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Os novos fantasmas de velhos amigos

Ao escolher uma mulher para interpretar o papel de herói, inverte os papéis/géneros.
Joana Amaral Dias 21 de Fevereiro de 2010 às 00:00
Os novos fantasmas de velhos amigos
Os novos fantasmas de velhos amigos

'Kill Bill’ e a sua história da noiva assassina marcou o cinema da década zero. Quentin Tarantino é, como Lars von Trier, um cineasta do Velho Testamento. Os seus enredos alimentam-se da vingança (veja-se o recente ‘Sacanas sem Lei’). Aliás, olho por olho é um tema que mobiliza sentimentos primários tanto em telenovelas como em policiais ou melodramas e, na verdade, as referências deste autor não partem da realidade, mas de outros filmes.

As suas personagens habitam os ecrãs desde sempre. São arquétipos de personagens, hiperpersonagens recortadas doutras películas, filtradas pelo realizador. É como se Tarantino pintasse uma pessoa não a partir do modelo vivo, mas baseando-se nos seus retratos. Aliás, a protagonista não tem pais no mundo real. É descendente em linha directa das personagens de Bruce Lee e Clint Eastwood.

‘Kill Bill’ I & II podem ser vistos como objectos revisionistas. Só que não é necessário conhecer as múltiplas citações que encerram, desde o cinema de Sergio Leone a Brian De Palma. Mesmo quem não viu esses filmes e séries vive rodeado por alusões a esses imaginários dos anos 60 e 70. Os mais novos reconhecem ‘Kill Bill’ enquanto objecto retro. Os mais velhos foram testemunha da época.

E aqui reside o ponto nevrálgico do trabalho de Tarantino. O cineasta agita o caldo da cultura dominante. Mas nunca

chega a transbordar. Cavalga uma onda tanto transgressora como conservadora. Em ‘Kill Bill’, ao escolher uma mulher para interpretar o herói vingador, inverte os papéis/géneros. Pode ser apenas um modo de reinventar o casting. Talvez se trate de feminismo involuntário. Seja como for, morto o Super-Homem, o realizador cria a Super-Mulher do século XXI. Muda-se o sexo do mito, mas os seus valores permanecem os mesmos: cá se fazem, cá se pagam. E assim é Tarantino: tanto abutre, como anjo redentor do sistema.

FICHA

Título: ‘Kill Bill’

Realizador: Quentin Tarantino

Intérpretes: Uma Thurman, Lucy Liu, Daryl Hannah e David Carradine

DVD

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