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Correio da Manhã

Domingo
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"Perdi 16 camaradas de uma só vez"

Tentei sobreviver e escapar à fome durante os três anos que estive em Moçambique. Animava os meus camaradas, com partidas, apesar dos momentos mais difíceis que passámos.
1 de Março de 2009 às 00:00
'Perdi 16 camaradas de uma só vez'
'Perdi 16 camaradas de uma só vez' FOTO: d.r.

Embarquei no Niassa para Moçambique a 21 de Abril de 1971, depois de, anos antes, o meu pai ter servido em Lourenço Marques e o meu avô em Mocímboa da Praia, para onde eu iria também. Tive azar logo no embarque: levava a minha mala de cartão e fiquei com a pega na mão e a roupa toda espalhada no chão. Já no barco, reconheci o cozinheiro de bordo, um ex-agente e cozinheiro da PSP de Aveiro. A sua ementa favorita, tanto no mar como em terra, era caldeirada de chicharro, que comia quase diariamente. Uma vez, tinha tanta fome que lhe pedi uma sande, ele disse que não dava porque podia aparecer o comandante. Depois deste episódio, tanto procurámos comida que descobrimos latas de 10 quilos de atum, nos porões. Nunca mais passámos fome. Comemos atum até enjoar!

Durante a viagem atracámos em Lourenço Marques. Tinha um amigo à espera que me mostrou a linda cidade e lindas mulheres. O meu amigo já não me deixou ir dormir ao barco, apresentou-me uma mulher muito bonita, de cor, cabelos longos, pretos e lisos. Acabei por passar a noite com ela, mas, ao deitarmo-nos, tirou a cabeleira e ficou com um cabelo que parecia arame farpado! Mas, digo-vos, foi uma noite memorável!

Seguimos para Mocímboa da Praia. Ficámos alojados num barraco, com telha de chapa de zinco, que tínhamos que remodelar. Só que a verba nunca chegou e as obras também não. Perguntei a mim mesmo o que estava a fazer a milhares de quilómetros de casa. Tratei de arranjar os melhores amigos como enfermeiros, padeiros e cozinheiros. Assim, consegui escapar à fome, comia arroz de polvo, peixe frito e arranjava latas de fruta e leite condensado que, às vezes, distribuía pelos nativos, sobretudo pelas crianças.

O meu primeiro serviço nocturno foi fazer protecção à torre de controlo do aeródromo. Nessa noite, passou uma ave junto a mim, deu-me um guincho aos ouvidos. Apanhei um dos maiores sustos da minha vida.

No Natal de 1971, estava a discursar uma senhora do Movimento Nacional Feminino, durante a ceia, quando fomos atacados. Todos fugiram para os abrigos. Foram três horas de fogo. Reagimos ao ataque atrasados, porque os nossos morteiros não responderam logo. Soubemos depois que foram aqueles que lavavam a roupa que os sabotaram, enfiando roupas nos canos para as granadas não serem picadas. Debaixo de fogo corri para as valas, e não sabendo que alguns camaradas faziam lá as necessidades, imaginem o estado em que fiquei!

Houve um episódio que me marcou, sobretudo por ter perdido 16 camaradas de uma só vez e pela revolta que criou no pelotão. Deu-se um rebentamento de uma mina anticarro com uma bomba napal a reforçar a carga explosiva. Morreram 16 que seguiam numa viatura Berliet. Quando a coluna regressou ao quartel a exclamação do comandante foi para o estado da viatura e não para a perda dos homens. Senti por largos meses o mal-estar e o mau ambiente vivido entre todos os camaradas. Havia dias de tensão. Uma vez, rebentou uma mina que fracturou a perna a um condutor. Eu estava no quartel e vi os meus camaradas chegaram enraivecidos. Carregaram munições contra a ordem do comandante e saíram disparados para o mato descarregando a raiva que tinham.

Quando faltavam dois meses para acabar a comissão, chegou uma nova companhia de rendição. Procurei colegas de Aveiro e encontrei um que ficou pouco tempo. Isto porque se recusou a levar um morteiro, dizendo ao alferes açoriano que não o fazia porque nunca tinha sido apontador de morteiro, nem tinha tido treino de morteiro. Este soldado foi agredido pelo alferes, tendo respondido com a G3 à coronhada. Conclusão: o alferes no hospital e o soldado na prisão de Lourenço Marques. Cumpriu três meses e depois foi dado como tolo e transferido para o Hospital Militar de Lisboa. Foi mais fácil considerar o soldado doente do que acreditar que o alferes tivesse dado uma ordem ilegal.

