Barra Cofina

Correio da Manhã

Domingo
2

Revolução sexual

Aplicações de smartphone facilitam encontros sexuais e a separação por género esbate-se.
Marta Martins Silva 1 de Novembro de 2015 às 14:00
Os novos robôs sexuais estão a fazer furor pela sua qualidade
Os novos robôs sexuais estão a fazer furor pela sua qualidade

Os robôs já executam tarefas domésticas, pelo que se prevê que não demorem assim tanto a fazer sexo com humanos. O futurologista Ian Person prevê que em 2050 a robofilia estará em alta, mas não é preciso avançar tanto no tempo para descobrir as netas evoluídas das velhinhas bonecas insufláveis – cada vez mais reais e feitas à medida de cada dono.


Para quem ainda assim prefere carne e osso, as aplicações para telemóvel têm dado uma ajuda. "Conheci um croata em Lisboa. Fizemos match e nem me lembro bem se trocámos mais do que duas frases. Na verdade, estávamos a sair de casa para ir para a mesma festa. Disse-lhe que tinha um chapéu cor de rosa. Divertimo-nos imenso e passámos o fim de semana juntos – terá sido o meu sexual match". Sofia, uma professora universitária de 37 anos, instalou o Tinder, uma aplicação para smartphone
que tem por princípio a seleção de um perfil baseado na imagem e na geolocalização. Basicamente, mostra-lhe quem está por perto e o acha atraente.

A tecnologia tem camuflado a solidão, mesmo que apenas por algumas horas, para públicos hetero ou gay. "Talvez devido ao facto de existirem dezenas de aplicações para encontros gay, o Tinder gay destina-se a algo mais sério e duradouro. Para encontros sexuais, temos apps como o Grindr, Manhunt, Scruff. Já tive cerca de sete encontros via Tinder. Tive uns agradáveis, mas que não geraram frutos devido a falta de química; dois eram assustadoramente diferentes das fotos; e um superou em muito as minhas expectativas, por quem acabei por me apaixonar, e, no fim, namorámos", conta Rui, que com Rute e Alexandre criou o blogue ‘Tinder surpresa’. "Há muitos peixes no mar, mas nunca antes esse mar esteve ao nosso alcance como no Tinder. Podemos escolher da mesma forma que encomendamos pizza", considera Rute, uma economista de 33 anos. A maioria das histórias que deram mote ao blogue "eram de uma amiga que tinha encontros quase diários.

Todos eles eram bem-parecidos. Engenheiros, pilotos, gestores, arquitetos, inspetores, advogados, etc. A nossa amiga encontrou de tudo, até mesmo uma paixão avassaladora que a fez desinstalar o Tinder. Por uns meses". Rute também desinstalou a aplicação:  "Existe também muita exposição pessoal, penso que o facto de estarmos no Tinder nos vulgariza e rotula erradamente: tanto somos uma mera beldade a conquistar entre muitas, aprovada pela imagem, num extenso catálogo, como, por ali estarmos, passamos uma falsa ideia do que procuramos".


"Para quem se quer divertir no jogo da conquista inconsequente, é das melhores aplicações. Mas há algumas frustrações, a primeira relacionada com o facto de não sermos perfeitos. Descobri que tenho um grande defeito: não tenho 1,80m. Cada vez que me perguntavam a altura, eu sabia que podia ser o fim!", diz  Alexandre.

A oferta é tanta que a professora Sofia deu por si a baralhar os encontros: "Quando cheguei, olhei para ele e pensei: ‘o tipo é diferente da fotografia’, ainda por cima estava mal vestido. E disse-me: ‘Olá, desculpa estar
assim meio ensonado, mas trabalhei toda a noite’, ao que respondi: "Mas porque é que um advogado trabalha toda a noite de sábado para domingo?" Ele olhou para mim com cara de parvo: ‘Eu não sou advogado. Na verdade, nem tive tempo para te dizer o que faço, porque tu me convidaste logo para nos encontrarmos. Eu também prefiro assim! Sou condutor de ambulâncias!’. Aí percebi que estava a encontrar-me com a pessoa errada!".


NOVA TENDÊNCIA

por Vanessa Fidalgo

Para Paula Garcia, a honestidade é a máxima de cada novo dia. Vive para poder ser por fora igual àquilo que sente por dentro. E por dentro não se sente nem homem nem mulher. Ou melhor: nasceu menina e gosta de "ser mulher", mas prefere fazer e usar coisas de rapazes e, na maioria das vezes, até parece um deles. Paula é ‘gender-bender’ ou seja, uma pessoa que, no que diz respeito à identidade do género, não pertence nem a um lado nem a outro, antes está no meio.

 

No futuro, garantem os especialistas, a tendência será que as linhas que dividem os tradicionais papéis masculinos e femininos, do quotidiano social à sexualidade, se esbatam. "Apaixonamo-nos por características das pessoas, por formas de ser, por afetos, e se pensarmos bem seria até muito estranho que essas qualidades estejam só do lado feminino ou só do lado masculino", confirma.


