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Correio da Manhã

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Os pés das estrelas não têm segredos para Luís Onofre

Designer português que calça as estrelas assume em maio a presidência da Confederação Europeia de Indústrias de Calçado.
Marta Martins Silva 17 de Fevereiro de 2019 às 12:00
Luís Onofre
Luís Onofre FOTO: Amândia Queirós

Consta que a milionária Paris Hilton correu o risco de perder um avião porque se esqueceu num hotel espanhol dos sapatos criados pelo designer português Luís Onofre. E que a comitiva que certo dia acompanhava a (agora) rainha Letizia Ortiz na visita a uma conceituada sapataria espanhola tentou demovê-la de levar para casa uns sapatos do mesmo criador – "pretos, salto de seis centímetros e bico fino" – mas sem sucesso. A mulher de Felipe de Espanha não só os levou da loja como desfilou com eles numa cerimónia.

"Foi sem dúvida quem me projetou a nível internacional", lembra o designer de sapatos das estrelas – assim ficou  conhecido  o  também  presidente da Associação Portuguesa dos Industriais  do  Calçado,  agora  nomeado presidente da confederação europeia  do  setor  para  o  próximo triénio,  numa  demonstração  do prestígio de Portugal na indústria.  Onofre sabe-lhes os gostos... e os tamanhos: Paris Hilton calça 40 e só usa sapatos fechados, Naomi Watts usa o 34 e gosta de sapatos muito altos e Michelle Obama – a quem ofereceu em 2010 uns botins abertos, em  castanho  e  com  salto  médio – tem pé grande: 41 é o seu número.

Vinte mil sapatos

Luís Onofre, de 48 anos, cresceu no meio do couro dos sapatos – o avô fundou  a  fábrica  em  Oliveira  de Azeméis, distrito de Aveiro, corria o ano de 1933, e a avó Conceição Rosa Pereira viria a assumir as rédeas da empresa após a morte do marido em 1939 – mas imaginava no futuro vir a ser arquiteto ou decorador.

"Nunca quis sapatos, nem pensar em tal coisa. Mas a partir do momento em que tive contacto com a escola de design em São João da Madeira, onde tirei o curso, e vi o meu primeiro sapato a ser feito, mudei radicalmente  de  ideias."  Foi  em 1993. Seis anos depois, Onofre lançava a marca internacional e começava então a conquistar alguns dos pés mais famosos do Mundo [a atriz espanhola Penélope Cruz, a princesa Vitória da Suécia, a cantora inglesa Joss Stone são outros exemplos de clientes], respondendo a exigências e pedidos mais ou menos bizarros.

"Já me passaram mais de 20 mil modelos pelas mãos , mas o mais extravagante talvez tenha sido um sapato com cinco ou seis mil pedras Swarovski, tão cedo não me meto noutra", brinca. Já o modelo mais caro esteve à venda por "quase três mil euros", revela o criador que exporta 93 por cento da produção e está presente nos cinco continentes.

"O calçado português é considerado dos melhores do Mundo. Somos muito resistentes a adversidades, conseguimos ser muito polivalentes  e  recetivos  a  mudanças tanto na moda como em relação às condições económicas, somos capazes de ir para fora e procurar novos mercados. Mas precisamos de ter mais marcas", sublinha o designer,  cuja  maior  preocupação atualmente é a falta de mão de obra no setor.

"Em todas as áreas, mas a parte fabril é a mais problemática. Área de montagem, de costura, de técnica a nível de modelação, mas também  na  área  de  marketing,  a nível  criativo…  há  um  défice  de gente capaz e já com ‘know how’ de fazer sapatos", lamenta Onofre, que põe vários anúncios à procura de trabalhadores para a sua empresa que ficam sem resposta. "Não sei se será preconceito, muito francamente não sei explicar. Até porque as novas empresas são modernas, esta  é  uma  indústria  completamente diferente do que era há 20 anos. Por isso temos de formar os miúdos desde pequeninos em cidades onde o calçado está implementado e de começar a criar disciplinas mesmo nas próprias escolas dedicadas a este setor."

Ainda que pouco atrativo para os jovens,  o  calçado  criou  nove  mil empregos desde 2010 em Portugal. Segundo os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística, as exportações  aumentaram  0,98  por cento em volume (para perto de 84 milhões de pares), mas recuaram 2,85 por cento em valor (para 1904 milhões  de  euros).  "Isto  tem  que ver com fatores macroeconómicos que não estávamos a contar. O Brexit,  o  protecionismo  nos  EUA,  a China a retrair-se a nível económico. Mas também se deve ao facto de os clientes estarem à procura de novos materiais que sejam mais em conta e por isso acabamos por produzir mais mas faturar um bocadinho menos", conclui Luís Onofre antes  de  se  meter  num  avião  em Itália, onde esteve a participar na maior feira internacional do setor do calçado, com destino a Portugal (no dia seguinte teria a visita de uns clientes  chineses).  "Hoje  em  dia faço  tantas  viagens  que  o  melhor que tenho é conseguir estar um dia ou dois em casa, tranquilo, com a minha família."

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