Barra Cofina

Correio da Manhã

Domingo
6

“São imagens que um homem não esquece”

No meio de rajadas de tiros não havia tempo para pensar. É salvar o pêlo e ajudar os colegas em dificuldades, quando se podia
13 de Novembro de 2011 às 00:00
No meio do mato no norte de Angola, os militares eram presas fáceis para as emboscadas, mesmo quando circulavam em coluna militar. Entre 1961 e 1963 fui duas vezes ferido em emboscadas do inimigo
No meio do mato no norte de Angola, os militares eram presas fáceis para as emboscadas, mesmo quando circulavam em coluna militar. Entre 1961 e 1963 fui duas vezes ferido em emboscadas do inimigo FOTO: Direitos reservados

Assentei praça no dia 5 de Abril de 1960 no Regimento de Infantaria 4, em Faro. Na altura ainda não havia guerra e portanto ir à tropa até podia significar a possibilidade de concorrer a outras profissões. Já estava quase a passar à disponibilidade quando rebentou a guerra em Angola. Fui apanhado de surpresa. Pensei logo: "se aquilo piorar, ainda me vai tocar à porta..." E assim foi! Abalei a 28 de Junho de 1961 e cheguei a Luanda a 4 de Julho de 1961. Ficámos temporariamente no quartel de Luanda, onde desenvolvemos operações de patrulhamento e segurança na cidade, onde já tinham chegado os tiroteios.

Um mês depois fui para Toto, perto de Ambriz, no Norte de Angola. Certo dia, a minha companhia saiu para o colonato do Vale do Loje, para tomarmos aquilo à UPA. Verdade se diga que aquilo era uma terra abençoada, de grande beleza natural. Chegámos lá e vimo-los a fugir, com os gaiatos às costas. Durante a ocupação nem sequer houve tiroteio, pois só tínhamos ordem para disparar caso ripostassem.

Fomos fazendo operações de patrulhamento até que chegou um homem a dizer que tinha os filhos lá numa senzala qualquer. Era um africano, mas de grande confiança, uma espécie de impedido do capitão. Então lá fomos, tentar encontrar os filhos dele, mas a meio do caminho sofremos uma emboscada. Eles estavam escondidos no morro, na mata e de ambos os lados do rio Loje. Um dos nossos foi atingido e ficou logo fora de combate. Aquilo eram rajadas do diabo, um tiroteio que metia medo!

Só que tínhamos de atravessar uma clareira, onde ficaram muitos dos nossos. Fui atingido na perna esquerda e no calcanhar. A bala atravessou o pé de um lado a outro. Disse logo "já estou lixado". O furriel Mendes veio ajudar-me... e assim foi atingido por eles, com um tiro certeiro na cabeça. O corpo dele caiu em cima do meu. São imagens impossíveis de esquecer.

DE VOLTA AO COMBATE

Depois fui evacuado para o Hospital Militar de Lisboa, onde estive alguns meses em recuperação. Depois fui à junta médica e fui dado como apto para voltar a Angola para ser ferido pela segunda vez.

Quando cheguei, fui colocado noutro batalhão e fui outra vez para o norte de Angola, para a zona entre Catalabanza e Nambuangongo e Zala. Curiosamente, quando para lá me dirigi, sobrevoei a zona onde tinha sido atingido e onde o furriel tinha caído. Mal sabia que aquilo iria repetir-se.

Íamos tomar de assalto um quartel da UPA em Catalabanza e fomos emboscados. Fui atingido por uma granada e atirado pelo ar. Caí na trincheira do inimigo. Meio aturdido, ferido e surdo, nem sei como é que consegui pôr a arma em posição para me defender. Só não foi pior, porque o sargento José Paula dos Santos cobriu o granada com o corpo. Teve morte imediata. Eu estava tão a quente que nem sentia a dor e ainda lhes dei luta. Nessas alturas não há tempo para pensar. É salvar o pêlo e ajudar os colegas em dificuldades, quando se pode.

Quando o combate terminou vim-me embora a pé e só muito mais tarde comecei a perder as forças. Ainda hoje tenho sequelas desse ferimento, com um grau de incapacidade de 54,2 por cento que me foi atribuído muitos anos mais tarde, por uma junta médica.

PERFIL

Nome: Álvaro Ventura

Comissão: Angola (1961-1963)

Força: Batalhão de Caçadores 159 (C.C. 167) e 158 (C.C. 165)

Actualidade: 72 anos, reformado, vive em Lagos

Ver comentários