No entanto, a opção sexual nada tem a ver com o facto de ser gender-bender. "Geralmente, a homossexualidade ou bissexualidade anda associada. Mas não necessariamente. Há ‘benders’, pessoas que socialmente não se identificam com um lado, mas que na intimidade são hetero", esclarece.

Desde Marlene Dietrich de smoking a Mick Jagger fotografado com as roupas de Marianne Faithfull, à mais recente onda dos manequins transexuais (como a brasileira Lea T ou a bósnia Andreja Pejic), a moda desde sempre estica os novos limites do género. Ou, nesta caso, a ausência deles. O catálogo de verão 2014 da Barneys trazia 17 modelos transgénero, que inclusivamente contavam a sua história pessoal no site da marca, e a inglesa Selfridges, uma das marcas favoritas dos adolescentes, lançou este ano o Agender, que propõe uma nova experiência de compras sem a divisão das peças nas tradicionais secções masculinas e femininas.  "São cada vez mais as pessoas que estão ‘in between’, numa dinâmica que é à escala global e que encontra eco, força e grupo nas redes sociais", conta Paula, que tem 39 anos e uma namorada. Mas "apaixonar-me por uma mulher vem a reboque de ter começado a gostar muito do meu lado feminino, a gostar de ser mulher e inevitavelmente apaixonei-me por mulheres. É uma ligação diferente, onde há mais compreensão. Mas se amanhã me apaixonar por um homem… tudo tranquilo", pois já teve vários namorados rapazes. Paula trabalha atualmente como ‘health coach’, voltou à faculdade e esporadicamente assina trabalhos como modelo, precisamente pela sua aparência andrógena. É também duplo de cinema, onde faz cenas com outra das suas grandes paixões: as motas.


A TECNOLOGIA ESTÁ A ACABAR COM O SEXO ENTRE CASAIS?

Aplicações de ajuda no engate há muitas. Desde as que ensinam as posições do Kamasutra às que ajudam a melhorar a performance no sexo oral (Lick This), há de tudo no admirável mundo novo dos smartphones. Até há uma em que o primeiro passo na conquista está reservado às mulheres (Bumble, que se assume como a grande rival do Tinder). Mas ao mesmo tempo que a tecnologia tem vindo a dar uma ajudinha nesta matéria está, por outro lado, a acabar com o sexo dos casais que já estão juntos. Um estudo recente feito no Reino Unido atribui aos tablets e aos smartphones a queda na frequência de relações sexuais.



"As pessoas tocam mais nos aparelhos do que nos companheiros", acusou uma das responsáveis pela investigação, referindo que 23% dos entrevistados levam para a cama os smartphones e os tablets, preferindo brincar com eles do que com quem têm ao lado.

"É PRECISO APRENDER A ACEITAR A DIVERSIDADE"
por 
Ana Maria Ribeiro

A ‘Domingo’ desafiou Rosinha, que tem corrido o País a cantar canções como ‘Eu levo no pacote’, a trocar ideias com Daniel Cardoso, professor universitário e investigador na área das novas tecnologias aplicadas à sexualidade e estudos de género. O resultado foi a conversa franca que se segue.



O sexo está diferente neste século XXI?


Rosinha (R) –
Penso que sim, felizmente. Antes fazia-se tudo às escondidas, era feio dizer que se fazia sexo, era quase proibido. Hoje não. Às vezes até há abertura a mais...


Daniel Cardoso (DC) –
Tivemos avanços, e há maior facilidade em falar de determinados assuntos, mas por outro lado há retrocessos e há problemas em falar de outros.


Retrocessos?


DC –
Assistimos ao fenómeno ‘As Cinquenta Sombras de Grey’, que trouxe para discussão questões como o BDSM (Bondage e Disciplina, Dominação e Submissão, Sadismo e Masoquismo). Mas havia quem escondesse a capa do livro nos transportes públicos... Quer dizer, se eu falar de uma prática sexual pouco comum para criticar, ninguém se vai incomodar com isso, mas, se for para elogiar, se calhar já vou incomodar muita gente.


Os sites que promovem encontros sexuais vieram revolucionar a forma como nos relacionamos?

DC – A internet não inventou nada, mas deu novas dinâmicas a práticas que já existiam. Antes da internet, se as pessoas queriam ter um encontro sexual mais ou menos anónimo, sabiam escolher a discoteca ou o bar certos. Agora é mais fácil: pego numa aplicação de telemóvel que me põe em contacto com pessoas
interessadas em fazer sexo, chego a uma cidade a dois mil quilómetros do sítio onde vivo e em 15 minutos consigo encontrar 20 ou 30 pessoas disponíveis.

Tornou mais fácil, mas não mudou mentalidades?

DC – O que vemos é que no tipo de sites ligados a traições se mantêm as bases de uma sociedade machista e patriarcal, em que os homens adotam a postura de predadores. É, ainda, a mercantilização do corpo da mulher.


R –
Também sinto isso na minha profissão...


