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Correio da Manhã

Domingo
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“Vi morrer um vizinho que cresceu comigo”

Durante a minha comissão no Hospital Militar de Luanda vi muitos por ali passar, alguns dos quais eram meus conhecidos da vida civil
23 de Janeiro de 2011 às 00:00
Ao Hospital Principal de Luanda a toda a hora chegavam feridos. Os mais graves eram evacuado de helicóptero desde a frente de combate
Ao Hospital Principal de Luanda a toda a hora chegavam feridos. Os mais graves eram evacuado de helicóptero desde a frente de combate FOTO: Direitos reservados

Ingressado no curso de Sargentos Milicianos no CISMI, em Tavira, no dia 11 de Janeiro de 1966, após rigorosa instrução de quatro meses, segui para a Escola do Serviço de Saúde Militar, em Lisboa, onde frequentei o curso de Enfermagem na especialidade de Cirurgia.

FERIDOS DE GUERRA

Após estagiar no Hospital Militar de Lisboa – onde tratei alguns dos feridos mais graves nos teatros de guerra na Guiné, Angola e Moçambique – estive em Coimbra antes de ser mobilizado, em rendição individual, para o Hospital Militar de Luanda, Angola. Embarquei no paquete ‘Vera Cruz’, a 2 de Junho de 1967. Cheguei a 19 de Junho.

Para mim era tudo estranho, e ao ver aqueles morros de terra vermelha sentia uma autêntica magia. Tive a sorte de ter ali à minha espera um casal amigo, que logo me acolheu em sua casa como se de um filho se tratasse. Apresentei-me no Hospital Militar, onde permaneci durante dois anos e 21 dias.

Fui destinado à Enfermaria Cirurgia, para coadjuvar o sargento Oliveira, que passado cerca de dois meses seria transferido para outro serviço, ficando a meu cargo aquela enfermaria com 45 doentes, ajudado por uma enfermeira civil, seis cabos e seis soldados, além de outros civis, tudo sob a minha responsabilidade.

Não era fácil a minha missão. O trabalho era árduo e sentia sobre os meus ombros a responsabilidade daquela gente toda. Passados 53 dias da minha chegada, quando estava de serviço no Banco das Urgências, vi entrar ali quatro feridos vindos do Norte de Angola, que já se esperavam, um dos quais em estado de coma.

Um elemento que acompanhara aqueles feridos de guerra entrou com um molho de cartas que pertencia ao furriel ferido. Olhando para aquela correspondência, qual não foi o meu espanto e choque ao verificar que aquele doente em fase terminal era um vizinho que nascera a meu lado e comigo crescera, estudara, brincara e trabalhara. Tinha chegado a Angola no mesmo dia que eu, apenas com diferença de algumas horas. Faleceu na noite seguinte. Foi doloroso mas para nós, militares, que cumpríamos uma missão era normal.

Um ano após a minha chegada a Angola tive a sorte de substituir um colega (que tinha ali a sua família), acompanhando um doente em estado grave que seria evacuado para o HMP em Lisboa. O doente era também um colega, o furriel Vasques, de Caldas da Rainha, e soube do seu falecimento quando, passados 14 dias, o pretendi visitar antes de regressar.

Apesar deste triste desfecho, foi bom ter estado com a minha família durante este tempo. Porém, quando me apresentei após o meu regresso da Metrópole, fui informado de que passaria, a partir dali, a prestar serviço na Unidade de Tratamento Intensivo. Aqui o trabalho era penoso e com muito mais responsabilidade nos serviços que ali decorriam. Chegava a trabalhar durante 16 horas seguidas. Além de tratarmos os doentes submetidos a intervenções cirúrgicas, recebíamos os doentes em estado grave com ferimentos produzidos em combate e por acidentes de viação.

Durante a minha comissão no Hospital Militar de Luanda foram vários os doentes que vi por ali passar, alguns dos quais conhecidos da vida civil e outros com quem criei boas relações de amizade. Alguns ainda hoje me agradecem o que fiz por eles nas horas de aflição.

Regressei à Metrópole no dia 19 de Junho de 1969 com a noção de ter cumprido bem o meu dever. Recebi um louvor, que ficou registado na minha caderneta militar e do qual muito me orgulho.

PERFIL

Nome: Manuel Matias

Comissão: Angola, 1967/69

Força: Furriel miliciano enfermeiro no Hospital Militar de Luanda

Actualidade: Oficial de Justiça aposentado. Aos 66 anos tem dois filhos e duas netas

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