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Frederico Morais: “A minha infância não foi como a dos outros rapazes”

Kikas tem 25 anos e viaja sozinho desde os 10. Este surfista de Cascais garantiu a qualificação para o circuito mundial
Marta Martins Silva 29 de Janeiro de 2017 às 15:00
Frederico Morais, conhecido por Kikas no surf, tem 25 anos
Frederico Morais, conhecido por Kikas no surf, tem 25 anos FOTO: Sérgio Lemos

Garantiu o acesso à elite do surf no final de 2016 ao carimbar o acesso ao circuito mundial, que começa em março e termina em dezembro, com um inesperado segundo lugar na Vans World Cup, no Havai. Antes dele só Tiago ‘Saca’ Pires tinha conseguido chegar ao campeonato dos ‘grandes’.

Quando chegou ao aeroporto em dezembro, depois de garantir um lugar no circuito mundial em 2017, sentiu-se o Cristiano Ronaldo?Não diria o Cristiano Ronaldo, mas senti-me importante. Foi uma chegada memorável.

Aos sete anos escreveu uma carta para a revista Surf Portugal a dizer ‘Olá, eu sou o Frederico e ainda vão falar muito de mim’. Aos 24 concretizou um sonho que só está ao alcance dos melhores.
Acho que esperei o tempo certo. Chegar ao World Tour é um objetivo muito difícil, é preciso muito trabalho, muitas viagens, muito treino, muito sacrifício.

Quando começou a surfar?
Devia ter cinco, seis anos a primeira vez que me pus em pé numa prancha em Vilamoura. Fui com o meu pai, nas espuminhas, houve um levante. E quando voltei aqui para o Guincho pedi uma prancha de surf .

Quando percebeu que o surf era mais do que um passatempo?
Aos 14 anos sagrei-me campeão nacional sub-21 e foi aí que tanto eu como os meus pais percebemos que havia mais do que Portugal, que podíamos chegar mais longe. Na altura o surf em Portugal não era o que é hoje, não era fácil viajar e ter de ir às aulas, a minha mãe tinha de ir comigo para me ajudar a estudar e para eu não perder nada. Desde os meus 11 anos que vamos um mês para o Havai e um mês para a Austrália. 

Houve um grande investimento.
Desde muito cedo sempre me apoiaram, viajaram comigo, levavam-me para surfar de manhã, no inverno, ao frio... O meu pai não saía da praia, sempre de câmara na mão para me ajudar. Para ele foi uma transição difícil, ele era jogador de râguebi e teve um filho que quer ser surfista profissional. Acabou por ser o meu treinador e só aos 16 anos, 17 anos passei para o meu treinador atual, australiano.

Como se conheceram?
Através da marca que me patrocina, que é a Billabong, que o contratou para acompanhar os juniores europeus. Depois, acabou por ficar o treinador internacional que me acompanha a mim neste momento, ao Ryan Kelly, que é australiano, ao Josh Moniz, que é havaiano…

É um treinador top?
Sim. Muito top.

Falou dos sacrifícios que o surf exige. Que sacrifícios são esses?
Estar longe da família. A minha infância não foi como a de muitos rapazes a brincar e jogar à bola. Eu viajava muito, desde os 10 anos que viajo sozinho, passava três meses na Austrália, por exemplo.

Sozinho?
Tive a sorte sempre de viajar com um fotógrafo (Carlos Pinto) que é como um pai para mim. Desde os meus 10 anos que viajo com ele. A minha mãe levou-me de mão dada até ao aeroporto a primeira vez e passou a minha mão para a mão dele e disse ‘toma bem conta do meu menino’. Foi uma sorte ter uma pessoa que cuidava de mim.

Mas custava na mesma.
Quando era mais pequenino lembro-me de telefonar muitas vezes a chorar, com saudades, e queria voltar, mas arranjávamos sempre uma força extra para continuar.

Apanhou algum susto no mar?
No Havai, aos 14 anos. Bati nas rochas, em pipeline, levei 14 pontos na cabeça e 14 pontos nas costas.

