, descaradas. O humor respondia como podia; passos de dança com direito a apalpadelas. Nem assim. Adormeceu de joelhos ao balcão. Acordou sentado com uma língua na orelha.

Os líquidos despertam os rins, mas não é somente essa razão que faz dos sanitários um ponto concorrido. É verdade que os lavabos têm um semáforo – o segurança, cujo tronco concorre com uma árvore da Amazónia – contudo, os sortudos que ultrapassarem o sinal vermelho transformam uma sanita na via verde do delírio: inalam riscos de branca, derretem comprimidos na saliva ou praticam sexo em voz baixa.

‘BEM BOM' DAS DOCE

Grande, grande é a música dos anos 80 que estoira a acústica do pequeno Copenhaga. Três homenzarrões inspeccionam a cara da multidão que se aproxima e, justiça lhes seja feita, não há alma que fique a chuchar no dedo. Todos são bem-vindos ao ‘after’ mais cobiçado da capital.


Tamanha era a folia que não é disparate nenhum dizer que o primeiro sábado de Março parecia de réveillon. Barretes dourados enfiados nas cabeças. Gravatas enroladas nas testas. Copos de plásticos a tentarem equilíbrio no nariz.

Rastas de cabelo sem saudades de champô, yuppies ‘charrados’ de farpela às riscas, mulheres de calças justas com padrão tigre equilibram os tacões no ombro alheio, outras de saias pela rótula mexem o esqueleto à moda antiga e muitas de camisolas a realçar a copa do sutiã fumam de boquilha, empregados do Tokyo saboreiam um ‘fino’ fora de serviço, poucos homens de barba rija e bastantes fracos na linguagem, resmas de jovens em delírio e, até, alguns ‘betos’ do Restelo aparvalham-se diante da festa de arromba.

"Que giro que é!", exclama a loura nos tímpanos de um tal Bernardo. É giro é, principalmente depois de dar um inocente apalpão ao rapaz a quem a pressa de comprar um maço de tabaco lhe fez descair os boxers às bolinhas dos jeans.

Uma bebedeira sem cigarros e sem droguinha é o inferno, garante um engenheiro de umas obras que, a bem da nação, ainda não foram concretizadas.

Por nascer estava também o bebé que uma grávida carregava no ventre. Dançou as Doce com energia. No êxito de 1982 o ‘Bem Bom’ começava às duas da manhã e terminava às oito da manhã. Pois. Mas o festival no Copenhaga vai mais além.

Ninguém pára a música e o baile continua, mesmo com o relógio a avisar de que trinta minutos haviam zarpado das sete da manhã. E então?!

Consome-se muito de tudo o que venha de taça cheia; a freguesia não é esquisita, talvez a cerveja faça braço-de-ferro com os shots de sabor a manga que, segundo conhecedores da matéria, resumem a arma ideal para dar um chuto no traseiro da ressaca. De frente, como a íris consente, constata-se que a crise, afinal, é uma desconhecida. Os vícios esgotam as notas dos multibancos da área. A troika que saiba.


COMO AMY WINEHOUSE

Os ‘Abba’ são suecos, Portugal é uma república, mas é no Oslo que ‘Dancing Queen’ provoca exaltação nos espíritos que da lei do cansaço não se vão rendendo. Ir embora sem experimentar o último comboio dos ‘afters’ indica que se perdeu a carruagem.

No antigo ponto de encontro de marinheiros, espiões e prostitutas não há seguranças com músculos inchados. A entrada é livre, mas merecia – palavra de honra – ser paga. Não é fácil encontrar idêntica passerelle de figuras. Travestis de minissaias de licra com malhas nas meias e sapatos de ponta afiada. Indivíduos com semblantes similares de Putin vestem casacos negros de cabedal, sentam-se de pernas abertas e, para exibir virilidade, trauteiam refrãos em tom baixinho.

Damas com a maquilhagem a escorregar no rosto desafinam à grande numa pista de dança minúscula. Por um triz, duas não tombam do quinto andar das sandálias. Por outro triz, a mais entornada não fica com o vestido nos calcanhares.

Homens com indubitáveis caras de ‘totós’ riem da cena, esfregam o ego no pano da estupidez. Se o tecido tivesse, de facto, chegado ao chão, não saberiam o que fazer ao material. Salva-os a Gloria Gaynor.

Até o moribundo cabeludo, uma espécie de hippie que roncava com os dentes de fora, levanta-se da tumba, iça os braços, entorna cerveja nos ténis sem atacadores e, num mar de baba, balbucia: "I Will Survive".

É uma incógnita. Sobreviver, ele, naquele lindo estado, "no, no, no", diria a Amy Winehouse.

A certeza para que uma balzaquiana regresse a casa composta é uma e só uma: urgente aguentar a bexiga. A casa de banho não alvitra bons costumes. Subir um lance de escadas induz a possibilidade de que a descida não dependerá apenas de Deus.

O dia nasceu inteiro. Dez da manhã. Os óculos de aros ao estilo Amália escudam um par de olhos encarnados de fumo. O mitra segue na venda. "Queres pastilhas?" Não. Não. Só Gorila. 

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