Também tive algumas peripécias divertidas. Numa noite, estava para chegar um avião e eu estava de prevenção com um camarada de Chaves no fundo da pista de aterragem. Era mais uma vigia como tantas outras que fiz, mas dessa vez quis experimentar o efeito de uma bala tracejante. Então, disparei um tiro na noite e saiu um rasto vermelho. Foi como um foguete de S. João: tudo iluminado! O controlador aéreo deu ordens para o avião não aterrar porque pensou que era um ataque. Foram mobilizados centenas de homens para nos ajudar. Calei-me como um rato e só disse a verdade ao meu alferes à chegada a Aveiro, que me disse: 'Oh homem, desapareça-me da frente!'

Quando me preparava para regressar à metrópole e estava a separar o peso a mais que tinha, pois só podia carregar 25 quilos, chegou ao pé de mim um pelotão de Grupos Especiais, comandado por um furriel branco que me diz: - ‘Toma lá esta caixa de fósforos como recordação’. Aceitei a oferta. Como tive que queimar o excesso de carga, como cartas e outras coisas, decidi usar a caixa de fósforos. Assim que a abri dei-me com duas orelhas de um negro lá dentro. Acabei por queimar o presente macabro também.

Apesar dos momentos maus que passei, procuro lembrar-me do melhor, por isso não podia deixar de recordar a alegria que havia, muitas vezes provocada por partidas minhas. Como quando, num domingo à tarde, o ambiente estava triste assim como o rosto dos homens e eu fui buscar um bombo e uma caixa. Toquei parada fora com um colega. Foi a risada geral.

“Faço programas de humor como sósia do Pinto da Costa”

Durante os três anos que estive em Mocímboa da Praia, a conduzir blindados, senti muitas saudades da minha família e todos os dias lhes escrevia, assim como à minha namorada com quem casei pouco depois de regressar. Tive duas filhas, hoje com 26 e 34 anos, e três netos. Fui vendedor de tintas, estou reformado e faço programas de humor como sósia do Pinto da Costa. Já participei em vários programas televisivos, no Carnaval de Estarreja, em actuações de grupos musicais e concursos. Tenho como companheira uma boneca de 1,70 metros, que se chama Carolina e dança comigo nos espectáculos. Fui eu próprio que a fiz, com a ajuda da minha irmã. Divido o meu tempo entre a frutaria gerida pela minha mulher e os meus netos. Nunca deixo de participar em brincadeiras até porque, apesar de tudo o que passei em Moçambique, sempre fui uma pessoa bem-disposta. Mesmo durante o tempo de guerra, procurava manter a alegria e animar os meus camaradas. Tenho muitas recordações e gostava de reencontrar alguns dos meus companheiros.

'FAÇO PROGRAMAS DE HUMOR COMO SÓSIA DO PINTO DA COSTA'

Durante os três anos que estive em Mocímboa da Praia, a conduzir blindados, senti muitas saudades da minha família e todos os dias lhes escrevia, assim como à minha namorada com quem casei pouco depois de regressar. Tive duas filhas, hoje com 26 e 34 anos, e três netos. Fui vendedor de tintas, estou reformado e faço programas de humor como sósia do Pinto da Costa. Já participei em vários programas televisivos, no Carnaval de Estarreja, em actuações de grupos musicais e concursos. Tenho como companheira uma boneca de 1,70 metros, que se chama Carolina e dança comigo nos espectáculos. Fui eu próprio que a fiz, com a ajuda da minha irmã. Divido o meu tempo entre a frutaria gerida pela minha mulher e os meus netos. Nunca deixo de participar em brincadeiras até porque, apesar de tudo o que passei em Moçambique, sempre fui uma pessoa bem-disposta. Mesmo durante o tempo de guerra, procurava manter a alegria e animar os meus camaradas. Tenho muitas recordações e gostava de reencontrar alguns dos meus companheiros.

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