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Correio da Manhã

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“Soube desde muito cedo que ser só actriz não me ia chegar”

O próximo filme de Inês de Medeiros será polémico, diz ela. E isso agrada-lhe. ‘Cartas a uma Ditadura’ – protagonizado só por mulheres – estreia na quinta-feira em Lisboa. O documentário, como o título denuncia, remete para o regime salazarista. E foi de actriz que passou a realizadora. Mas é como portuguesa por opção, já que nasceu em Viena, na Áustria, e tem morada principal em Paris, França, que vê em Mário Soares a qualidade de ter sido o melhor político nacional. Embora Freitas do Amaral também lhe mereça consideração, numa retrospectiva ao período do pós-25 de Abril. Mas “o grande resistente é, de facto, Cunhal.” Para Inês, toda a obra artística é autobiográfica, mas descrever o período de transição para a democracia, defende, não é mostrar a sua vida... Pode ser falar dos avós, dos pais e até dos filhos

4 de Maio de 2008 às 00:00
Inês de Medeiros
Inês de Medeiros FOTO: Bruno Colaço

Há um fantasma de Salazar?
Mais do que nunca. Durante anos ninguém se atreveu a falar de Salazar. Era uma coisa que toda a gente queria esquecer. Legitimamente. E mesmo para se fazer História – para se interrogar o que foi o Estado Novo – é preciso tempo. Acho que agora há uma espécie de mitificação que parece perigosa. Confesso que senti alguma vergonha que o Salazar tivesse ganho um concurso de televisão para o ‘Grande Português’.

Para o seu documentário sentiu que, ainda hoje, as mulheres entrevistadas receiem não ser fiéis à imagem de Salazar?
A ideia era perceber o lado mais íntimo de uma ideologia. E creio que a maior parte delas não mudaram de opinião.

Isso é o mais desconcertante no seu documentário; não se sentiu angustiada ao realizá-lo?
A maior parte das ideias que lá estão, obviamente, não partilho. As senhoras que eu entrevistei não eram implicadas politicamente. Portanto, não tenho direito de bater à porta e dizer ‘você, tudo o que diz está falso’. Não, eu estava ali para ouvir, não para as criticar.

Qual é a reacção que prevê do público quando for exibido?
Acho que vai ser muito polémica. Isso para mim é óptimo. Mas as reacções que adivinho é que cada um encontrará lá algo da sua lógica.

Belmira, a protagonista, é remetida para o final do filme; a vida dela espelha o regime: trabalho, pobreza, sofrimento, silêncio...
Não diria que é a principal. O princípio do documentário é que eu só entrevisto senhoras que responderam à circular [do Movimento Nacional das Mulheres Portugueses]. A grande maioria são de uma classe alta. Mas a Belmira, que fica para o fim, foi contactada por engano, por ter o mesmo nome de família do padre da aldeia onde vivia. De facto, é uma pessoa modesta que toda a vida lutou, teve fome, etc. Dou-lhe uma parte inteira do filme até para equilibrar. A Belmira, de repente, é o concreto de uma entidade abstracta. Curiosamente ela diz: “não sei quando nasci porque quando me conheci já estava aqui”. É quase a mais bela definição que vejo do povo português, destes ‘eles’ de quem se fala.

Perguntou às suas entrevistadas e eu repito: ‘o que é a ditadura?’
Há várias [ditaduras]... A ditadura é um sistema repressivo onde as pessoas não têm liberdade de escolha e onde a voz da maioria não é ouvida. É o contrário da democracia, em que temos um sistema electivo que funciona, as pessoas vão votar e as autoridades aceitam.

Teme que a democracia degenere num regime totalitário?
A História está sempre a avançar. O Berlusconi voltou a ganhar! O que quero dizer em relação às ditaduras é que começam sempre por ter apoio popular. Depois há uma tendência de, quando acabam, personificar isso.

Acha que em Portugal houve bons políticos?
A aprendizagem da democracia não é fácil. Agora, acho que é óbvio que o dr. Mário Soares é um grande político. Um dia vamos sair do [estudo do] Estado Novo e começar a estudar o 25 de Abril e o pós--25 de Abril; quando olho para isso fico justamente espantada pela acção do dr. Mário Soares, por exemplo, e mesmo o dr. Freitas do Amaral – cada um controlando as suas bases – foram grandes políticos. É obvio que o grande resistente é, de facto, o Cunhal. Mas não posso dizer um grande político porque ele nunca exerceu o poder.

Nasceu e viveu em Viena até que chegou a Lisboa em 1975, viveu a alegria do 25 de Abril?
Não estávamos cá no dia 25 de Abril mas estávamos no dia 1 de Maio – ou uma coisa assim. Tenho uma espécie de recordação das ruas cheias. Uma multidão muito alegre.

Como foi a sua infância cá?
Eu digo sempre, como nasci em Viena, que sou portuguesa por opção. Percebi cedo que este era o meu País, a minha cultura, a minha nacionalidade. A minha infância em Portugal foi muito pacata, de andar no Liceu Francês e com recordações muito fortes e muito intensas do pós-25 de Abril.

Os seus pais divorciaram-se nessa altura...
Foi o ano do divórcio para toda a gente, porque antes não era permitido para quem era casado pela Igreja.

Como se dividiam a Inês e a irmã Maria de Medeiros?
Andávamos as duas sempre atrás do pai. Na altura ele ainda vivia em Viena, mas quando ele vinha passávamos a viver com ele 24 sobre 24 horas, se fosse preciso. Compensava pela intensidade. E ele vinha cá bastante.

