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Problemas de visão afectam 5 milhões

Metade da população portuguesa, cerca de cinco milhões de indivíduos, vê mal, ao perto ou ao longe, ou sofre de uma doença dos olhos mais ou menos grave, segundo o presidente da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia, Florindo Esperancinha.
9 de Agosto de 2006 às 13:00
O exame clínico detecta algum problema visual
O exame clínico detecta algum problema visual FOTO: Mariline Alves
Para tratar tantos doentes estão inscritos na Ordem dos Médicos 810 médicos oftalmologistas. O problema é que muitos têm vindo a reformar-se e já não exercem a profissão. Contas feitas, cada especialista tem, em média, pelo menos 6173 doentes para consultar.
Em declarações ao CM, o médico oftalmologista, também membro da Comissão Nacional do Plano de Saúde da Visão, reconhece que existem poucos especialistas a trabalhar em Portugal, situação que acaba por provocar longos períodos de espera para os doentes até conseguirem uma consulta externa num hospital público ou uma cirurgia aos olhos.
Florindo Esperancinha sublinha a necessidade de rastrear os casos que são prioritários: “É necessário criar prioridades e ver realmente quais são os casos mais urgentes para assistir, porque se os cinco milhões de portugueses que vêem mal marcassem consulta na oftalmologia, todos os anos, para mudar as lentes dos óculos, não teríamos médicos oftalmologistas suficientes para tratar os casos realmente graves e urgentes.”
ACTIVIDADE LIMITADA
A escassez do número de médicos não é exclusiva desta especialidade clínica e aquele responsável lembra que também “existe carência de profissionais noutras áreas da Medicina, como a pediatria, anestesia”.
Florindo Esperancinha recorda que muitos dos 810 especialistas inscritos na Ordem têm vindo a reformar-se nos últimos anos e não têm sido substituídos.
Acrescenta que há médicos que têm a actividade limitada, ou seja, não exercem actividade no sector público, apenas no privado, o que acaba por fazer aumentar as listas de espera dos doentes nos hospitais públicos.
A falta de abertura de vagas nos hospitais é a razão avançada para justificar tão limitado número destes profissionais de saúde.
São os doentes que sentem na pele este problema quando desesperam longos meses até conseguirem ser consultados. Estima-se que mais de 175 mil portugueses têm cataratas, uma doença dos olhos que provoca a perda progressiva da visão, mas que é tratada com uma cirurgia.
150 MIL GLAUCOMAS
Além destes, cerca de 150 mil portugueses sofrem de glaucoma, problema mais grave da visão, porque conduz à cegueira, de forma irreversível.
Estes dados vêm reforçar os resultados de um estudo recentemente divulgado e realizado pelo Observatório Nacional de Saúde (ONSA), através de inquéritos telefónicos a 2392 indivíduos.
O estudo revela um dado preocupante: uma percentagem elevada de portugueses a partir dos 25 anos (dez por cento, que corresponde a 1844 indivíduos) sofre de cataratas. Mas não só. O glaucoma foi detectado a dois por cento dos inquiridos.
Neste estudo, a percentagem dos indivíduos com mais de 18 anos que usava óculos de correcção atinge os 72 por cento
Os que referiram ter, pelo menos, uma actividade limitada devido a problemas de visão responderam 16 por cento.
Metade das crianças (54 por cento), dos zero aos 14 anos, nunca foram consultadas por um oftalmologista.
RECURSO AO OPTOMETRISTA
Os optometristas são os técnicos que, muitas vezes, vêm resolver o problema aos doentes que sentem dificuldade em obter um consulta oftalmológica. Não é de estranhar, portanto, que este ramo do negócio tenha florescido nos últimos anos, com o crescente aumento de estabelecimentos de óptica, tal como a Multiópticas e a Optivisão. Estes técnicos especializados não substituem os médicos, mas completam os cuidados da visão, pois são treinados para detectar as doenças oculares e remeter os doentes para um médico. O optometrista é um profissional com mais conhecimentos técnicos que o óptico e é especializado na detecção dos defeitos visuais e na sua correcção. Analisa os olhos, prescreve e ajusta óculos e lentes de contacto e tratamentos para melhorar a visão. Neste grupo inserem-se outras profissões, óptico-optometrista, técnico de óptica ocular e técnico de contactologia.
