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Nunca houve tantos corpos por reclamar em Lisboa como em 2021

Número de cadáveres ao abandono é de 233.
Francisca Genésio 4 de Outubro de 2022 às 01:30
Hospital
Hospital FOTO: CMTV
O número de corpos não reclamados, em Lisboa, nunca foi tão elevado como no ano passado: 233. O anterior máximo, agora superado, foi registado no pós-crise financeira, em 2009, quando os cadáveres ao abandono foram 194.

Estes dados são compilados, desde maio de 2004, pela Irmandade da Misericórdia e de São Roque de Lisboa (IMSRL). “Desde essa altura, até ao último dia de setembro deste ano, houve 2426 indigentes mortos”, adiantou ao Correio da Manhã o irmão provedor da Irmandade da Misericórdia, Mário Pinto Coelho. Nos primeiros nove meses deste ano, a IMSRL acompanhou 153 enterros de pessoas cujos corpos não foram reclamados no Instituto de Medicina Legal .

“Tudo aponta para que o número continue a subir, podendo ultrapassar os 183 de 2020, embora não me parece que volte a existir novo recorde”, disse ao CM o irmão provedor. Pinto Coelho afirmou que “a subida [registada no ano passado] ainda deverá estar relacionada com a pandemia. O número inclui sobretudo idosos, pessoas que vivem sozinhas, isoladas, e falecem por falta de medicamentos, consultas”. Os voluntários da IMSRL (são cerca de 20 os que seguem estes casos) “preferem estar afastados da história das pessoas por questões emocionais”. “Para nós, é um irmão, como todos, que merece uma despedida digna”, frisou.

Do total de corpos não reclamados no ano passado, 121 eram de homens adultos, 88 de mulheres e 14 de crianças (seis meninas e oito meninos). Há ainda registo de um nado-morto e em nove casos estes dados não foram apurados. “Quando as crianças não têm nome, pedimos ao padre para as chamar de algum, durante a missa, de forma a não ser um ‘ninguém’ ao ser enterrado”, explicou o irmão provedor. Com corpos de estrangeiros cuja religião não é católica o tratamento também é diferente. “Já nos aconteceu contactar embaixadas, pedindo auxílio para um enterro muçulmano, por exemplo”, afirmou.

No próximo dia 17, todos os corpos acompanhados pela IMSRL serão evocados na Missa Solene pelo Dia da Erradicação da Pobreza e dos Sem-Abrigo. A celebração acontece na Igreja de São Roque, em Lisboa, às 18h30. É presidida por D. Rui Valério, bispo das Forças Armadas.


PJ pede ajuda para identificar 38
O site da PJ tem um espaço dedicado à identificação de pessoas, cujos corpos foram encontrados, mas não foi possível a identificação. A página dá conta de 38 cadáveres. O alerta mais recente é de 2021 e o mais antigo de 2002. 

saiba mais
412 euros
é o custo do serviço básico de funeral social, pago pela Santa Casa de Lisboa, desde 1995. Realizam-se, normalmente, no Cemitério do Alto de São João.

Prazo de um mês
Quando o Instituto de Medicina Legal recebe um corpo por reclamar, a regra é esperar um mês para o libertar. Prazo alargado quando são estrangeiros.
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