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Correio da Manhã

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Traumas futuros

‘O Mentor’ de Paul Thomas Anderson retrata a relação entre dois homens peculiares nos Estados Unidos dos anos 50, no pós-guerra
Joana Amaral Dias 10 de Fevereiro de 2013 às 15:00
Requiem vivace
Requiem vivace

"Liberte-se de traumas passados! Liberte-se de traumas passados!" Poderia haver slogan melhor para o rescaldo da Segunda Grande Guerra, para o dia seguinte à descoberta da barbárie em plena civilização? Em ‘O Mentor’, Paul Thomas Anderson retrata os EUA dos anos 50 e o ângulo é o encontro entre dois homens: um apresenta-se como escritor, médico, físico nuclear, filósofo e o outro não se apresenta, irrompe género destroço. Um bestial e uma besta.

O primeiro é o líder de um culto, vagamente inspirado no xamã da cientologia. O outro é um ex-combatente, alcoólico, com todos os instintos de agressividade e sexuais a saírem pelas entranhas, para as quais qualquer emoção pode servir de rastilho. Um é o que o outro não pode ou não consegue ser e os dois desenvolvem uma relação peculiar (fortemente sustentada nas magníficas interpretações dos atores).

O mestre da seita dos traumas passados leva o soldado com stress pós-traumático (diagnóstico que só seria estabelecido no futuro, 30 anos depois) para o seu próprio exército, onde a hipnose supostamente leva a vidas passadas e cura leucemia, doenças que possam ter começado há triliões de anos (mesmo que a terra só exista há biliões), elimina a ameaça nuclear e traz a paz mundial. Uma sociedade incapaz de resolver os seus problemas no aqui e agora pode bem atribuí-los a um passado distante, a vidas outras, desresponsabilizando-se.

SONHO AMERICANO

Afinal, no que deve acreditar depois de uma guerra como a dos anos 40? Que valores pode defender uma civilização depois de assistir à sua própria derrocada? Na ciência, a mesma que construiu a bomba atómica que arrasou Hiroshima e Nagasáqui? Uma comunidade saída desse fim do mundo, sedenta de orientação e significado, ou desiste da humanidade ou agarra-se à religião.

E é sobre isso que versa ‘O Mentor’ – sobre essa constante tensão entre um líder de um culto e um homem primário, entre o transcendente e o animal. Claro que o que é válido para a geração do pós-guerra pode aplicar-se a outras sociedades igualmente cauterizadas, onde o transcendente pode não ser uma seita meio psicologia pop meio ficção científica, mas ser tão só a bolsa. Aliás, o crónico otimismo do pós-guerra foi nisso mesmo que desembocou. A saída do pesadelo transformou-se no sonho americano. E o que era, afinal, esse sonho senão toda a mercadologia, igualmente pejada de fé e fraude?

‘O Mentor’ é um rigoroso trabalho cinematográfico sobre a sugestionabilidade e sobre essa aparentemente estranha contradição das civilizações contemporâneas que tanto parecem adular o individualismo como facilmente se comportam como um rebanho acéfalo. O caminho do animal para a humanidade zombie é curto, muito curto. E nem sempre é necessário um mentor que nos carregue. 

RESUMO

A conturbada relação entre dois homens deu a Joaquin Phoenix e a Seymour Hoffman a nomeação para o Óscar.

Realizador: Paul Thomas Anderson

Intérpretes: Amy Adams, Joaquin Phoenix, Philip Seymour Hoffman

Em exibição nos cinemas


FILME: ‘DJANGO LIBERTADO’

Claro que os filmes de Hollywood sempre foram uma máquina de propaganda. À qual a escravatura e o racismo não escaparam. É com esse cinema que Quentin Tarantino ajusta contas, é dessa História que se quer vingar. Mais do que justo.

Realizador: Quentin Tarantino

Intérpretes: Christoph Waltz, Jamie Foxx, Jonah Hill, Leonardo DiCaprio, Samuel L. Jackson

Em exibição nos cinemas

FILME: ‘HOLY MOTORS’

Eis a versão inteligente desse género conhecido como filmes-catástrofe, o cinema apocalíptico que anuncia o fim do mundo. Neste caso, trata-se do final do próprio cinema e do final de uma civilização, pelo menos tal como os conhecíamos. O resto é demasiado singular para descrever. Só vendo.

Realizador: Leos Carax

Intérpretes: Denis Lavant, Edith Scob, Eva Mendes

Em exibição nos cinemas

FILME: ‘SEIS SESSÕES’

Como retratar a vida de um deficiente motor grave sem se limitar às limitações ou apenas às lamechices? Não é fácil, mas este realizador, ele próprio vítima de poliomielite, consegue. A coisa é discreta, sem pretensões e de uma decência irrepreensível.

Realizador: Ben Lewin

Intérpretes: Adam Arkin, Helen Hunt, John Hawkes, Moon Bloodgood, William H. Macy

Em exibição nos cinemas

FUGIR DE...

‘DECISÃO DE RISCO’

Nem sequer o dilema moral do piloto embriagado que salva centenas de vidas sobrevive, e o filme transforma-se num docu-drama sobre o alcoolismo, apropriado para a TV. Depois dessa cena do acidente, onde Zemeckis exerce a melhor faceta de realizador, tudo o resto é um amontoado de decisões sem risco, umas dezenas de minutos a voar baixinho, uma longa ressaca.

Em exibição nos cinemas

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