ANO E MEIO À ESPERA
Rosália Baião, 59 anos, é diabética e tem cataratas, o que lhe reduz a capacidade de ver. Ao CM queixa-se da demora por uma consulta de oftalmologia no Hospital Amadora-Sintra. “Espero e desespero há ano e meio.” Esta empregada doméstica diz que já foi ao hospital apurar a razão da demora na convocação e ter-lhe-á sido dito que a falta de indicação de urgência na credencial médica, emitida pelo centro de saúde, fez com o seu nome constasse de uma lista de espera. Rosália Baião sente maior dificuldade em distinguir objectos e a leitura é uma actividade que exige esforço. “Sou diabética e devia ter assistência médica regular porque a diabetes provoca complicações oculares. Mas tenho de esperar pela consulta, não tenho meios para recorrer ao médico privado.”
Fonte do hospital afirma ao CM que a unidade de saúde dispõe de 13 oftalmologistas, para uma população de 650 mil habitantes. A espera média por uma consulta é de ano e meio. “Se a pessoa precisa, deve ir à Urgência, que é atendida com toda a certeza.”
RASTREIO EVITA CEGUEIRA
Os oftalmologistas alertam para a necessidade de um rastreio periódico, em especial quem tem problemas oculares, uma vez que o glaucoma – doença que provoca irreversivelmente a cegueira – é assintomática, não dá sintomas.
O oftalmologista Florindo Esperancinha sublinha que esta doença não afecta apenas as pessoas mais idosas e recorda dois casos recentes: “Ainda há duas semanas foram ao Serviço de Urgência hospitalar dois jovens, com pouco mais de 30 anos, que subitamente deixaram de ver. Foi-lhes diagnosticado glaucoma e nunca sentiram qualquer problema de visão. A um dos doentes estamos a ver se é possível salvar a visão de um olho.” O diagnóstico é feito através de exame oftalmológico.
ALGUMAS PERGUNTAS FREQUENTES
Com que frequência devo examinar os meus olhos?
Os indivíduos saudáveis devem ser examinados entre os 20 e 40 anos. As pessoas de raça negra devem despistar o glaucoma de 4 em 4 anos. Diabéticos ou com outras doenças, uma vez por ano.
Devemos ou não usar óculos de sol?
Pessoas expostas à luz solar têm tendência a ter doença ocular. Óculos de sol muito escuros não significam maior protecção aos raios ultravioleta. É preciso escolher lentes que os filtram.
Os ecrãs de computador fazem mal aos olhos?
Testes efectuados em vários países não indicam evidências científicas de que ecrãs sejam prejudiciais aos olhos, apesar de emitirem quantidades muito pequenas de radiações em funcionamento.
CONSELHOS
PRIMEIROS EXAMES
Os oftalmologistas aconselham um exame médico aos olhos a todas as crianças, mesmo que não tenham problemas. Não há datas para o fazer, mas para despistar certas doenças é necessário exames oftalmológicos nos primeiros dias de vida, seis meses de idade, pelos dois anos e à entrada para a escola.
AUTOMEDICAÇÃO
Nunca devem ser usados colírios ou pomadas oftálmicas de outras pessoas, porque podem transmitir doenças, além de poderem não estar indicadas para o tratamento do próprio caso. Também não devem recorrer à automedicação, porque há medicamentos prejudiciais aos olhos.
REGULAR O PC
Os utilizadores de computadores devem regular o brilho e o contraste do monitor, de forma a que se torne menos “agressivo” para os olhos. Deve se evitar o reflexo no monitor de luzes ambientes e “trabalhar em negativo”, ou seja, trabalhar com um fundo preto e letras brancas.
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