Barra Cofina

Correio da Manhã

Domingo
9

PÂNICO NA PORNOGRAFIA

A indústria pornográfica norte-americana anda em alvoroço com o aparecimento de actores com testes de HIV positivos. Há quem tenha suspendido as filmagens, em nome de uma fábrica de fazer dinheiro.
25 de Abril de 2004 às 00:00
A bomba estoirou há pouco mais de uma semana nos Estados Unidos. O actor porno Darren James acusou positivo no teste ao HIV realizado pela Adult Industry Medical Health Care Foundation (AIM), fundação de saúde daquela tão peculiar quanto milionária indústria cinematográfica.
O pânico à volta da notícia instalou-se de imediato no sector. O actor negro nascido em 1976, em Detroit, Michigan, possui um currículo extenso e contracenou com centenas de actrizes ao longo dos últimos sete anos. Prova dessa estreita ligação entre a indústria e os muitos centímetros da sua virilidade, ainda há pouco tempo Darren participava com a regularidade de um relógio suíço nas mais variadas películas, e só este ano contam-se pelo menos cinco novos filmes seus, número que fica muito aquém dos 28 em que participou durante 2003.
Quando confirmou a terrível novidade, a AIM tratou de accionar de imediato mecanismos para tentar travar a epidemia. Chegar ao contacto com os produtores dos filmes em que Darren James participou ultimamente foi o primeiro passo. Apesar do esforço há pelo menos uma actriz infectada com o vírus: Lara Roxx, uma jovem de 21 anos oriunda do Canadá e estreante no meio pornográfico de Los Angeles, que terá contracenado com Darren no dia 24 de Março.
Ao que tudo indica, é até ao momento a única mulher infectada pelo actor, já que Dynasty, veterana da pornografia que com ele rodou uma cena um dia depois de Lara, foi diagnosticada com HIV negativo nas análises mais recentes.
O rastreio tem tentado englobar todas as pessoas que participaram em cenas de sexo com Darren James nos últimos tempos, uma tarefa complicada dado o elevado número de filmes em que o actor deu o corpo ao manifesto. Para simplificar a tarefa, a AIM dividiu-as em dois grupos, que designou como de primeira e de segunda geração.
Na primeira geração estão incluídas as actrizes que ‘dormiram com o James desde o seu último resultado negativo no teste de HIV’ – os exames são feitos com uma periodicidade mensal. Por isso, um total de 12 mulheres permanecem numa espécie de quarentena voluntária pelo menos durante dois meses, na angústia para saberem se foram ou não infectadas numa altura em que o actor já estava contaminado.
Mas o número de indivíduos parados chega quase à meia centena. Na segunda geração de actores, por exemplo, a instituição de saúde englobou todos os homens e mulheres que de forma indirecta possam ter apanhado o vírus. Mark Ashley filmou com Patrice Petite, sendo agora um dos nomes dessa lista, pois a actriz tinha contracenado com Darren Jones há muito pouco tempo. “Abandonei o ‘set’ de filmagens mal soube desta notícia. Fui à AIM para saber o que se passa. Estava a rodar um diálogo e era suposto ter a cena de sexo à noite, mas cancelei-a de imediato”, afirmou Ashley. O actor nem sabia que tinha sido incluído numa quarentena, mas mostrou-se receptivo face à medida e disparou: “Para mim tanto faz que seja voluntária ou obrigatória. De qualquer forma, mesmo não sendo imposta, quem é que vai querer trabalhar comigo agora? Vou encorajar os outros actores que estão na mesma situação a honrarem este período.”
PRODUTORAS COM MEDO
Nem só os actores estão de acordo quanto ao cumprimento de um interregno nas filmagens. Produtoras como a VCA, a Cherry Boxxx Pictures, a Red Light District e a Jill Kelly Productions decidiram cancelar as filmagens até serem comprovados os resultados dos testes feitos a todos os actores, uma garantia de segurança que poderá valer muito dinheiro no futuro.
Mas as medidas não se ficam pelo ‘período de nojo’. Jenna Jameson, provavelmente uma das mais conhecidas actrizes da história dos filmes pornográficos, não ficou indiferente a esta fase negra da indústria que a tornou milionária. Dona de uma produtora de películas para adultos, que dirige em conjunto com o marido, Jay Grdina, acaba de criar um fundo de assistência aos actores pornográficos, o Adult Industry Assistance Fund (AIAF).
A nova instituição pretende ajudar monetariamente os protagonistas que neste momento se encontram parados, à espera da luz verde para voltarem às rodagens. Jay Grdina, conhecido no mundo artístico como Justin Sterling, explica tratar-se de um auxílio aos menos abonados, quase sempre os homens, dado que nesta área os salários com muitos zeros ficam para os elementos do sexo feminino. “O dinheiro vai para aqueles que estão numa situação financeira complicada por causa da quarentena, ou para os que perderam o emprego porque as produções em que estavam a trabalhar foram por água abaixo. Muitas pessoas nesta indústria vivem de cheque em cheque, e é justo que neste momento as tentemos ajudar.”
A medida poderá beneficiar alguns dos 1200 actores profissionais que regularmente povoam a indústria pornográfica da Cidade dos Anjos, embora seja de prever que muitos deles optem por dar o seu contributo a endereços electrónicos da Internet vocacionados para o sexo. A lendária actriz Sharon Mitchell – segundo consta participou em mais de dois mil filmes desde 1987 –, está hoje na direcção da AIM e não acredita que a pornografia pare por completo. “Este negócio não fecha pelo Natal. Porque é que vai fechar por dois casos isolados de HIV?”
Conhecedora daquele meio como poucos e sabendo que esta é a primeira vez que um actor é apanhado com HIV desde Tony Montana, em 1999, parece pouco provável que se deixe de ouvir por aquelas bandas a frase: “Luzes, câmara, acção!” É que há muita gente a ganhar milhões com as cenas escaldantes.
Ver comentários