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Correio da Manhã

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Vitorino Nemésio: O senhor ‘Se bem me lembro’

Poemas (muito) atrevidos de um intelectual e estrela de televisão.
João Pedro Ferreira 12 de Abril de 2020 às 09:00
Vitorino Nemésio
Vitorino Nemésio FOTO: Direitos Reservados

Vitorino Nemésio Mendes da Silva (1901-1978) foi um caso raro em Portugal: um intelectual de alto coturno que se tornou uma figura genuinamente popular graças ao fenómeno televisivo. Autor de um dos mais importantes romances da literatura portuguesa – ‘Mau Tempo no Canal’ (1944) -, poeta, ensaísta e memorialista, foi também um respeitado académico, professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Já perto do ‘limite de idade’ (título de um dos seus livros de poesia) para a jubilação, viu-se reconhecido pelo grande público e transformado numa estrela de televisão. O segredo do êxito do programa ‘Se Bem me Lembro’ era a vivacidade do comunicador, conversando tanto sobre um intrincado tema cultural como a propósito de uma recordação da infância açoriana. Já com mais de 70 anos, os amores tardios pela sua musa Margarida Victória, marquesa de Jácome Correia, inspiraram-lhe escaldantes poemas eróticos, publicados postumamente em ‘Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga’ (ed. INCM, 2003).

Aficionado, acarinhava as ‘touradas à corda’ dos Açores e chegou a tourear ao lado do célebre matador Manuel dos Santos, num tentadero em Coruche. Colaborador  de páginas literárias de jornais, foi diretor do matutino ‘O Dia’. Entre muitas distinções, ganhou o Prémio Internacional Montaigne e foi condecorado com a Ordem de Santiago da Espada. Tem ruas e escolas com o seu nome e estátuas no continente e nos Açores.

Do livro ‘Caderno de Caligraphia e Outros Poemas  a Marga’, ed. INCM 

"(...) Não cantarei a virgem que o cavalo
Com um xairel de sangue arrebatou,
Quebrada pelo bruto, - nem levá-lo
Ao potro vingador de um verso vou. 

Não cantarei tal noite aziaga. Falo
Apenas do que tenho, do que sou
Com ela, como o vinho no gargalo
Do frasco em que me bebe e me esgotou. 

Nem cantarei a vítima do resto,
Violada na inocência que perdeu
Nas emboscadas de um punício lodo: 

Que só meu próprio amor acendo. E atesto
A chama da Victória que me deu
Na margarida branca o mundo todo.
                                          Lisboa, 29.3.1973

"(...) Olhos de charco tristes,
Com eles me vês e me espelhas,
A franja do cabelo te faz éfebo,
Tens as unhas vermelhas.
As orelhas agudas
Dão-te de cabra o cunho
E de repente ajudas-
-Me a velhice em teu punho.
Diziam tanto mal
Do casto movimento!
Mas teus dedos são sábios,
Delicados no alento
Como fusos de buxo
Fiando seda epidérmica:
Na tua cama de luxo
À cautela escondeste
Uma garrafa térmica…
E nua como Eva apareceste. 

Oh enfermeira brava
De lânguidos doentes,
Minha enxada te cava:
Beijavas-me nos dentes.
Tudo era no amor balanço e sabedoria,
De almofada nos rins o púbis elevavas:
Então, como se faz à harpa e à mulher fria,
Dedo a dedo, em cordão, as vértebras me contavas.
Assim a festa de linho
Se foi tecendo e lavrando:
Teu corpo, como um moinho,
Vai moendo, vai amando.
E colámos os artelhos,
Nivelámos as cabeças,
Selei-te os seiinhos velhos
Para que me reconheças
Como o padrão da alegria,
A haste,
O homem,
A chuva,
Os braços que os ombros tomam,
O Fálus que as virgens temem
Mas enche de novo a viúva. 

E, como na cinza o leme,
Tudo acabou em sémen,
Ficando tu quieta e um filho feito naquele perfume
Que a vulva não recolheu
E queres ter na pele até
Que to limpe a morte ou a vida,
Pois madre-pérola é
A urna de margarida.

                                                29.4.1973"

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