Por cantar letras ousadas?

R –
Brincalhonas [risos]. Tenho de ter muito cuidado na forma como canto. Mais do que se fosse um homem a cantá-las. Continuamos, de facto, numa linha machista.


As letras poderiam sugerir que está sexualmente disponível?


R –
Muitos pensam que sou o que digo. Não propriamente. Esta é a minha profissão. Sou bem-disposta, claro, e gosto de brincar com as palavras. Divirto-me imenso com o que faço, mas não tenho de ser o que faço. Portanto, digo o mesmo que um homem...


DC –
Mas não exatamente da mesma maneira.


R –
Não pode ser da mesma maneira!


Quando a Rosinha diz que às vezes há abertura a mais em assuntos de sexo, pode dar um exemplo?

R – Algo que me marcou foi a descoberta da existência do quarto escuro [pessoas praticam sexo às escuras, sem conhecer a identidade do parceiro]. Confesso que não fazia ideia de que tal coisa existisse e quando mo explicaram fiquei arrepiada. É uma das práticas a que acho que não conseguiria aderir.


É possível falar-se, na nossa sociedade, de sobre-exposição ao sexo?

DC – Quem sabe qual é a quantidade certa ou errada de sexo? Sabemos que esta é a quantidade que está a acontecer e que tem uma série de problemas associados. É um tipo de sexualização que, novamente, objetifica a mulher. A autonomia sexual feminina, quando é evidenciada, é-o frequentemente de um ponto de vista consumista.

Pode dar um exemplo?

DC – Há um anúncio a um champô em que a mulher que o usa parece estar a ter um orgasmo. Mas, se não comprar o champô, lá se vai o orgasmo. O que se verifica é que há, ao mesmo tempo que esta exposição ao sexo, uma enorme iliteracia sobre a sexualidade. Falar-se muito de sexo não quer dizer que se esteja a falar bem de sexo.


Ainda falta uma verdadeira educação sexual na escola?


DC –
Estamos num ponto em que a Rosinha pode fazer uma música que sugere a prática de sexo anal, por exemplo, mas não se pode discutir a prática de um ponto de vista informado e que capacite as pessoas para tomarem decisões sobre as suas vidas, sobre os seus corpos.


R –
O que não deixa de ser estranho, a falha educativa. Todos vivemos com sexo. Nascemos como consequência de um ato sexual e o sexo vai fazer parte da nossa vida até ao último dia. Lembro-me de me ter aparecido a primeira menstruação na escola e de ter entrado em pânico por não saber o que me estava a acontecer.


Vieram a público estudos sobre a sexualidade dos jovens. Com ou sem informação, pratica-se sexo cada vez mais cedo.

R – Eu acho assustador. É que temos estágios na nossa vida: somos bebés, depois crianças, adolescentes… Antecipar as coisas parece que queima etapas. E perde-se tanta coisa...


DC –
Alguns estudos têm de facto posto os adolescentes a iniciar a vida sexual mais cedo, mas num plano alargado, ou seja, se tivermos em conta os últimos 40, 45 anos, a idade de início das relações sexuais tem, em média, vindo a aumentar. Porque nos anos 70, 80 ainda havia uma prática, que caiu em desuso, que era levar os rapazes às prostitutas. Para se iniciarem, com 12 ou 13 anos. Os rapazes estão a iniciar-se mais tarde, as raparigas estão a começar a sua vida sexual relativamente mais cedo.


Falemos de robôs sexuais. Há empresas a especializar-se na criação de bonecos para uso sexual...

R – Costuma dizer-se: ‘primeiro estranha-se, depois entranha-se’, não é? Tenho visto em documentários que pessoas com problemas físicos, principalmente de locomoção, recorrem a esses bonecos. Nesse sentido, claro que sim! Toda a gente tem direito a ter sexo.


DC –
Não vejo que ter sexo com um robô tenha de ser um caso de substituição. Se hoje comer uma refeição e amanhã for comer outra diferente, não estou a substituir um prato pelo outro. Estou a comer uma coisa hoje e amanhã outra diferente. Os robôs sexuais abrem para mais um comportamento possível.


O sexo no futuro poderá passar pela mudança nos paradigmas de relacionamento entre as pessoas?


R –
Aceito que se pode amar muito alguém e não se sentir preenchido. Porque não ter um relacionamento paralelo? Se for consensual...


Nesse caso não se coloca a questão da traição?


R –
O meu parceiro até pode ter duas ou três namoradas sem que eu saiba. Para mim, o pior numa relação é esconder. A partir do momento em que as coisas se assumem, para mim, não é traição.


DC
Costumo dizer aos meus alunos que a minha bola de cristal está estragada. O que perspetivo para o futuro é a existência de mais opções. Que as pessoas percebam que todas as formas éticas e consensuais de relacionamento são igualmente legítimas. Mas para isso é precisa uma educação que prontifique as pessoas para aceitarem o diferente.
sexo novas fronteiras do sexo robôs sexuais encontros sexuais traição
Ver comentários