O seu pai costumava dizer-lhe que só podia terminar o treino quando fizesse uma onda boa.
A mensagem era essa: estamos aqui a treinar e tu tens de sair com uma onda boa. Arranja uma onda, faz o que conseguires e o que não conseguires. E ainda hoje eu não consigo sair da água sem uma onda boa, porque é a nossa ultima memória.

Quando termina a carreira de um surfista?
A idade não sei. Temos o Kelly Slater que já esta na casa dos quarenta e continua a surfar e a dar cartas. O ‘Saca’ deixou de competir aos 34 anos mas nunca deixou de surfar.

Aos 18 anos ofereceu uma viagem à sua avó com o dinheiro que ganhou. Quando é que começou a ganhar dinheiro com o surf?
Para ser sincero não sei, sempre deixei isso para a minha mãe. O meu foco não era esse.

Lembra-se de quanto foi o primeiro ordenado?
Honestamente não sei. Tenho patrocínios desde muito novo mas a minha preocupação tinha de ser estudar e surfar.

Os patrocínios são um investimento que as marcas fazem nos atletas ajudando-os a viajar e a participar nos campeonatos...
Sim, e felizmente tenho representado as marcas da melhor forma.

Como funciona o cachet de um surfista?
Depende dos objetivos que alcançarmos e depende das marcas. E depois, nos campeonatos, temos os ‘prize money’ (prémios monetários) consoante os resultados que atingimos, assim como o ténis, uma final é x, meia-final x…

Qual foi o melhor ‘prize money’ que recebeu?
É capaz de ter sido agora no Havai, quando ganhei o 2º lugar.

Quanto foi?
20 mil dólares (19 mil euros).

São valores altos para a modalidade?
São valores justos, são bons valores. Li que os melhores surfistas estão quase ao nível dos jogadores de futebol a nível de rendimentos. Não sei quanto é que a maior parte dos surfistas recebe nem quanto recebem os jogadores de futebol, a não ser o Cristiano Ronaldo.

Ainda não ganha tanto como o Cristiano Ronaldo?
Acho que não, acho que não.  

PERFIL 

Frederico Morais nasceu a 3 de janeiro de 1992 em Cascais, filho e sobrinho de jogadores de râguebi. Tem uma irmã mais nova. Foi campeão nacional pela 1ª vez aos 10 anos. Está atualmente em 44º lugar no ranking da World Surf League e em breve partirá para o Havai, onde começará a treinar para o campeonato que o espera.  

CURIOSIDADES 

Guincho é a praia da infância de Frederico Morais. 

Vai ao ginásio todos os dias para manter o corpo saudável e preparado para o surf.

Kelly Slater "é o melhor surfista de todos os tempos". Cresceu a admirá-lo e conseguiu vencê-lo em 2013, no Moche Pro Portugal. "Acho que ele me perdoou, já falámos depois disso." 

Quando está em Portugal vive na casa dos pais, mas passa mais de metade do ano atrás das melhores ondas pelo Mundo. 

Assédio feminino? "Tenho namorada, por isso não posso dizer nada sobre isso."

Se não fosse surfista podia bem ser jogador de futebol, desporto que gosta de praticar. Também não diz que não a uma partida de ténis.

A praia dos Coxos, na Ericeira, é a que tem a onda preferida de Kikas.

Tiago ‘Saca’ Pires foi o único surfista português que atingiu o patamar em que está agora Frederico Morais. "Foi-me ajudando, dando dicas, levou-me para a Austrália com ele. Foi um bom mentor."

Portugal "Vejo muito mais pessoas na água a surfar. Mesmo durante a semana, mesmo quando está frio. E o próprio mediatismo do surf, os campeonatos que temos e os resultados dos portugueses têm dado a conhecer o surf como um desporto nacional."

Rivalidades na modalidade "Amigos amigos, ondas à parte. Fora de água há respeito e somos amigos, mas dentro de água cada um está ali para fazer o seu trabalho, é competição." 

Maior onda no Hawai em 2013. "Devia ter quatro metros."

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