A sua mãe era jornalista; isso contribuiu para a forma como tinha acesso à informação?
Seria completamente injusto da minha parte dizer que não beneficiei de ser filha de quem sou e das pessoas que cruzei e das pessoas que encontrei ao longo da minha infância.

Passou a ter dois núcleos bem frequentados?
Não eram assim tão antagónicos quanto isso. As pessoas, de facto, separavam-se mas cruzavam-se e viam-se e, por vezes, tinham amigos comuns.

O que a afasta de Portugal?
Nada. Partilho a minha vida entre dois países porque tenho um marido francês que não viria para cá fazer nada.

Já se habituou às viagens constantes para França?
Já. E preciso delas. Gosto de me manter e trabalhar em Portugal. Para mim é muito importante continuar a fazer coisas cá e as histórias que penso e me apetece contar passam-se cá.

Quem reage melhor ao seu trabalho: a crítica portuguesa, francesa ou a de outro país?
O meu trabalho tem muito mais impacto aqui do que em França. Este filme ganhou o Fipa de prata em Biarritz, que é um festival importante, pelo júri internacional. Para já fiquei contente com o prémio, mas a certa altura pensei que este filme é muito português e que o estrangeiro não atinge todos os não-ditos. E depois o prémio do público no Brasil veio provar, de certa forma, que este filme pode ser percebido também lá fora.

Como se sente como realizadora?
Mesmo que esteja muito mais empenhada agora na realização, ser actriz é uma coisa que sempre gostei.

Se escolhesse um tema autobiográfico, qual seria?
Todos os filmes são autobiográficos. Todos os livros são autobiográficos.
Então podemos estar à espera de encontrar aqui a Inês?
Não. Quer dizer, há aqueles que são declaradamente autobiográficos. Mas não acredito que alguém possa escrever um livro, fazer um filme, pintar um quadro, ou mesmo compor uma sinfonia, e dizer: ‘isto não tem nada a ver comigo’.

Propôs uma minissérie à RTP pegando numa família que atravessa a ditadura; porquê outra vez este tema salazarista?
Não é um tema salazarista. Passa também por isso, mas vai avante. Tem mais a ver com a aprendizagem da democracia em Portugal. Ainda está em fase de escrita, portanto, não é um projecto que eu goste de falar. De certa forma são as gerações que conheci: são os meus avós, os meus pais, eu e os meus filhos. Era isso que me queria ouvir dizer?

Sendo de esquerda, como lida com esta época e a leva para o cinema?
Em princípio, as opiniões políticas são para o futuro, não são para o passado. Não há a direita cínica e a esquerda generosa. Até acredito que direitas e esquerdas querem o bem comum, agora, as formas para lá chegarem é que não me parece que sejam as mesmas.

Já trabalhou com os melhores realizadores portugueses, o que é que aprendeu com eles?
Aprendi quase tudo o que sei. Comecei a fazer cinema com 16, 17 anos e ainda por cima não fiz nenhuma escola de cinema. Trabalhei com o Paulo Rocha, o Pedro Costa – foi com quem mais trabalhei – o João Botelho. Depois aprendi imenso com o Joaquim Pinto, que nessa altura montou uma produtora e começámos a fazer filmes quase sem nada. Soube desde muito cedo que ser só actriz não me ia chegar. Comecei a fazer imensas coisas, a trabalhar como assistente de realização. O som já experimentei mas foi mau. Trabalhei como assistente de realização, nos argumentos, fiz produção. Eu já trabalhei como guarda-roupa, fiz até maquilhagem.

Gostava de estar ao lado de Manoel de Oliveira em Cannes?
Acho sempre interessante estar ao lado de Manoel de Oliveira. Em Cannes talvez não porque acho Cannes insuportável. É um festival importante mas não é um sítio onde vá de bom grado. Preferia conversar com o Manoel de Oliveira num sítio mais sossegado.

Gosta de festivais?
Não gosto dos muito, muito grandes.

Não gosta de multidões, então?
Não é isso. Neste lado – que é muito fascinante, ao mesmo tempo, – não sei quantos filmes passam em Cannes por dia, mas se for preciso vêem-se seis filmes por dia e, no outro dia, mais cinco, e no outro mais seis. Eu não consigo gerir tanto filme ao mesmo tempo.

Quais foram os filmes que a surpreenderam ultimamente?
Gostei muito do ‘There Will be Blood’, do Thomas Anderson. Em termos mais gerais, o cinema mais rico, mais surpreendente, mais bonito, mais comovente que tenho visto, é quase todo ele sul-americano, que vai desde Lucrécia Martel ao Lisandro Alonso.

A FILHA DO MAESTRO

Aos 40 anos, a actriz e realizadora Inês de Medeiros fala dos lucros de ser filha do maestro António Victorino d’Almeida e da jornalista Maria Armanda Passos. “Seria completamente injusto da minha parte dizer que não beneficiei de ser filha de quem sou e das pessoas que cruzei e das pessoas que encontrei ao longo da minha infância.” A irmã de Maria de Medeiros é casada com um francês que dirige o departamento de Ficção do Canal Plus, com quem tem dois filhos, o Pedro, 10 anos, e a Oriana, 6. Por isso, está dividida entre Lisboa e Paris. Nascida em Viena, mudou-se para Portugal ainda no pós-25 de Abril. Já com um vasto currículo de actriz – onde trabalhou com realizadores como Fonseca e Costa, João Botelho, Paulo Rocha, Jacques Rivette – experimentou a realização. Argumentou ainda, produziu e foi assistente de realização de João César Monteiro, Joaquim Pinto e Teresa Villaverde.

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