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Sofia Lisboa: "Eu já tive o meu euromilhões"

Vocalista dos Silence 4 conta a sua luta contra a leucemia.
Ana Maria Ribeiro 23 de Novembro de 2014 às 15:30
"Espero que este livro ajude amigos e familiares dos doentes oncológicos"
'Espero que este livro ajude amigos e familiares dos doentes oncológicos' FOTO: Filipa Couto

Foi uma estrela da música, como cantora dos Silence 4, antes de deixar Portugal de boca aberta ao reaparecer no início deste ano para se dizer recuperada de uma leucemia. Agora, Sofia Lisboa conta a história no livro ‘Nunca Desistas de Viver’, acabado de lançar pela Lua de Papel. Um relato comovente e inspirador sobre a sobrevivência.

Começou a escrever este livro quando estava internada no Instituto Português de Oncologia (IPO)?

Não usei quase nada do que escrevi no IPO. Essa espécie de diário serviu-me apenas para me ajudar a lembrar datas, nomes e episódios. Pormenores que se perdem. O resto são desabafos que não são relevantes para o leitor.

O livro arranca com uma confissão dolorosa: descobriu que tinha leucemia quando estava grávida e foi forçada a abortar. Diz também que ainda não fez o luto por essa criança...

O luto nunca se faz. Apenas se atenua, com o tempo. E eu não perdi só um filho. Perdi também a capacidade de ter filhos. Isso não se ultrapassa. Não quis falar muito disso no livro... ainda é complicado.

Está na menopausa, tem osteoporose, o início de necrose no colo do fémur. Relatório pesado aos 37 anos?

Algumas dores e incapacidades ficarão para sempre. Outras conseguirei ultrapassar. Acredito que com o exercício físico poderei superar algumas das limitações que tenho hoje. O sonho é, um dia, poder voltar a dar pelo menos uma aula de fitness [risos].

Era a sua profissão quando adoeceu. Poucos sabem...

Sim, trabalhava num ginásio, onde dava aulas. Aliás, antes de adoecer tinha a vida perfeita: o trabalho dos meus sonhos, o casamento dos meus sonhos, tinha finalmente conseguido engravidar e acabara de entrar na Faculdade, em Gestão, com média de 19 valores. Tudo isso eu perdi.

Como reagiu quando soube que estava doente?

Achei que era exagero dos médicos. Tanto assim que antes de receber o diagnóstico final, no Hospital dos Covões, eu e o meu marido levámos os portáteis e estávamos na sala de espera a inscrevermo-nos nas turmas.

E ao saber que tinha uma leucemia agravada por Filadélfia positivo (mutação de cromossoma), foi à net pesquisar sobre a doença?

Sim, mas não o aconselho. A acreditar nas estatísticas, eu estava condenada. O grande milagre no meu caso foi ter-se encontrado um dador de medula compatível, neste caso a minha irmã. Sem ela, as coisas teriam sido muito diferentes. Costumo dizer que não vou ganhar o Euromilhões porque já tive o meu. E prefiro este, sem dúvida.

Mas surgiram complicações após a intervenção?

Tive a doença do enxerto contra o hospedeiro. A luta entre o meu sistema imunitário e o da minha irmã. Ganhei 27 quilos e o corpo cobriu-se-me de pelos. Fiquei completamente irreconhecível. Chamam-lhe o ‘cookie face’ (cara de bolacha).

Na altura desejou morrer?

Sim. E para ficar assim, cem por cento dependente, era preferível morrer. Não me alimentava sozinha, não consiga fazer a minha higiene. Não teria nada para dar a ninguém a não ser trabalho.

Há uma foto sua, dessa altura, no livro...

Não quis tirar mais. Recusei-me. Nem podia olhar para mim. Aliás, se este livro serve para alguma coisa é para mostrar a pessoas que estão a passar pelo mesmo que se trata de uma fase passageira.

Quanto tempo demorou a perder o peso e a recuperar o aspeto anterior?

Muito pouco. Passei rapidamente dos 69 para os 39 quilos. Aliás, fiquei quase anorética, o que foi péssimo e provocou uma grande perda de massa óssea e muscular.

Conta que acordou desse coma com um acesso de mau feitio?

De loucura absoluta. Formei uma teoria da conspiração na minha cabeça, com toda a gente. Os enfermeiros, o pessoal médico, o meu marido – a quem acusei de traições. Foi horrível. Visto à distância tem piada, mas na altura não teve.

No livro faz queixas de médicos e enfermeiros...

Espero não ser mal interpretada. Os doentes saem do IPO com uma gratidão enorme pelos médicos que lhes salvaram a vida. Mas há pessoas que não deviam trabalhar lá.

Há o caso do médico que lhe disse para se reformar.

Perguntou-me se já tinha metido os papéis. "Olhe que a mama está a secar", disse-me ele. Foi como se me tivesse dado um tiro. E veja-se a ironia. Estou reformada por invalidez e o meu sonho é, um dia, poder voltar a trabalhar.

Foram quatro anos da sua vida passados num hospital, a ver morrer pessoas.

Sim. Escrevo sobre gente com quem me cruzei no IPO e que vi morrer. Voltarei a falar disto. Acho que o devo ao Manelinho [menino angolano falecido no hospital].

E no entanto diz que se tornou melhor pessoa depois de tudo o que aconteceu?

Gosto de pensar que já tinha bom fundo, mas, sim, depois do meu purgatório fiquei mais virada para os outros. Estou mais disponível emocionalmente. Ganhei isso.

Longe dos dias dos Silence 4, quando confessa ter tido acessos de vedetismo...

Tive, sim [risos]. Caprichos ridículos. Estava a transformar-me em alguém de quem não tinha a certeza de gostar. Não fui feita para ser estrela.

Há quem se revolte, quando se descobre doente?

Sim. E eu também tive o meu lado negro. Felizmente, fui muito apoiada pela minha família. E vamos lá ver... culpar quem? Quem teve culpa de eu ter tido leucemia? Há que aceitar e seguir em frente.

O que se segue agora para  a Sofia Lisboa?

Tratar das mazelas físicas. Recuperar a parte óssea com osteopatia e massagens. Vou gastar muito dinheiro com a minha saúde, mas sem isso não se pode falar de futuro. Sobretudo não alimentar falsas expectativas sobre as minhas reais possibilidades.

E tem vontade de escrever outros livros?

Sim. Para já, espero que este ajude amigos e familiares dos doentes. Depois, conforme for aprendendo mais sobre o pós-oncológico, juntar os saberes e integrá-los. Talvez seja essa a minha missão.

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