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Correio da Manhã

Domingo
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Os Pereira do Canadá

Chego com 16 graus negativos e uma desilusão para inaugurar o livro de reclamações. Depois do turismo empacotado das Cataratas do Niagara, o calor humano da família Pereira parece-me a oitava maravilha do Mundo.
17 de Fevereiro de 2008 às 00:00
Dois pares de meias e duas camisolas térmicas sobrepostas, casacão, leggins, calças, botas de neve, cachecol, luvas, barrete. E nem assim consegui suportar por mais de 20 minutos as Cataratas do Niagara. Um vento gélido de 10 graus negativos faz da cidade, pela manhã, um fantasma pálido onde circulam automóveis ocasionais e o frio seco passa-me pelo corpo mediterrânico, deixando-o paralisado.
Depois de instalada num motel vou à procura das famosas cataratas. São imponentes, mas uma desilusão. No meio do betão turístico parecem aprisionadas. Lembram-me aquelas meias-bolas que se abanam para fazer cair neve em paisagens-miniatura com aspecto falso.
Imagino que tenham tido outra natureza quando não havia em seu redor uma feira popular de divertimentos que inclui museus de cera, mundos de fantasia e a habitual variedade de templos antidieta, a réplica do Frankenstein a mordiscar um hambúrguer.
Como pouco mais há de interessante para fazer do que observar famílias inteiras a empanturrarem-se e a visitarem o Museu de Cera das Lendas do Rock, passo o resto da tarde barricada no quarto, a tentar descongelar.
À noite tenho a excelente intenção de ir ver as Cataratas iluminadas, mas mal ponho os pés na rua, 500 metros andados, volto para trás com o cabelo polvilhado de gelo. Para compensar, como um cookie gigante de chocolate.
De manhã apanho o autocarro para Toronto. À minha espera na estação estão João e Teresa Pereira, açorianos do Faial a quem venho recomendada.
Emigrados nos anos 50 - “Antes do Vulcão dos Capelinhos” – são o típico casal de reformados canadianos. Não fosse o falarem bem a nossa língua e o comerem caldo verde numa janota casa em Mississauga, a 20 km de Toronto, ninguém diria que são portugueses.
Tanto como os 60 mil que vivem em Mississauga e os mais 70 mil que habitam em Toronto, com direito a nome numa rua que nunca acaba e que é conhecida como The Portugal Village.
Em Mississauga habita a comunidade mais ‘posh’ de emigrantes: “Quando melhoram a qualidade de vida, as pessoas deslocam-se de Toronto para esta zona periférica”, haveria de explicar-me nessa tarde Monsenhor Rezendes, responsável há 32 anos pelo rebanho lusitano (e não só) da paróquia do Santíssimo Salvador do Mundo.
Foi assim também com os Pereira. Há bem mais de uma década mudaram-se para aqui. Bem longe vai o dia em que João saiu do Faial, deixando Teresa, grávida: “Resolvemos arriscar...”
Risco que a João custou dois meses de fome, frio e trabalho duro numa quinta dos confins do Canadá: “Ficava numa ilha, a minha safa para não morrer de fome era roubar leite às vacas durante a noite.”
Até que escapou de vez da condição de ilhéu e arranjou maneira de se ‘amanhar’ em Toronto, trabalhando nisto e naquilo, trazendo o resto da família, construindo, nos anos 70, o seu próprio negócio no ramo das limpezas.
Hoje, uma vida desafogada permite-lhe, e a Teresa, fazer cruzeiros nas Caraíbas, vestir smokings em ocasiões especiais, ter bilhetes para os jogos dos Toronto Maple Leafs, a equipa local de hóquei no gelo pela qual toda a família torce. Incluindo Maria, a prima faialense que vive com o casal e que, com toda a propriedade, comenta as incidências do jogo enquanto faz croché.
Apesar de enraizados, João e Teresa não dispensam uma ida anual ao Faial. É lá que moram parentes e recordações. É lá que João guarda o seu brinquedo. O cavalo Bombita que me apresenta estampado na caneca do chá.
A TARDE DE DOMINGO
A tarde de Domingo passada entre o Portuguese Cultural Centre of Mississauga e uma das duas igrejas da paróquia, é quanto basta para fazer o retrato-robô da comunidade portuguesa: “Somos muito unidos”, resume Gilberto Moniz, presidente do centro cultural, “sem olhar a distinções entre ilhéus e continentais.” Fundado em 1974, o centro é o maior catalisador de actividades culturais, desportivas e sociais na região, administrando escolas de inglês e de português, um rancho folclórico, uma equipa de futebol, uma biblioteca e um “grupo de 60 seniores que cozinham, almoçam e jogam às cartas”. As receitas vêm das quotas dos mais de mil sócios, do aluguer do salão e das festas com cantores de nomes sonantes: Jorge Ferreira, Fernando Pereira, Ágata, Ruth Marlene.”
A comunidade é activa socialmente, movimentando-se entre as padarias e demais comércio gerido por portugueses, o centro cultural e a igreja. “As pessoas aqui são mais fiéis que na origem”, conclui Monsenhor Rezendes que há 13 anos se viu obrigado a construir segunda igreja. Além disso, a paróquia é multicultural, sendo frequentada por católicos das Filipinas, Sri Lanka e Índia. De entre as onze missas que completam o fim-de-semana, três são em inglês: “Estão a aumentar por causa dos descendentes de portugueses, a segunda e a terceira geração. Actualmente, 95 por cento dos casamentos e baptizados são em inglês e 95 por cento dos funerais em português.”
Realidade que também se adequa aos Pereira, netos e bisnetos, incapazes de entenderem a língua materna dos avós: “Nós falamos com eles em inglês”, desculpa-os João, durante uma subida à CN Tower, o ‘cartão’ de Toronto.
De um lado o Lago Ontário, semicongelado, parece dormir, do outro a cidade alonga-se monótona e moderna com cores de Inverno: “É uma vista maravilhosa, mas devias ter vindo no Verão.” Pois devia, penso, roxa de frio, sonhando já com o sol da Califórnia. Faltam 3 dias de viagem e 5 mil quilómetros para San Francisco, passaporte para a felicidade térmica.
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