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Correio da Manhã

Domingo
9

Western de Tarantino

Nutrido pela música original de Morricone, o novo filme de Tarantino é um western em espaço fechado, como uma peça de teatro em crescendo de tensão
21 de Fevereiro de 2016 às 13:35
Ao oitavo filme, Tarantino consegue transmutar a citação da matéria na própria matéria que vinha citando e perseguindo. O toque desta transmutação é a banda sonora de Ennio Morricone, o mestre associado a Sergio Leone que criou a linguagem musical do western spaghetti, com a sua wagneriana arte do motivo repetido como um refrão, e que durante anos teve os seus temas musicais imitados pelo cinema do americano. É como se Tarantino passasse de cinéfilo, a citar planos, ambientes, músicas ou sequências de filmes obscuros que o apaixonam, num jogo de mistura de referências, a cinéfilo extasiado ante a presença de um seu herói da sétima arte a criar obra nova no seu próprio filme! Por outro lado, e desde ‘Cães Danados’ (1992), a sua longa-metragem de estreia, Tarantino deixou bem visível que, além deste seu lado de fã apaixonado pelo passado do cinema, havia vontade de individualização, de não passar por um mero exercício de cinefilia tipo Brian de Palma, apresentando desde logo uma certa estilização da violência como forte marca de autor – que é, aliás, uma das críticas que os seus detractores lhe fazem! Mas se esse é, talvez, o seu lado mais espectacular, aquele que mais atrai o público, não deixa de ser notório que por detrás dessa estilização aparatosa, desse gore extravagante, sempre houve em Tarantino um fascínio pelo tempo pausado do cinema europeu, um gosto pelo diálogo e a palavra como acção, mesmo quando vazia e ostensivamente pimpante, e que esse gosto, esse lento despojo de actividade, sempre tenha convivido com a violência mais espalhafatosa. Foi assim em ‘Pulp Fiction’ (1994), ‘Jackie Brown’ (1997), ‘Kill Bill – A Vingança’ (’Kill Bill, Vol. 1’, 2003 – ‘Kill Bill, Vol. 2’, 2004), ‘Sacanas Sem Lei’ (2009) ou ‘Django Libertado’ (2012).

Muito melhor
Nunca o predomínio da palavra foi tão grande como neste ‘Os Oito Odiados’ encenado quase como uma peça de teatro na tradição de algum do melhor cinema europeu. Aliás, não deixa de ser irónico e significativo que Tarantino realize um western, género associado aos grandes espaços do oeste selvagem, e que o ponha a decorrer quase integralmente no espaço fechado de uma diligência e, sobretudo, de uma estalagem. Mas é uma ironia que vem acentuar ainda mais a tensão que percorre todo o filme (e que deve ficar ainda mais insuportável no ecrã largo dos 70 mm, formato que já não existe nas salas de cinema nacionais), uma tensão que radica na palavra e no que esta evoca de racismo e ressentimento, como quem desvela a inflamação que gangrena a América mais profunda. Neste sentido, ‘Os Oito Odiados’ é a sequência lógica do filme anterior de Tarantino, ‘Django Libertado’, que já era uma abordagem particular ao western e também já aflorava a temática do racismo. Mas a sua referência mais directa é ‘Cães Danados’, também passado num espaço fechado e com toda a acção a ser despoletada pela palavra. Só que ‘Os Oito Odiados’ é melhor. Muito melhor. 

Título: ‘Os oito odiados’
Realizador: Quentin Tarantino
Exibição: cinemas

Livro
‘O Universo Concentracio-nário’
Antigo prisioneiro de Buchenwald e Neuengamme, David Rousset redige em 1945, poucos meses após a libertação, este testemunho frio mas impressivo dos campos de concentração e do impacto físico e mental que as suas condições opressivas tinham nos detidos, desmontando lucidamente o mecanismo dessas máquinas de extermínio e terror e o enredo repressivo, psicológico e hierárquico que as fazia funcionar.
Autor: David Rousset
Editora: Antígona

Disco
‘Emotional Mugger’
Oitavo álbum em nome próprio do hiper-activo californiano – que em 2015 conseguiu a proeza de não editar nada a solo –, depois do depurado e glam ‘Manipulator’ (2014), este ‘Emotional Mugger’ é o retorno de Ty Segall às produções mais brutas, com uma demoníaca e insensata manipulação sobre a estereofonia a resultar num disco poderosíssimo, de radical, insana e arrebatadora robustez sonora.
Autor: Ty Segall
Editora: Drag city

Filme: ‘The Revenant: O Renascido’
Uma interpretação extraordinária de Leonardo DiCaprio no papel de Hugh Glass que, no início do século XIX, durante uma expedição por território índio, depois de atacado por um urso, é deixado moribundo pelos seus companheiros mas, numa luta contra a morte, alimentada pelo desejo de vingança, consegue regressar a casa… Um épico à determinação!
Realizador: Alejandro G. Iñarritu
Exibição: cinemas

Fugir de: ‘Mein Kampf’
De repente, parece que o ‘Mein Kampf’ (‘ Minha Luta’), essa obra execrável, mal escrita e falaciosa de Adolf Hitler, que sintetiza a sua tacanha visão do mundo e antecipa as ideias nazis, virou moda, com revistas a impingir o livro aos seus leitores e respeitáveis editoras a reeditá-lo como novidade… Qual será o verdadeiro intuito de quem está por detrás desta campanha de divulgação ideológica?

De Adolf Hitler
Edição: Contra-Corrente e Guerra e Paz (2016)


Ennio Morricone Cães Danados Pulp Fiction The Revenant Adolf Hitler Quentin Tarantino
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